O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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que não era menos odiado pelos
cavaleiros, foi acusado deter recebido presentes e foi condenado a uma multa. Ele fez, no
mesmo instante, cessão de bens. Sua inocência ficou clara pelo fato de que encontraram
muito menos bens do que era acusado de ter roubado, e ele mostrava os títulos de sua
propriedade. Ele não quis mais permanecer na cidade com tal gente..
"Os italianos", conta ainda Diodoro, "compravam na Sicília tropas de escravos para arar
seus campos e cuidar de seus rebanhos: negavam-lhes a alimentação. Estes infelizes foram
obrigados a ir roubar nas estradas, armados com lanças e porretes, cobertos com peles de
animais, com grandes cães à sua volta. Toda a província foi devastada, e as pessoas do
lugar só podiam dizer que possuíam o que se encontrava no interior dos muros da cidade.
Não havia nem procônsul, nem pretor que pudesse ou que quisesse opor-se a esta desordem e
ousasse punir aqueles escravos, porque eles pertenciam aos cavaleiros que em Roma
detinham os julgamentos”. Esta foi, no entanto, uma das causas da guerra dos escravos.
Direi só uma palavra: uma profissão que não tem nem pode ter outro objeto a não ser o
lucro, uma profissão que sempre pedia e a quem nada se pedia; uma profissão surda e
inexorável, que empobrecia as riquezas e até mesmo a miséria, não deveria deter em Roma
os julgamentos.

CAPÍTULO XIX
Do governo das províncias romanas

Assim foram os três poderes distribuídos na cidade, mas estão longe de ter sido assim
distribuídos nas províncias. A liberdade estava no centro e a tirania, nas extremidades.
Enquanto Roma só dominou na Itália, os povos foram governados como confederados.
Seguiam-se as leis de cada república. Mas, quando ela ampliou suas conquistas e o senado
perdeu a supervisão direta das províncias e os magistrados que estavam em Roma não
puderam mais governar o império, foi preciso enviar pretores e procônsules. A partir daí,
esta harmonia dos três poderes não mais se verificou. Aqueles que eram enviados tinham um
poder que reunia o de todas as magistraturas romanas, que digo? o do próprio senado, o do
próprio povo. Eram magistrados despóticos, bastante adequados à distância dos lugares
para onde eram enviados. Exerciam os três poderes: eram, se ouso utilizar este termo, os
paxás da república.
Dissemos em outro lugar que os mesmos cidadãos na república possuíam, pela natureza das
coisas, empregos civis e militares. Isto faz com que uma república que conquista não
possa comunicar seu governo e reger o Estado conquistado segundo a forma de sua
constituição. De fato, uma vez que o magistrado que ela envia para governar possui o
poder executivo, civil e militar, é preciso que possua também o poder legislativo, pois
quem faria as leis sem ele? É preciso também que possua o poder de julgar, pois quem
julgaria independentemente dele? Logo, é preciso que ó governador que ela envia tenha os
três poderes, como acònteceu nas províncias romanas.
Uma monarquia pode facilmente comunicar seu governo, porque os oficiais que ela envia
possuem uns o poder executivo civil, outros o poder executivo militar; o que não traz
consigo o despotismo.
Era um privilégio de grande conseqüência para um cidadão romano o de só poder ser julgado
pelo povo. Sem isso, ele estaria submetido, nas províncias, ao poder arbitrário de um
procônsul, ou de um propretor. A cidade não sentia a tirania, que só era exercida sobre
as nações submetidas.
Assim, no mundo romano, como na Lacedemônia, aqueles que eram livres eram extremamente
livres e aqueles que eram escravos eram extremamente escravos.
Enquanto os cidadãos pagavam impostos, estes eram arrecadados com uma eqüidade muito
grande. Seguia-se o que Sérvio Túlio havia estabelecido; ele havia distribuído todos os
cidadãos em seis classes, segundo a ordem de suas riquezas, e havia fixado a parte de
imposto na proporção daquela que cada um possuía no governo. Seguia-se daí que se

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suportava a grandeza do tributo por causa da grandeza da influência, e se consolava a
pequenez da influência pela pequenez do tributo.
Havia ainda uma coisa admirável; é que, como a divisão por classes de Sérvio Túlio era,
por assim dizer, o princípio fundamental da constituição, acontecia que a eqüidade na
arrecadação dos impostos estava ligada ao princípio fundamental do governo e só podia ser
suprimida com ele.
Mas, enquanto a cidade pagava os tributos sem dificuldades ou até mesmo não pagava nada,
as províncias eram devastadas pelos cavaleiros, que eram os publicamos da república. Já
falamos de suas vexações, e toda a história está cheia delas.
"Toda a Ásia espera por mim como seu libertador", dizia Mitridates; "tanto ódio excitaram
contra os romanos as rapinas dos procônsules, os abusos dos homens de negócios e as
calúnias dos julgamentos.
Eis o que fez com que a força das províncias não aumentasse em nada a força da república
e, pelo contrário, só a enfraquecesse. Eis o que fez com que as províncias romanas vissem
a perda da liberdade de Roma como o momento do estabelecimento da sua própria liberdade.

CAPÍTULO XX
Fim deste livro

Gostaria de pesquisar, em todos os governos moderados que conhecemos, qual é a
distribuição dos três poderes e através disso calcular os graus de liberdade de que cada
um pode gozar. Mas nem sempre se deve esgotar tanto um assunto, que nada se deixe para o
leitor fazer. Não se trata de fazer ler, e sim de fazer pensar.

LIVRO DÉCIMO SEGUNDO
Das leis que formam a liberdade política em sua relação com o cidadão

CAPÍTULO I
Idéia deste livro

Não é suficiente ter tratado da liberdade política em sua relação com a constituição; ela
deve ser mostrada em sua relação com o cidadão.
Eu disse que, no primeiro caso, ela é formada por uma certa distribuição dos três

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poderes; mas, no segundo, deve ser considerada sob outra idéia. Consiste na segurança ou
na opinião que se tem de sua segurança.
Pode acontecer que a constituição seja livre e que o cidadão não o seja. O cidadão poderá
ser livre e a constituição não o será. Nestes casos, a constituição será livre de
direito, e não de fato; o cidadão será livre de fato, e não de direito.
Somente a disposição das leis, e mesmo das leis fundamentais, forma a liberdade em sua
relação com a constituição. Mas, na relação com o cidadão, costumes, maneiras, exemplos
recebidos podem fazê-la nascer; e certas leis civis podem favorecê-la, como veremos neste
livro.
Além disto, na maioria dos Estados, como a liberdade é mais incomodada, ferida ou abatida
do que requer sua constituição, é bom faiar das leis particulares que, em cada
constituição, podem ajudar ou ferir o princípio da liberdade de que cada uma pode-ser
suscetível.

CAPÍTULO II
Da liberdade do cidadão

A liberdade filosófica consiste no exercício de sua vontade, ou pelo menos se devemos
falar em todos os sistemas na opinião que se tem de que se exerce sua vontade. A
liberdade política consiste na segurança, ou pelo menos na opinião que se tem de sua
segurança.
Esta segurança nunca é mais atacada do que nas acusações públicas ou privadas. Assim, é
da excelência das leis criminais que depende principalmente a liberdade do cidadão.
As leis criminais não foram aperfeiçoadas de repente. Nos próprios lugares em que mais se
buscou a liberdade, nem sempre ela foi encontrada. Aristóteles conta-nos que, em Cumes,
os pais do acusador podiam ser testemunhas. Sob as leis de Roma, a lei era tão imperfeita
que Sérvio Túlio pronunciou a sentença contra os filhos de Ancus Martius, acusados de
terem assassinado o rei, seu sogro. Sob os primeiros reis dos francos,