O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu


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uma pedra contra uma
estátua do imperador não deveria ser perseguido como criminoso de lesa-majestade. A lei
Júlia exigia estes tipos de modificações, pois havia tornado culpados de lesa-majestade
não só aqueles que fundissem as estátuas dos imperadores, como também aqueles que
cometessem alguma ação semelhante, o que tornava este crime arbitrário. Quando foram
estabelecidos muitos crimes de lesa-majestade, foi necessário diferenciar estes crimes.
Assim, o jurisconsulto Ulpiano, após haver dito que a acusação pelo crime de
lesa-majestade não se apagava com a morte do culpado, acrescenta que isto não envolve
todos os crimes de lesa-majestade estabelecidos pela lei Júlia, mas apenas aquele que
envolve um atentado contra o império ou contra a vida do imperador.
CAPÍTULO X
Continuação do mesmo assunto
Uma lei da Inglaterra, decretada sob Henrique VIII, declarava culpados de alta traição
todos aqueles que predissessem a morte da rei. Esta lei era muito vaga: O despotismo é
tão terrível que ele se volta contra aqueles que exercem.
Durante a última doença do rei, os médios não; ousaram nunca dizer que ele corria perigo
e agiram; sem dúvida, em conseqüência.
CAPÍTULO XI
Dos pensamentos
Um certo Mársias sonhou que cortava o pescoço de Dionísio. Este mandou matá-lo, dizendo
que não teria sonhado com isto a noite se não o tivesse pensado de dia. Tratava-se, de
uma grande tirania, pois, ainda que o tivesse pensado, não o tinha tentado. As leis só se
encarregam de castigar, as ações exteriores.
CAPÍTULO XII
Das palavras indiscretas
Nada torna o crime de lesa-majestade mais arbitrário do que quando palavras indiscretas
tornam-se sua matéria. Os discursos são tão sujeitos á interpretação, há tanta diferença
entre a indiscrição e a malícia e tão pouca nas expressões que ambas empregam, que a lei
não pode submeter palavras a uma pena capital, a não ser que declare expressamente
aquelas que a ela são submetidas.
As palavras não formam um corpo de delito; elas ficam apenas na idéia. Na maioria das
vezes, nada significam por si mesmas, mas pelo tom pelo qual são ditas. Muitas vezes,
repetindo as mesmas palavras, não se dá o mesmo sentido; este sentido depende da ligação
que possuem com outras coisas. Às vezes, o silêncio expressa mais do que todas as
palavras. Não há nada mais equívoco do que tudo isso. Então, como fazer delas um crime de
lesa-majestade? Em todos os lugares em que esta lei vigora, não só a liberdade não mais
existe, como nem mesmo sua sombra.
No manifesto da finada czarina, dirigido contra a família de Olgourouki, um destes
príncipes foi condenado á morte por haver proferido palavras indecentes que tinham
relação com sua pessoa; outro, por haver malignamente interpretado suas sábias
disposições sobre a império e ofendido sua pessoa sagrada com palavras pouco respeitosas.
Não pretendo diminuir a indignação que se deve ter contra aqueles que querem manchar a
glória de seu príncipe; mas eu diria que, se quisermos moderar o despotismo, uma simples
punição correcional será mais apropriada nestas ocasiões do que uma acusação de
lesa-majestade, sempre terrível para a própria inocência.
As ações não são praticadas todos os dias; muitas pessoas podem reparar nelas; uma falsa
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acusação sobre fatos pode ser facilmente esclarecida. As palavras que estão unidas a uma
ação adquirem a natureza desta ação. Assim, um homem que vai à praça pública exortar os
súditos à revolta toma-se culpado de lesa-majestade, porque as palavras estão unidas à
ação e dela participam. Não são as palavras que são castigadas, e sim uma ação cometida,
na qual se usam palavras. Elas só se tomam crimes quando preparam, acompanham ou seguem
uma ação criminosa. Tudo ficará invertido se fizermos das palavras um crime capital, em
vez de tomá-las como o sinal de um crime capital.
Os imperadores Teodásio, Arcádio e Honório escreveram a Rufino, prefeito da pretoria: "Se
alguém falar mal de nossa pessoa ou de nosso governo, não queremos castigá-lo: se falou
por descuido, deve ser desprezado; se foi por loucura, deve-se ter pena dele; se foi uma
injúria, deve ser perdoado. Assim, deixando as coisas como estão, vós no-las
comunicareis, a fim de que julguemos as palavras pelas pessoas e pesemos bem se devemos
submetê-las ao julgamento ou deixá-las de lado."
CAPÍTULO XIII
Dos escritos
Os escritos contêm algo de mais permanente do que as palavras; mas, quando ião preparam
para um crime de lesa-majestade, não são matéria de crime de lesa-majestade.
No entanto, Augusto e Tibério lhes atribuíram a pena deste crime; Augusto, por ocasião de
certos escritos contra homens e mulheres ilustres; Tibério, por causa aqueles que pensou
terem sido feitos contra si. Nada foi mais fatal para a liberdade romana. Cremutius
Cordus foi acusado porque havia chamado, em seus anais, a Cássio o último dos romanos.
Os textos satíricos mal são conhecidos nos Estados despóticos, onde o abatimento por um
lado e a ignorância pôr outro não dão nem o talento nem a vontade de escrevê-lós. Na
democracia, eles não são impedidos, pela mesma razão que faz com que sejam proibidos no
governo de um só. Como são normalmente compostos contra pessoas poderosas, contentam na
democracia a malignidade do povo que governa. Na monarquia, são proibidos; mas faz-se
deles mais um caso de polícia do que um crime. Podem divertir a malignidade geral,
consolar os descontentes, diminuir a ganância por cargos, das ao povo a paciência de
sofrer e fazê-lo rir de seus sofrimentos.
A aristocracia é o governo que mais proscreve as obras satíricas. Ali os magistrados são
pequenos soberanos que não são grandes o suficiente para desprezar as injúrias. Se na
monarquia alguma troça vai contra o monarca, ele está tão alto que a troça não chega até
ele. Um senhor aristocrático se vê atravessado de um lado a outro. Assim, os decênviros,
que formavam uma aristocracia, castigaram com a morte os escritos satíricos.
CAPÍTULO XIV
Violação do pudor na punição dos crimes
Existem regras de pudor observadas em quase todas as nações do mundo: seria absurdo
violá-las na punição dos crimes, que sempre deve ter por objeto o restabelecimento da
ordem.
Os orientais, que expuseram mulheres a elefantes amestrados para um abominável tipo de
suplício, quiseram fazer com que a lei fosse violada pela lei?
Um antigo costume dos romanos proibia de matar as moças que :não fossem núbeis. Tibério
descobriu o expediente de fazer com que fossem violentadas pelo carrasco antes de
mandá-las para o suplício; tirano sutil e cruel, ele destruía a moral para conservar os
costumes.
Quando a magistratura japonesa expôs em praça-pública mulheres nuas e as obrigou a andar
como os animais, fez com que o pudor estremecesse; mas quando quis obrigar uma mãe...,
quando quis obrigar um filho..., não consigo terminar, ela fez a própria natureza
estremecer.
CAPÍTULO XV
Da alforria do escravo para acusar o senhor
Augusto estabeleceu que os escravos daqueles que tivessem conspirado contra ele seriam
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vendidos ao publico, para que pudessem depor contra seu senhor. Não se deve negligenciar
nada que leve à descoberta de um grande crime. Assim, num Estado onde existem escravos, é
natural que eles possam ser informantes; mas eles não poderiam ser testemunhas.
Vindex informou sobre a conspiração feita em favor de Tarquínio, mas não foi testemunha
contra os filhos de Brutus. Era justo dar a liberdade para aquele que tinha prestado tão
grande serviço à pátria; mas não lhe foi dada para que prestasse este serviço à pátria.
Assim, o imperador Tácito ordenou