O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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que os escravos não seriam testemunhas contra seu
senhor, até mesmo no caso de crime de lesa-majestade: lei esta que não foi incluída na
compilação de Justiniano.

CAPÍTULO XVI .
Calúnia no crime de lesa-majestade

Deve-se fazer justiça aos Césares; não foram os primeiros a imaginar as tristes leis que
criaram. Foi Sila quem lhes ensinou que não se deviam castigar os caluniadores. Logo
chegariam a ser até mesmo reconpensados.
CAPÍTULO XVII
Da revelação das conspirações

"Ainda que teu irmão, ou teú filho, ou tua filhó; ou tua mulher amada, ou teu amigo, que
é como tua alma, te digam em segredo: Vamos para outros deuses, tu os lapidarãs:
primeiro, tua mão estará sobre ele, depois a de todo o povo." Esta lei do Deuteronômio
não pode ser uma lei civil na maioria dos povos que conhecemos, porque ela abriria a
porta para todos os crimes.
A lei que ordena, em muitos Estados, sob pena de morte, de revelar até as conspirações
nas quais não se colaborou não é menos dura. Quando é levada ao governo monárquico,
convém restringi-la.
Nele, só deve ser aplicada com toda a sua severidade ao crime de lesa-majestade de
primeiro grau. Nestes Estados, é muito importante não confundir os diferentes graus deste
crime.
No Japão, onde as leis invertem todas as idéias da razão humana, o crime de não-revelação
aplica-se aos casos mais ordinários.
Um relato conta-nos sobre duas donzelas que foram trancadas até a morte num cofre cheio
de pontas; uma, por ter tido alguma intriga de galanteria; a outra, por não tê-la
revelado.

CAPÍTULO XVIII
Quão perigoso é nas repúblicas punir demais o crime,
de lesa-majestade

Quando uma república conseguiu destruir aqueles que queriam derrubá-la, deve-se apressar
em pôr fim às vinganças, às penas e até mesmo às recompensas.
Não se podem realizar grandes punições, e por conseguinte, grandes mudanças, sem colocar
entre as mãos de alguns cidadãos um grande poder. Logo, é melhor, neste caso, muito
perdoar do que muito punir; pouco exilar do que muito exilar; deixar os bens do que
multiplicar os confiscos. Sob pretexto da vingança da república, seria estabelecida a
tira nia dos vingadores. Não se trata de destruir aquele que domina, e sim a dominação.
Deve-se voltar o mais rápido possível para o andamento normal do governo, onde as leis
protegem tudo e não se armam contra ninguém.
Os gregos não colocaram limites nas vinganças que fizeram dos tiranos ou daqueles que
suspeitaram sê-lo. Mandaram matar seus filhos, por vezes cinco entre os parentes
próximos. Expulsaram uma infinidade de famílias. Suas repúblicas estremeceram com isto; o
exílio ou a volta dos exilados sempre foram momentos que marcaram a mudança da
constituição.
Os romanos foram mais sábios. Quando Cássio foi condenado por ter aspirado à tirania,
cogitou-se mandar matar seus filhos: não foram condenados a nenhuma pena. "Aqueles que
quiseram", afirma Dionísio de Halicamasso, "mudar esta lei no fim da guerra dos Marsos e
da guerra civil e excluir dos cargos os filhos dos proscritos por Sila são muito
criminosos."

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Podemos observar nas guerras de Mário e de Sila até que ponto as almas se tinham
depravado pouco apouco entre os romanos. Parecia que coisas tão funestas não se veriam
mais. Mas sob os triúnviros quiseram ser mais cruéis e aparentá-lo menos: ficamos
arrasados ao ver os sofismas que a crueldade empregou. Encontramos em Apiano a fórmula
das proscrições. Dir-se-ia que não têm outro objetivo além do bem da república, tanto
falam com sangue-frio, tanto mostram as vantagens, tanto os meios que empregam são
preferíveis a outros, tanto os ricos ficarão em segurança, tanto o povo ficará tranqüilo;
tanto temem colocar em perigo a vida dos cidadãos, tanto querem apaziguar os soldados,
tanto, enfim, todos serão felizes.
Roma estava banhada em sangue quando Lépido venceu a Espanha e, por um absurdo sem igual,
sob pena de proscrição, ele ordenou que se festejasse.

CAPÍTULO XIX
Como se suspende o uso da liberdade na república

Há, nos Estados em que se faz mais caso da liberdade leis que a violam contra um só, para
preservá-la para todos, Assim são, na Inglaterra, os bidds chamados de atingirs;. Estão
relacionados àquelas leis de Atenas que estatuíam contra um particular, contanto que
tivessem sido criadas pelo sufrágio de seis mil cidadãos. Estão relacionados àquelas leis
decretadas em Roma contra cidadãos particulares e que se chamavam privilégios. Só eram
decretadas nos grandes Estados do povo. Mas, seja qual for a maneira como o povo as
promulgasse, Cícero quis que fossem abolidas, porque a força da lei só consiste no fato
de estatuir sobre todos. No entanto, confesso que o uso dos povos mais livres que jamais
existiram sobre a terra faz com que eu acredite que existem casos em que se deve colocar
um véu sobre a liberdade, como se escondem as estátuas dos deuses.

CAPÍTULO XX
Das leis favoráveis à liberdade do cidadão na república

Acontece muitas vezes nos Estados populares que as acusações sejam públicas e seja
permitido a todo homem acusar quem quiser. Tal coisa fez com que se estabelecessem leis
próprias para proteger a inocência dos cidadãos. Em Atenas, o acusador que não tivesse
consigo a quinta parte dos sufrágios pagava uma multa de mil dracmas. Ésquines, que havia
acusado Ctesifonte, foi condenado. Em Roma, o acusador injusto era considerado infame, e
se imprimia a letra K na sua testa. Punham-se guardas junto ao acusador para que não
pudesse corromper os juízes ou as testemunhas.
Já falei daquela lei ateniense e romana que permitia ao acusado retirar-se antes do
julgamento.

CAPÍTULO XXI
Da crueldade das leis sobre os devedores na república

Um cidadão já se atribuiu uma superioridade suficiente sobre outro cidadão
emprestando-lhe um dinheiro que este só pediu emprestado para gastar, e, por conseguinte,
não tem mais. O que aconteceria numa república se as leis ainda aumentassem esta
servidão?
Em Atenas e em Roma, foi, em primeiro lugar,.permitido vender, os devedores que não
podiam pagar. Sólon corrigiu este costume em Atenas: ordenou que ninguém seria privado da
liberdade de seu corpo por dívidas civis. Mas os decênviros não reformaram da mesma forma
o costume em Roma; e, ainda que conhecessem a ordenação de Sólon, não quiseram segui-lo.
Este não é o único ponto da lei das Doze Tábuas onde se percebe o desejo dos decênviros
de contrariar o espírito da democracia.
Essas leis cruéis contra os devedores colocaram muitas vezes em perigo a república
romana. Um homem coberto de feridas escapou da casa de seu credor e apareceu em praça
pública. O público emocionou-se diante deste espetáculo. Outros cidadãos, que seus
credores não ousavam mais reter, saíram de suas celas. Fizeram-lhes promessas, faltaram a
elas: o povo retirou-se sobre o Monte Sagrado. Não obteve a anulação dessas leis, e sim

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um magistrado para defendê-lo. Estavam saindo da anarquia, pensaram estar caindo na
tirania. Manlio, para tomar-se popular, ia retirar das mãos dos credores os cidadãos que
estes haviam reduzido à escravidão. Os desígnios de Manlio foram prevenidos; mas o mal
continuava. Leis particulares deram aos devedores facilidades para pagar, e no ano de
Roma de 428 os cônsules criaram uma leite que retirou dos credores.o direito de manterem
os devedores em servidão em suas casas. Um usuário chamado Papirio tinha tido a intenção
de corromper, o pudor de um jovem chamado Públio que ele mantinha a ferros. O crime de
Sexto deu a Roma a liberdade política; o de Papírio deu a liberdade civil.
Foi o destino desta cidade que novos crimes confirmassem