O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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a liberdade que antigos crimes
lhe haviam proporcionado. O atentado de Ápio contra Virgínia devolveu ao povo aquele
horror pelos tiranos que a infelicidade de Lucrécia lhes havia dado. Trinta e sete anos
depois do crime do infame Papírio, um crime semelhante fez com que o povo se retirasse
sobre o Janículo e que a lei feita em favor da segurança dos devedores ganhasse novas
forças.
Desde aquele tempo, os credores foram mais perseguidos pelos devedores por terem violada
as leis feitas contra as usuras do que estes o foram por não as terem pago.

CAPÍTULO XXII
Das coisas que atacam a liberdade na monarquia.

A coisa mais inútil do mundo para o príncipe muitas vezes enfraqueceu a liberdade nas
monarquias: os comissários nomeados algumas vezes para julgar um particular:
O príncipe tem tão pouco proveito com os comissários, que não vale a pena que ele mude a
ordem das coisas-para isso. É moralmente seguro que ele tenha mais espírito de probidade
e de justiça do que seus comissários, que sempre se acham justificados por suas ordens,
por um obscuro interesse de Estado, pela escolha que se fez deles e por seus próprios
temores.
Sob Henrique VIII, quando se processava um par, ele era julgado por comissários tirados
da câmara dos pares: com este método, mandaram matar todos os pares que quiseram.

CAPÍTULO XXIII
Dos espiões na monarquia

São necessários espiões na monarquia? Não é a prática normal dos bons príncipes. Quando
um homem é fiel às leis, cumpriu com o que deve ao príncipe. É pelo menos necessário que
ele tenha sua casa como asilo, e o resto de sua conduta em segurança. A espionagem seria
talvez tolerável se fosse exercida por pessoas honestas; mas a infâmia necessária
da,pessoa demonstra a infâmia da coisa. Um príncipe deve agir para com seus súditos com
candura, cacas franqueza, com confiança. Aquele que tem tantas preocupações, suspeitas e
temores é um ator que não se sente à vontade cumprindo seu papel. Quando vê que, em
geral, as leis estão vigorando e são respeitadas, pode julgar-se em segurança. O
comportamento geral responde pelo comportamento de todos os particulares. Nada tema, pois
não poderia acreditar quanto as pessoas são levadas a amá-lo. Ora! Por que não seria
amado? Ele é a fonte de quase todo o bem que se faz, e quase todas as punições ficam por
conta das leis. Sempre se mostra ao povo com um rosto sereno; sua própria glória
comunica-se a nós, e seu poder nos sustenta. Uma prova de que o amamos é que temos
confiança nele e, quando um ministro nega, sempre imaginamos que o príncipe teria aceito.
Mesmo nas calamidades públicas, não acusamos sua pessoa; queixamo-nos de que ele nada
sabe, ou de que está cercado por pessoas corruptas. Se o príncipe soubesse.; diz o povo.
Estas palavras são uma espécie de invocação e uma prova da confiança que se tem nele.

CAPÍTULO XXIV
Das cartas anônimas

Os tártaros são obrigados a colar seu nome em suas flechas, para que se reconheça a mão
de onde partiram. Tendo Filipe de Macedônia sido ferido durante o cerco de uma cidade,
encontraram sobre a lança: Aster lançou este golpe mortal em Filipe. Se aqueles que
acusam um homem o fizessem em vista do bem público, não o acusariam diante do príncipe, e

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sim diante dos magistrados, que possuem regras que só são formidáveis para os
caluniadores. Se eles não querem deixar as leis entre eles e o acusado, é uma prova de
que possuem razões para temê-las; e a menor pena que se lhes pode infligir é não
acreditar neles. Só podemos prestar atenção aos casos que não poderiam sofrer a lentidão
da justiça ordinária e onde se trata da salvação do príncipe. Neste sentido, pode-se
acreditar que aquele que está acusando fez um esforço que soltou sua língua e o fez
falar. Mas, nos outros casos, deve-se dizer como o imperador Constâncio: "Não podemos
suspeitar daquele a quem faltou um acusador quando não lhe faltavam inimigos”.

CAPÍTULO XXV
Da maneira de governar na monarquia

A autoridade real é uma grande engrenagem que deve mover-se facilmente e sem ruídos. Os
chineses elogiam um de seus imperadores que governou, dizem, como o céu, isto é, com seu
exemplo.
Existem casos em que o poder deve agir, em toda a sua extensão; existem outros em que
deve agir por seus limites. O sublime da administração é o bom eonhecimem da, parte do
poder, grande ou pequena, que se deve utilizar nas diversas circunstâncias.
Em nossas monarquias, toda felicidade consiste na opinião que o povo tem da mansidão do
governo: im nannistro inábil sempre quer alertar-nos de que somos escravos. Mas, se assim
fosse, ele deveria tentar fazer que o ignorássemos. Não sabe dizer ou escrever nada além
de que o príncipe está zangado, está surpreso, que manterá a ordem. Há certa benevolência
no comando: é preciso que o príncipe encoraje e as leis ameacem.

CAPÍTULO XXVI
Na monarquia, o príncipe deve ser acessível

Isso será mais bem percebido por contrastes.
"O czar Pedro I", conta o senhor Perry, "deu uma ordem que proíbe que lhe apresentem um
pedido antes de ter apresentado dóis a seus oficiais. Podemos, em caso de negação de
justiça, apresentar-lhe o terceiro; mas aquele que estiver errado deve perder a vida. A
partir daí, ninguém mais apresentou pedidos ao czar."

CAPÍTULO XXVII
Dos costumes do monarca

Os costumes do monarca contribuem tanto para a liberdade quanto as leis; ele pode, como
elas, fazer dos homens animais e dos animais, homens, Se amar as almas livres, terá
súditos; se amar as almas baixas, terá escravos. Se quiser conhecer a grande arte de
reinar, que aproxime de si a honra e a virtude, que chame para si o mérito pessoal: Pode
até considerar por vezes os talentos. Não tema esses rivais a que chamam homens de
mérito; é seu igual, desde que os ame. Conquiste os corações, mas não cative os
espíritos. Tome-se popular. Deve orgulhar-se do amor do menor dentre seus súditos; são
todos homens. O povo requer tão pouca atenção, que é justo que ela lhe, seja dada: a
distância, infinita que este entre ele e o soberano o impede de incomodá-lo. Atento às
preces, seja ele firme contra os pedidos e saiba que seu povo se alegra, com suas recusas
e seus cortesãos, com suas graças.

CAPÍTULO XXVIII
Das atenções que os monarcas devem aos seus súditos

É preciso que sejam extremamente cuidadosos com as zombarias. Elas são causa de orgulho
quando são moderadas, porque permitem o acesso à familiaridade; mas uma zombaria picante
é-lhes muito menos permitida do que ao último de seus súditos, porque são os únicos que
sempre ferem mortalmente.
Menos ainda devem eles fazer a um de seus súditos uma injúria marcada: estão aí para,
perdoar, para castigar; nunca para insultar.

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Quando insultam seus súditos, tratam-nos mais cruelmente dó que tratam. os seus o turco
ou moscovita. Quando estes últimos insultam, eles humilham mas não desonram; mas, quanto
a eles, humilham e desonram.
Tão grande é o preconceito dos asiáticos, que vêem uma afronta feita pelo príncipe como o
resultado de uma bondade paternal; e tal é nossa maneira de pensar que juntamos ao cruel
sentimento da afronta o desespero de nunca poder limpá-la.
Devem ficar encantados de possuir súditos para os quais a honra é mais cara do que a
vida, e não é menos uma razão de fidelidade do que de coragem.
Podemos lembrar-nos das desgraças que aconteceram aos príncipes por haverem insultado
seus súditos; das vinganças de Quéreas, elo eunuco Narres e do conde Juliano; por fim, da
duquesa de Montpensier, que, furiosa contra Henrique III, que tinha revelado algum de
seus defeitos secretos, importunou-o por