O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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toda a vida.

CAPÍTULO XXIX
Das leis civis capazes de dar um pouco de liberdade ao
governo despótico

Ainda que o governo despótico, em sua naturezá;yja o mesmo em todo lugar, no entanto,
certas circuristâncias, uma opinião dê religião, um preconceito; exemplos recebidos, uma
maneira de pensar, certos costumes podem estabelecer consideráveis diferenças entre eles.
É, bom, que certas idéias estejam estabelecidas. Assim, na China; o príncipe é visto como
o pai do povo: e, no começo do império dos árabes, o príncipe era o seu pregador.
É bom que exista algum livro sagrado que sirva como regra, como o Alcorão para os árabes,
os livros de Zoroastro para os persas, o Veda para os indianos, os livros clássicos para
os chineses. O código religioso supre o código civil e detém a arbitrariedade.
Não é ruim que, nos casos duvidosos, os juízes consultem os ministros da religião. Assim,
na Turquia, os cádis interrogam os molás. Se o caso merecer a morte, pode ser conveniente
que o juiz particular, se ele existir, consulte a opinião do governador, para que o poder
civil e o eclesiástico sejam ainda temperados pela autoridade política.

CAPÍTULO XXX
Continuação do mesmo assunto

Foi o furor despótico que estabeleceu que a desgraça do pai acarretaria a dos filhos e
das mulheres. Já são infelizes sem serem criminosos e, além disto, é preciso que o
príncipe deixe entre ele e o acusado suplicantes para acalmar sua ira, ou para iluminar
sua justiça.
Trata-se de um bom costume dos maldivos que, quando um senhor cai em desgraça, vá todos
os dias fazer a corte ao rei, até que volte a ser agraciado; sua presença desarma a ira
do príncipe.
Existem Estados despóticos onde se pensa que falar ao príncipe em favor de alguém que
caiu em desgraça é faltar ao respeito que lhe é devido. Esses príncipes parecem fazer
todos os esforços para privar-se da virtude da clemência.
Arcádio e Honório, na lei de que tanto faleie, declaram que não darão graça àqueles que
ousarem suplicar em favor dos culpados. Esta lei era muito ruim, já que é ruim no própria
despotismo.
O costure da, Pérsia, que autoriza á quem quiser sair do reino, é muito bom; e, ainda que
o uso contrário tenha tido sua origem no despotismo, onde se consideravam os súditos como
escravos e aqueles que saem como escravos fugitivos, a pratica da Pérsia foi muito boa
para o despotismo, onde o temor da fuga dos devedores freia ou modera as perseguições dos
paxás e dos exatores.

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LIVRO DÉCIMO TERCEIRO
Das relações que arrecadação dos tributos e o volume da receita pública possuem com a
liberdade

CAPÍTULO I
Das rendas do Estado

As rendas do Estado são uma porção que cada cidadão dá de seus bens para ter a segurança
da outra ou para gozar dela agradavelmente.
Para estabelecer corretamente esta receita, devem-se considerar tanto as necessidades do
Estado quanto as necessidades dós cidadãos. Não se. deve tirar das necessidades reais do
povo para dar às necessidades ïmaginárias do Estado.
As necessidades imaginárias são o que exigem as paixões e as fraquezas daqueles que
governam; o encanto de um projeto extraordinário, a vontade doentia de uma glória vã e
certa impotência do espírito contra ás fantasias. Muitas vezes aqueles que, como espírito
inquieto, estavam na direção dos negócios sob o príncipe pensaram que as necessidades do
Estado eram as necessidades de suas almas pequenas.
Não há nada que a sabedoria e a prudência devam melhor regrar do que esta porção que se
retira e esta porção que se deixa para os súditos.
Não é sobre o que o povo pode dar que se devem medir as rendas públicas, e sim sobre o
que ele deve dar; e se forem medidas sobre o que ele pode dar é preciso que, pelo menos,
sejam medidas sobre o que ele pode sempre dar.

CAPÍTULO II
É raciocinar mal dizer que a grandeza dos tributos
seja boa por si mesma

Vimos que, em certas monarquias, pequenos países isentos de tributos eram tão miseráveis
quanto os lugares que, em tomo, estávam.sóbrecarregados de impostosr A razão priücipal é
que o pequeno Estado cercado não pode possuir indústria, arte ou manufatura; porque neste
sentido é incomodado de mil maneiras pelo grande Estado no no qual está encravado. O
grande Estado que o cérea possui a indústria, as manufaturas e as artes; e cria
regulamentos que só lhe proporcionam vantagens. O pequeno Estado torna-se então
necessariamente pobre, por menores que sejam os impostos que arrecade.
Concluiu-se, no entanto, da pobreza destes pequenos países que, para que o povo fosse
trabalhador, eram necessários, pesados impostos. Teriam feito melhor se concluíssem que
eles não eram necessários. São todos os miseráveis dos arredores que se retiram nestes
lugares para não fazerem nada; já desencorajados, pelos cansaços do, trabalho, fazem,
coro que. toda a felicidade consista na preguiça.

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O efeito das riquezas de um país é instalar a ambição em todos os corações. O efeito da
pobreza é fazer nascer o desespero. A primeira excita-se com o trabalho; a outra
consola-se com a preguiça.
A natureza é justa ,com os homens; recompensa suas penas; torna-os laboriosos porque a
maiores trabalhos liga as maiores recompensas. Mas, se um poder arbitrário retira as
recompensas da natureza, volta o desgosto pelo trabalho e a inação parece ser o único
bem.

CAPLTULO III
Dos tributos nas países onde uma parte do povo
é escrava da gleba

A escravidão da gleba estabelece-se por vezes após uma conquista. Neste raso, o escravo
que cultiva deve ser o colo no arrendatário do senhor. Apenas uma sociedade de perda e de
ganho pode reconciliar aqueles que estão destinados, a trabalhar com aqueles que estão
destinados a gozar.

CAPÍTULO IV
De uma república em igual caso

Quando uma república reduziu uma nação a cultivar as terras para ela, não se pode tolerar
que o cidadão possa aumentar o tributo da escravidão. Isso não era permitido na
Lacedemônia; pensava-se que os ilotas cultivariam melhor as terras se soubessem que sua
servidão não aumentaria; acreditava-se que os senhores seriam cidadãos melhores se
desejassem apenas o que estavam acostumados a possuir.

CAPÍTULO V
De uma monarquia em igual caso

Quando, numa monarquia, a nobreza faz cultivar as terras em seu proveito pelo povo
conquistado, também é preciso que o trabalho não possa aumentar. Além do mais, é bom que
o príncipe se contente com o seu domínio e com o serviço militar. Mas se quiser arrecadar
tributos em dinheiro sobre os escravos de sua nobreza é preciso que o senhor seja fiador
do tributo, que o pague por seus escravos e o recupere com eles; e, se esta regra não for
seguida, o senhor e aqueles que arrecadam os tributos para o príncipe atormentarão o
escravo seguidamente e o espoliarão um após o outro, até que ele pereça de miséria ou
fuja para os bosques.

CAPÍTULO VI
De um Estado despótico em igual caso

O que acabo de dizer é ainda mais indispensável no Estado despótico. O senhor que pode,
em qualquer momento, ser despojado de suas terras e de seus escravos não está muito
disposto a conservá-los.
Pedro I, querendo adotar a prática da Alemanha e arrecalar seus tributos em dinheiro,
criou um regulamento muito sábio que ainda é seguido na Rússia. O fidalgo cobra a taxa
dos camponeses e a paga ao czar. Se o número dos camponeses diminuir, ele paga
igualmente; se o número aumentar, não paga mais; logo, fica interessado em não atormentar
seus camponeses.
CAPÍTULO VII
Dos tributos nos países onde a escravidão da gleba
não foi estabelecida

Quando, num Estado, todos os particulares são cidadãos e cada um possui com seu