O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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as forças de
Atenas quanto foi difícil vencer sua virtude.
De que forma Cartago teria podido sustentar-se? Quando Aníbal, que se tornara pretor,
quis impedir os magistrados de pilharem a república, não foram acusá-lo junto aos
romanos? Infelizes, que queriam ser cidadãos sem cidade e receber suas riquezas da mão de
seus destruidores! Logo Roma lhes pediu como reféns trezentos de seus principais
cidadãos; fez com que lhe entregassem as armas e as naves e depois lhes declarou guerra.
Pelas coisas que realizou o desespero de Cártago desarmada; pode-se julgar o que ela
teria podido fazer com sua virtude, quando era senhora de suas forças.

CAPÍTULO IV
Do princípio da aristocracia

Assim como a virtude é necessária, no governo popular, ela também é necessária no
aristocrático. É verdade que neste último ela não é tão absolutamente necessária.
O povo, que está para os nobres como os súditos estão para o monarca, é contido por suas
leis. Precisa, portanto, de menos virtude do que o povo da democracia. Mas de que modo os
nobres serão contidos? Aqueles que devem fazer executar as leis contra seus colegas
sentirão no início que estão agindo contra eles mesmos. Logo, precisa-se de virtude neste
corpo, pela natureza da constituição.
O governo aristocrático tem por si mesmo certa força que a democracia não possui. Nele,
os nobres formam um corpo que, por sua prerrogativa e pelo seu interesse particular,
reprime o povo: basta que existam leis neste sentido, para que elas sejam executadas.
Mas tanto quanto é fácil para este corpo reprimir os outros, é difícil que ele reprima a
si mesmo. A natureza deste regime é tal que parece que ela coloca as pessoas sob o poder
das leis, e ela mesma as subtrai a este poder.
Ora, tal corpo só pode ser reprimido de duas maneiras: com uma grande virtude, que faz
com que os nobres se tornem de alguma forma iguais a seu povo, o que pode vir a formar
uma grande república; ou com uma virtude menor, que é certa moderação que torna os nobres
pelo menos iguais entre si, o que promove sua conservação.
Assim, a moderação é a alma destes governos. Refiro-me àquela baseada na virtude, e não à
que vem de uma covardia ou de uma preguiça da alma.

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CAPÍTULO V
A virtude não é o princípio do governo monárquico

Nas monarquias, a política promove as grandes coisas com a menor virtude possível; assim
corno nas mais belas máquinas, a arte usa tão poucos movimentos, tão poucas forças e tão
poucas rodas quanto possível.
O Estado subsiste independentemente do amor à pátria, do desejo da verdadeira glória, da
renúncia de si mesmo, do sacrifício de seus interesses mais caros e de todas virtudes
heróicas que encontramos nos antigos e das quais só ouvimos falar.
As leis ocupam aí o lugar de todas estas virtudes, das quais não se precisa; o Estado nos
dispensa delas: uma ação que se conclui sem alarde é nele como que sem conseqüência.
Ainda que todos os crimes sejam públicos por natureza, distinguem-se no entanto os crimes
verdadeiramente públicos e os crimes privados, assim chamados porque ofendem mais um
particular do que toda a sociedade.
Ora, nas repúblicas, os crimes privados são mais públicos, isto é, chocam mais a
constituição do Estado do que os particulares; e, nas monarquias, os crimes públicos são
mais privados, isto é, chocam mais as fortunas particulares do que a constituição do
próprio Estado.
Rogo que ninguém se ofenda com o que eu disse; falo depois de todas as histórias. Sei
muito bem que não é raro que existam príncipes virtuosos; mas estou dizendo que, numa
monarquia, é muito raro que o povo o seja.
Leia-se o que os historiadores de todos os tempos contam sobre a corte dos monarcas;
lembre-se das conversas dos homens de todos os países sobre o caráter miserável dos
cortesãos: não é especulação, e sim triste experiência.
A ambição no ócio, a baixeza no orgulho, o desejo de enriquecer sem trabalho, a aversão
pela verdade, a bajulação, a traição, a perfídia, o abandono de todos os compromissos, o
desprezo pelos deveres do cidadão, o temor da virtude do príncipe, a esperança de sua
fraqueza, e, mais do que isso tudo, o ridículo perpétuo lançado sobre a virtude formam,
penso eu, o caráter da maioria dos cortesãos, marcado em todos os lugares e em todos os
tempos. Ora, é muito ruim que a maioria dos principais de um Estado sejam pessoas
desonestas, e os inferiores sejam gente de bem: que aqueles sejam enganadores e estes
consintam em só serem enganados.
Se no povo se encontra algum infeliz homem honrado, o cardeal de Richelieu, em seu
testamento político, insinua que um monarca deve evitar utilizá-lo. Tanto é verdade que a
virtude não é o motor desse governo! Certamente não está dele excluída; mas não é seu
motor.

CAPÍTULO VI
Como se substitui a virtude no governo monárquico

Apresso-me, e vou a passos largos, para que não pensem que estou fazendo uma sátira do
governo monárquico. Não; se lhe falta um motor ele tem outro: a HONRA, ou seja, o
preconceito de cada pessoa e . de cada condição toma o lugar da virtude política da qual
falei e a representa em todos os lugares. Pode inspirar as mais belas ações: pode, junto
à força das leis, levar ao objetivo do governo, como a própria virtude.
Assim, nas monarquias bem regradas, todos serão mais ou menos bons cidadãos, e
encontraremos raramente alguém que seja homem de bem; pois, para ser homem de bem, é
necessário que se tenha a intenção de sê-lo e amar o Estado menos para si do que por ele
mesmo.

CAPÍTULO VII
Do princípio da monarquia

O governo monárquico supõe, como dissemos, preeminências, hierarquia e até uma nobreza de
origem. A natureza da honra é requerer preferências e distinções; está, pois, por
essência, colocada neste governo.
A ambição é perniciosa numa república. Tem bons efeitos na monarquia; dá vida a este

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governo, e nele se tem a vantagem de que ela não é perigosa, pois pode ser
incessantemente reprimida.
Dir-se-ia que é como o sistema do universo, onde há uma força que afasta continuamente do
centro todos os corpos, e uma força de gravidade que os traz de volta: A honra move todas
as partes do,corpo político; liga-as com sua própria ação; e assim todos caminham no
sentido do bem comam, pensando ir em direção a seus interesses particulares.
É verdade que, em termos filosóficos, é uma falsa honra que conduz todas as partes do
Estado; mas esta falsa honra é tão útil para o público quanto o teria a verdadeira honra
para os particulares que poderiam possuí-la.
E não é muito obrigar os homens a realizarem todas as ações difíceis, que demandam força,
sem outra recompensa além do alarde destas ações?

CAPÍTULO VIII
A honra não é o princípio dos Estados despóticos

A honra não é o princípio dos Estados despóticos: sendo neles todos os homens iguais, não
se pode ser preferido aos outros; sendo neles todos os homens escravos, não se pode ser
preferido a nada.
Além do mais, como a honra -tem suas leis e suas regras e não pode dobrar-se, como
depende de seu próprio capricho e não do capricho de outrem, pode apenas ser encontrada
em Estados onde a constituição é fixa e que possuem leis certas.
Como poderia ser suportada pelo déspota? Ela se glorifica de desprezar a vida,. e o
déspota só tem força porque pode retirá-la. Como poderia. suportar o déspota? A honra
possui regras contínuas e caprichos longos; o déspota não tem regras e seus caprichos
destroem todos os outros.
A honra, desconhecida nos Estados despóticos, onde até mesmo muitas vezes não se tem
palavra para expressá-la, reina nas monarquias; ali ela dá vida a todo o corpo