11_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY
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11_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY

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caracterizam esse período lúgubre, porém, visceralmente necessário ao capitalismo, já

que sobrevém inevitavelmente em função de leis imanentes à acumulação e, ao mesmo

tempo, cria e reúne condições para a sua própria reabilitação.11

 Em geral, as “crises periódicas devem ter o efeito de expandir a capacidade

produtiva e de renovar as condições de acumulação adicional” (idem.), atingindo, pois,

um nível novo e superior. Isso resulta da 1) maior produtividade do trabalho em função

das inovações surgidas para ampliar a margem de lucro rebaixada durante a crise – além

da desvalorização forçada dos equipamentos antigos do capital fixo; 2) menor custo da

força-de-trabalho, dado o desemprego em massa; 3) abertura de setores novos e

lucrativos para o capital ocioso (acumulação primitiva) e 4) do recrudescimento da

demanda que esvazia os estoques de mercadoria, permitindo reiniciar a produção, voltar

à sua escala normal anterior à crise ou mesmo superá-la.

 Esse recrudescimento da demanda, por sua vez, vai sendo substanciado a

mediada que o capital se reproduz por meio de sua intensificação e expansão. Entre os

meios de intensificação da exploração de atividades e mercados podemos fazer

referência à incursão do capital na agricultura de subsistência, à diversificação das redes

de distribuição e a uma maior especialização do trabalho, criando funções de

administração e gerência do terciário moderno, por exemplo. Além disso, o estímulo do

consumo programado tanto racionaliza a demanda como mobiliza atividades em cadeia

(propaganda, engenharia de produção, a “indústria” da moda, etc.). Até mesmo o

crescimento populacional – ainda que a longo prazo - garante à exploração capitalista

uma base sobre a qual se intensificam suas atividades.

 Quanto à expansão, são colocadas em movimento estratégias como o comércio

exterior, a conquista de novas regiões e territórios, a exportação de capitais e, em última

instância, a criação de um “mercado mundial”. Além disso, a rigidez de certos arranjos

que montam a estrutura de relações entre capital, Estado e trabalho, a supervalorização

em certos ambientes construídos e a saturação da capacidade de consumo do mercado

interno levam também à expansão, já que, via de regra, “quanto mais difícil se torna a

11 Em Marx, a necessidade de um fenômeno, que embora permaneça um dever ser (um vir a ser, como
tendência), precisa reunir as condições materiais e objetivas para a sua realização; condições estas, aliás,
socialmente gestadas no interior do processo como pressuposições a posições devindas, que fazem
aparecer contradições até então veladas. Essa necessidade, pois, não é nem de longe uma veleidade, um
desiderato moral e ingênuo nem tampouco a realização de uma teleologia idealista, um plano que surge e
se concretiza independentemente de forças sociais determinantes (forças produtivas, relações de produção
e suas contradições semoventes). Reunir condições objetivas e materiais da própria realização (e a
ideologia se inclui aí como força material “quando se apodera das massas”) é um pressuposto que vale
tanto para as crises do capital quanto para as revoluções políticas e sociais. Cf. Mézáros (2004).