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Disciplina:Geografia Econômica1.157 materiais15.746 seguidores
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continuarem vegetando modos de produção arcaicos e ultrapassados, com
o seu séquito de relações sociais e políticas anacrônicas. Somos atormentados
não só pelos vivos, como também pelos mortos. Le mort saisit le vif!41

Comparada com a inglesa, a estatística social da Alemanha e do
resto do continente europeu ocidental é miserável. Ainda assim, levanta
o véu o bastante para deixar entrever atrás do mesmo uma cabeça de
Medusa. Ficaríamos horrorizados ante a nossa própria situação caso
nossos Governos e parlamentares constituíssem periodicamente, como
na Inglaterra, comissões de inquérito acerca das condições econômicas;
caso essas comissões fossem investidas, como na Inglaterra, da mesma
plenitude de poderes para pesquisar a verdade; caso fosse possível
encontrar, para tal missão, homens tão especializados, imparciais e
intimoratos quanto o são os inspetores de fábrica na Inglaterra e os
seus relatores médicos sobre Public Health (Saúde Pública), os seus
comissários encarregados de examinar a exploração das mulheres e
crianças, as condições de moradia e alimentação etc. Perseu precisava
de um capacete da invisibilidade para perseguir os monstros. Nós pu-
xamos o capacete mágico a fundo sobre nossos olhos e orelhas, para
podermos negar a existência de monstros.

É preciso não se enganar quanto a isso. Assim como, no século
XVIII, a Guerra da Independência americana tocou o sino de alarme para
a classe média européia, no século XIX a Guerra Civil norte-americana
tocou-o para a classe operária européia. Na Inglaterra, o processo de sub-
versão tornou-se palpável. Quando alcançar certa altura, há de repercutir
no continente. Ali, há de mover-se em formas mais brutais ou mais hu-
manas, segundo o grau de desenvolvimento da própria classe operária.
Abstraindo motivos mais elevados, os interesses mais específicos das atuais
classes dominantes obrigam-nas à eliminação de todos os empecilhos le-
galmente controláveis que inibam o desenvolvimento da classe operária.
Por isso é que me estendi tanto, neste volume, sobre a história, o conteúdo
e os resultados da legislação inglesa relativa às fábricas. Uma nação deve
e pode aprender das outras. Mesmo quando uma sociedade descobriu a
pista da lei natural do seu desenvolvimento — e a finalidade última desta
obra é descobrir a lei econômica do movimento da sociedade moderna —,
ela não pode saltar nem suprimir por decreto as suas fases naturais de
desenvolvimento. Mas ela pode abreviar e minorar as dores do parto.

Para evitar possíveis erros de entendimento, ainda uma palavra.
Não pinto, de modo algum, as figuras do capitalista e do proprietário
fundiário com cores róseas. Mas aqui só se trata de pessoas à medida
que são personificações de categorias econômicas, portadoras de deter-
minadas relações de classe e interesses. Menos do que qualquer outro,
o meu ponto de vista, que enfoca o desenvolvimento da formação eco-

MARX

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41 O morto se apodera do vivo. (N. dos T.)