Castelar Pinheiro - Direito e Economia Num Mundo Globalizado
26 pág.

Castelar Pinheiro - Direito e Economia Num Mundo Globalizado

Disciplina:Economia16.691 materiais122.263 seguidores
Pré-visualização11 páginas
crescimento sacrificado. Isso significa que são exatamente as
partes que o magistrado buscava proteger que se tornam as mais prejudicadas por essa não-
neutralidade.

É obviamente impossível querer comparar a interpretação economicista da questão,
formada à distância, extraída dos grandes números, com a de um magistrado confrontado com
a dura realidade que se lhe apresenta no cotidiano dos tribunais. Seria provavelmente outra a
percepção dos juizes brasileiros, não fosse tão desigual a nossa distribuição de renda. Mas isso
não desmerece o argumento de que a justiça que procuram os magistrados pode ser mais cara e
fugaz do que parece à primeira vista.

Mas essa não é a única conseqüência relevante da diferença de visões entre juizes e
economistas. Também importante é o fato de que provavelmente essa divergência não tem
sido adequadamente considerada quando da implantação de planos e reformas econômicas.
Em particular, cabe perguntar como isso irá afetar o resultado de reformas econômicas que
vêm sendo implantadas com o objetivo de transferir para o mercado a responsabilidade pelo
investimento e pela produção em setores extremamente dependentes de contratação -- na
infra-estrutura, no setor imobiliário, no saneamento, no mercado de crédito etc.

Neste sentido, é preciso levar em conta que a intervenção estatal na economia não era
apenas uma opção de política econômica, uma forma de orientar e executar a atividade
econômica, ou o resultado puro e simples da disputa política entre grupos de interesse, mas
também um arranjo institucional que buscava viabilizar atividades e mercados que de outra
forma poderiam não se realizar ou existir, ou que só sobreviveriam de forma muito ineficiente.
Que a extensa presença estatal na economia tornava os contratos menos importantes, pois
permitia decidir conflitos e impor regras pela via administrativa, sem a necessidade de se
recorrer à justiça. Que tantas atividades foram em frente porque o Estado ignorou os riscos
envolvidos, riscos que depois se materializaram na forma de esqueletos fiscais. Riscos a que o
setor privado não irá querer se expor. Alterar a forma como se organiza a atividade produtiva
sem as necessárias adaptações institucionais pode ser uma receita para grandes frustrações.

Assim, se os juizes parecem não conhecer as repercussões macroeconômicas de suas decisões,
os economistas parecem desconhecer a realidade sobre os micro-fundamentos institucionais
que alicerçam suas estratégias de desenvolvimento. O que indica que não é apenas a
morosidade da justiça que tem implicações importantes para a economia. O que remete outra
vez à citação do Stigler, e a desejar que economistas e juristas, se não puderem falar a mesma
língua, que pelo menos passem a viver no mesmo mundo. Quem tem a ganhar com isso não
são apenas os dois grupos, mas a sociedade como um todo.

Referências

Aron, Janine, 2000, “Growth and Institutions: A Review of the Evidence”, World Bank
Research Observer, vol. 15, no. 1.

Barro, Robert, J., “Economic Growth in a Cross Section of Countries,” Quarterly Journal of
Economics, Maio 1991, Vol. 106, No. 2, 407-43.

Barro, Robert J. e Sala-i-Martin, Xavier, “Convergence”, Journal of Political Economy, Vol. 100,
No. 2, Abril 1992, 223-51.

Barro, Robert J. e Sala-i-Martin, Xavier, Economic Growth, Boston, MA: McGraw-Hill, 1995.
Brunetti, Aymo e Beatrice Weder, "Subjective Perceptions of Political Instability and

Economic Growth", mimeo, 1995.
Clague, Christopher, Philip Keefer, Stephen Knack e Mancur Olson, 1995, "Contract-Intensive

Money: Contract Enforcement, Property Rights and Economic Performance", IRIS
Working Paper 151.

Collier, Paul, David Dollar e Nicholas Stern, 2000, “Fifty Years of Development”, Banco
Mundial, mimeo (www.worldbank.org).

Djankov, S.; R. La Porta, F. Lopez-de-Silanes e A. Shleifer, 2001, “Legal Structure and Judicial
Efficiency: The Lex Mundi Project”, (acessível em www.worldbank.org)

Easterly, William, Norman Loayza e Peter Montiel, 1996, “Has Latin America´s Post-Reform
Growth Been Disappointing?”, Banco Mundial, mimeo.

Eyzaguirre, Hugo, Raul Andrade e Roger Salhuana, 1998, “The Impact of the Judiciary on
Business Decisions in Peru”, Instituto Apoyo, Working Paper 98-01.

Faerman, M., “Perto do Colapso”, Revista Problemas Brasileiros, Janeiro/Fevereiro de 1998.
Giambiagi, Fabio e Maurício Moreira, 2000, “Políticas Neoliberais? Mas o que É

Neoliberalismo?”, Revista do BNDES, no 13.
Gray, Cheryl W., 1991, “Legal Process and Economic Development: A Case Study of

Indonesia,” World Development, Vol. 19, No 7.
Guissari, Adrian, 2000, “Seguridad Jurídica y Crescimiento con Restricciones Institucionales”,

Foro para Administracion de Justicia, Argentina, miemo.
Hay, Jonathan, Andrei Shleifer e Robert W. Vishny, “Toward a Theory of Legal Reform,”,

European Economic Review, Vol. 40, No. 3-5, Abril 1996.
Knack, Stephen e Philip Keefer, "Institutions and Economic Performance: Cross Country

Tests Using Alternative Institutional Measures," Economics and Politics, Vol. 7, No. 3,
Novembro 1995.

Krueger, Anne, 1974, “The Political Economy of the Rent-Seeking Society”, American
Economic Review, Vol. 64, 291-303.

Lamounier B. e A Souza, 2002, “As Elites Brasileiras e o Desenvolvimento Nacional: Fatores
de Consenso e Dissenso”, Idesp.

Lora, Eduardo e Felipe Barrera, 1997, “A Decade of Structural Reform in Latin America:
Growth, Productivity, and Investment are not What they Used to Be”, Inter-American
Development Bank, mimeo (www.iadb.org).

Mauro, Paolo, “Corruption e Growth,” Quarterly Journal of Economics, Vol. 110, No. 3, Agosto
1995.

Naím, M., Latin America: The Second Stage of Reform, Journal of Democracy, Vol. 5, No. 4,
Outubro de 1994.

North, Douglass C., Structure and Change in Economic History. New York: W. W. Norton, 1981.
North, Douglass C., “Transaction Costs, Institutions, and Economic Performance”,

International Center for Economic Growth, Occasional Papers No. 30, 1992.
Olson, Mancur, 1996, "Distinguished Lecture on Economics in Government: Big Bills Left on

the Sidewalk: Why Some Nations are Rich, and Others Poor", Journal of Economic Perspectives,
Vol. 10, No. 2, Spring 1996.

Pinheiro, A. C. e C. Cabral, 1998, “Mercado de Crédito no Brasil: o Papel do Judiciário e de
Outras Instituições”, Ensaios BNDES no. 9. (www.bndes.gov.br)

Pinheiro, A. C. (org.), 2000, Judiciário e Economia no Brasil, Ed. Sumaré.
Pinheiro, A. C., 2002, “Judiciário, Reforma e Economia: A Visão dos Magistrados”, Idesp.
Rodrik, D., 2000, “Development Strategies for the Next Century”, artigo apresentado na
conferência “Developing Economies in the 21st Century”, Institute for developing
Economies, Japan External Trade Organization, Japão, mimeo.
Rowat, Malcolm, Waleed Malik, e Maria Dakolias, eds., Judicial Reform in Latin America and the

Caribbean: Proceedings of a World Bank Conference, World Bank Technical Paper 260.
Washington, D.C., The World Bank, 233 pages, 1995.

Sadek, M. T., 1995, “A Crise do Judiciário Vista pelos Juízes: Resultados da Pesquisa
Quantitativa”, in M. T. Sadek (org.), Uma Introdução ao Estudo da Justiça, Editora Sumaré.

Sherwood, Robert M., Geoffrey Shepherd e Celso Marcos de Souza, 1994, "Judicial Systems
and Economic Performance", The Quarterly Review of Economics and Finance, Vol. 34, Summer
1994.

Shihata, Ibrahim F., “Legal Framework for Development: The World Bank´s Role in Legal and
Judicial Reform,” in Rowat et al., 1995.

Stigler, George, J., “Law or Economics?”, The Journal of Law and Economics, October 1992, Vol.
35, No. 2, 455-68.

Tommasi, M e A. Velasco, “Where are We in the Political Economy of Reform?”, Journal of
Policy Reform, Vol. 1, No. 2, 1996.

Vianna, L. W., M. A. R. Carvalho, M. P. C. Melo e M. B. Burgos, 1996, O Perfil do Magistrado
Brasileiro, Projeto Diagnóstico da Justiça, AMB/IUPERJ.

Vianna, L. W., M. A. R. Carvalho, M. P. C. Melo e M. B. Burgos, 1997, Corpo e Alma da
Magistratura Brasileira, Editora Revan.

Williamson, John (ed.), 1990, Latin American Adjustment: How