Haddad - Burrice
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Haddad - Burrice

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VALOR ECONÔMICO 26/07/2007

Burrice?

Cláudio Haddad

Em entrevista recente, o ministro do Desenvolvimento, questionado
sobre a oportunidade de uma maior abertura do país às importações
declarou: "Acho isso uma burrice. Foi feito anteriormente, nos anos 90,
quando se abriu escancaradamente o país, sem pedir nada em troca." E
acrescentou: "Temos de ter compensações para abrirmos a outra parte do
nosso mercado." ("O Estado de S.Paulo", 15/07).

Esta posição, que reflete um pensamento predominante em boa parte do
empresariado nacional, sofre de dois graves problemas, um factual e
outro conceitual. Factual, porque, longe de se "abrir escancaradamente"
como alega o ministro, o Brasil continua sendo uma das economias mais
fechadas do mundo, como mostra o gráfico abaixo, comparando-se o
Brasil com os demais "Brics" e com a Argentina. Em 1990, a relação
importações/ PIB no Brasil era de apenas 7%, o que tornava o Brasil
ainda mais fechado do que a Índia, conhecida por suas restrições ao
comércio internacional. Quinze anos após o início do processo de
abertura, aquela relação evoluiu para 8,4%, metade do valor argentino,
quase um quarto do correspondente chinês e quase um terço do indiano.
Isso é "abrir escancaradamente"?

O problema conceitual é mais grave. Implícito no argumento está a idéia
de que importar é ruim para o país e que, portanto, somente com
concessões dos outros parceiros comerciais se deveria abrir a economia.
Este argumento afronta o bom senso e os fatos. Quanto a estes,
recomenda-se a leitura de um trabalho de Ferreira e Rossi, publicado na
"International Economic Review". 1 Nele, os autores apresentam
evidência de forte relação causal entre a redução tarifária verificada entre
1987 e 1997 e o crescimento da produtividade da indústria verificada no
mesmo período. Os números falam por si. Após redução, entre 1987 e
1997, de 118% para 13% na tarifa média, e de 86% para 18% na tarifa
efetiva, a produtividade média da indústria cresceu, entre 1990 e 1997,
8% ao ano. Os maiores ganhos de produtividade foram verificados no
setor automobilístico e de eletrônicos. Entre 1985 e 1990, período de
forte fechamento ao comércio, a produtividade industrial estava ou
cadente, ou estagnada, nos 16 setores analisados.

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Abertura não deve depender de concessões de parceiros

O que teria motivado este ganho de produtividade? Tanto a teoria quanto
a intuição indicam dois canais de transmissão. O primeiro, pelo acesso a
insumos e equipamentos mais baratos e com tecnologia "embutida" mais
avançada. O segundo, pelo estímulo à eficiência empresarial motivado
por um ambiente competitivo, ao invés do conforto garantido pela
proteção. O ganho não teria ocorrido caso a abertura não tivesse sido
feita ou dependesse, para sua efetivação, de concessões ou contrapartidas
de nossos parceiros comerciais.

Além de maior grau de eficiência na indústria, a abertura trouxe
expressivos ganhos ao consumidor, não só por uma ampliação do leque
de alternativas, mas também pela redução de preços provocada pelos
ganhos de produtividade e maior concorrência. Trabalho recente de
Gonzaga, Menezes e Terra para o período 1988-95 mostra associação
positiva e significativa entre reduções tarifárias e de preços ao
consumidor. 2 Conclui-se que, sem a abertura criticada pelo ministro, a
indústria estaria mais atrasada tecnologicamente e o consumidor
pagando bem mais caro pelos produtos.

Sendo a abertura tão boa para o Brasil, por que somente aprofundá-la
mediante contrapartidas do resto do mundo? Este argumento, base da
estratégia de negociação seguida pelo Itamaraty, parte do princípio,
correto, de que estaríamos em uma melhor posição caso a liberalização
ocorresse em conjunto com a de outros países, de forma a ampliar nossas
exportações. O argumento é perfeito, desde que não se perca de vista,
primeiro que abrir o mercado não é apenas uma peça de negociação, mas
sim algo de nosso próprio interesse. E, segundo, que o ganho em
condicionar a liberação comercial à dos outros países deve ser
proporcional ao grau existente de abertura da própria economia. Ou seja,
quanto mais fechada ela for, maior a vantagem em abri-la
unilateralmente, assim como feito nos anos 90. Como os ganhos
adicionais tendem a diminuir com o grau de abertura, faz sentido
condicioná-los, após certo ponto, à liberação dos mercados externos.

Pelos dados do gráfico, este pode até ser o caso atual da China ou mesmo
da Índia, mas não do Brasil. A baixa penetração das importações no
Brasil é indicador de que barreiras tarifárias e não-tarifárias continuam

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elevadas e restritivas. Logo, devem existir significativos ganhos de
produtividade e de salário real a serem obtidos com novo processo de
liberalização. Independentemente do sucesso ou fracasso da estratégia de
negociação na Rodada Doha, é nesta direção que deveria apontar a
política econômica.

Pelo cargo que ocupa, o ministro do Desenvolvimento deveria ser um
dos principais interessados em aumentar a eficiência da economia e o
bem-estar da população. Entretanto, a julgar pela entrevista, ele acha isso
tudo uma burrice.

¹ Ferreira, Pedro C. e Rossi, José L., "New Evidence From Brazil On
Trade Liberalization and Productivity Growth", IER, vol 44, no. 4.

² Gonzaga, G., Menezes Filho, N. e Terra, C. "Trade liberalization and
the Evolution of Skill Earnings Differentials in Brazil", Journal of
International Economics, 68 (2006), 345-67.

Claudio Haddad é diretor-presidente do Ibmec São Paulo e presidente do Conselho da
Veris Educacional S.A. Escreve, quinzenalmente, às quintas-feiras

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