Haddad - O Fim da Indústria
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Haddad - O Fim da Indústria

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VALOR ECONÔMICO 18/01/2007

O fim da indústria?
Claudio Haddad

A valorização do real e as boas perspectivas para a continuidade do
superávit comercial têm levado alguns analistas a prognosticar o fim da
indústria manufatureira no Brasil. Parodiando Mark Twain, as notícias
sobre sua morte são exageradas.

O Brasil é rico em recursos naturais e, com o surto de prosperidade
alimentado pela globalização, os preços dos produtos intensivos nestes
recursos aumentaram significativamente. Como tudo indica que, a não
ser por fatores de ordem política, alheios ao sistema econômico, a
globalização vai se aprofundar, é provável que esses preços continuem
elevados por algum tempo, beneficiando os setores ligados àqueles
produtos. Se para o país isto é ótimo, pois faz com que o mesmo esforço
de produção gere um maior poder de compra, para outros setores é ruim,
em função da perda de competitividade que aquela valorização de preços
acarreta.

Esta perda de competitividade se dá principalmente através do câmbio.
Os elevados superávits comerciais mantêm a taxa de câmbio valorizada,
apesar da política de acumulação de reservas do Banco Central,
desestimulando a exportação e incentivando a importação de
manufaturados. Como nem há recursos, dada a já elevada dívida interna,
e nem sentido econômico para aprofundar essa política, tudo indica que
o câmbio continuará valorizado, levando à previsão de desaparecimento
da indústria manufatureira no Brasil.

Previsões catastróficas raramente acontecem e um exame dos números
mostra que esta norma também aqui se aplica. O valor adicionado da
indústria manufatureira em 2005 foi de R$ 420 bilhões, ou seja, 21% do
PIB. Caso apenas um quarto desta fosse substituído por importados, a
demanda adicional por divisas seria cerca de US$ 50 bilhões, o que
desvalorizaria o câmbio e reverteria a perda de competitividade. O
tamanho do país já garante a existência de uma base industrial
permanente e significativa, independentemente da política econômica e
de subsídios ou incentivos do governo.

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Embora a indústria não vá acabar, alguns setores e empresas continuarão
sendo prejudicados. Principalmente os que produzem manufaturados
padronizados, não baseados em recursos naturais, de fácil transporte e
intensivos em mão-de-obra não qualificada, continuarão enfrentando
concorrência cada vez mais intensa de produtos importados da China e
de outros países em desenvolvimento. É também provável que, a
exemplo do que está acontecendo na Europa, algumas empresas
brasileiras desloquem parte de sua base produtiva para a China ou outros
países do exterior, barateando seus custos. Em ambos os casos haverá
redução de emprego nestes segmentos. Algo a fazer?

Governo deve insistir nas reformas

Sim e não. O princípio básico é não matar a galinha dos ovos de ouro.
Querer reverter artificialmente a vantagem comparativa dos produtos
intensivos em recursos naturais é negar os ganhos que a conjuntura traz
ao país e prejudicar seu desenvolvimento. Não há nada errado em um
país ter e explorar tal vantagem comparativa, como demonstram os
exemplos do Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Chile, Rússia e, em boa
parte de sua história, os Estados Unidos. Estes produtos, aliás, estão
longe de ser "primitivos". Exploração de petróleo, mineração, celulose,
combustíveis "limpos" e cadeias alimentares utilizam tecnologias cada
vez mais complexas, demandando capital e mão-de-obra qualificada e
tendo impacto positivo no desenvolvimento industrial e científico do
país. Há perda de emprego em partes da indústria, mas há ganho em
outras.

Também se deve reconhecer que parte da vantagem comparativa perdida
não vem do câmbio. Ela é autofágica, provocada pelo ambiente
econômico vigente no país e pelos baixos níveis educacionais. Carga
tributária elevada, leis trabalhistas inflexíveis, informalidade, burocracia
e um marco regulatório muitas vezes imprevisível e hostil, agravam o
problema. Com reformas e com uma ênfase continuada em educação, o
país será cada vez mais competitivo, independentemente das vantagens
comparativas naturais e herdadas, na indústria e em serviços, bem como
maior será o incentivo para que empresas estrangeiras aqui se instalem e
que as nacionais não emigrem.

Já no que se refere a manufaturados não baseados em recursos naturais, é
importante entender que competir somente por custos não é a melhor
estratégia. O importante é dar ao cliente o maior valor agregado possível

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ao menor custo. O sucesso internacional das sandálias Havaianas, em um
setor particularmente afetado pela concorrência chinesa, é emblemático.
Seu custo de produção é irrisório face ao preço em que são vendidas no
exterior, composto, além da margem de lucro, principalmente por
marketing e distribuição. Neste caso, a valorização cambial tem pouco
impacto em sua competitividade, que é função principalmente da marca,
"design", reputação e talento gerencial. O desafio das empresas naqueles
segmentos é escapar da simples concorrência por custo, onde será difícil
ganhar dos chineses, fazendo com que seus produtos se tornem cada vez
mais intensivos em ativos intangíveis.

Algumas conseguirão fazer a transição e outras não. Mudanças
estruturais de vantagens comparativas são recorrentes na história. A
indústria têxtil inglesa foi destronada pela concorrência americana já ao
início do século XX e esta pela dos países em desenvolvimento ao final
daquele século. Detroit é uma sombra do que era há 50 anos e boa parte
dos produtos manufaturados consumidos nos Estados Unidos vêm do
exterior. No entanto, o país continua crescendo e a renda média
americana aumentando.

A indústria brasileira não vai desaparecer, mas alguns de seus segmentos
continuarão sob pressão. A melhor forma de lidar com isto é deixar o
mercado funcionar, com a maior liberdade possível, permitindo a cada
empresa traçar sua estratégia e ir à luta, ganhando ou perdendo dentro do
jogo capitalista. Cabe ao governo ignorar pedidos de proteção ou
tratamento privilegiado, manter a estabilidade macroeconômica e insistir
firmemente nas reformas, até agora esquecidas.

Claudio Haddad é diretor-presidente do Ibmec São Paulo e
presidente do Conselho da Veris Educacional S/A. Escreve,
quinzenalmente, às quintas-feiras.

Claudio Haddad, diretor-presidente do Ibmec São Paulo e presidente do Conselho da Veris
Educacional S.A., escreve mensalmente, às sextas- feiras.

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