Senso Religioso - Pe Paulo - design 1

Senso Religioso - Pe Paulo - design 1

Disciplina:O Humano e O Fenômeno Religioso75 materiais432 seguidores
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neste período: o juízo. Cada momento é uma oportunidade inadiável para me perguntar por que e para descobrir o que existe no fim de tudo isso, 	ou seja, o que me move. Não me basta ficar ali, na fila, e eu 	começo a fazer todas as perguntas possíveis, desde a 	razão 	pela qual quero chegar cedo na universidade, quando estou esperando chegar o ônibus de manhã, até a 	própria pergunta ‘quem sou eu?’” (Sharon).

i. realismo
	
	
	A esta altura, porém, alguém poderia objetar inteligentemente que uma vez que o homem não existia antes de existir, não é possível que possa dar a si mesmo um critério de juízo. Contudo, este é “dado”.

	Ora, o fato de que esse critério seja imanente a nós - dentro de nós – não significa que nós no-lo demos sozinhos: ele é tirado da nossa natureza, quer dizer, é algo que nos é dado junto com a natureza

	Somente esta pode ser considerada uma alternativa de método razoável, não alienante.

	Que nome dar a esse critério de juízo que nos permite avaliar tudo o que vivemos?

i. realismo
	5. Experiência elementar, original

	Todas as experiências da minha humanidade passam pelo crivo de uma “experiência original”, primordial, que constitui o meu rosto ao confrontar-me com tudo.

	Em que consiste esta experiência elementar?

	A natureza lança o homem na comparação universal consigo mesmo, com os outros e com as coisas, dotando-o - como instrumento de tal confronto universal – de um conjunto de exigências fundamentais.

	A experiência elementar nada mais é do que este complexo exigências: exigência de verdade, exigência de justiça, exigência de amor, exigência de felicidade. 	

	Recoloquemos à nossa frente a hipótese da folha de papel em branco do exemplo anterior.

	
	

i. realismo
	Se alguém se aproximasse de nós e seriamente nos dissesse: “Você tem certeza de que se trata de uma folha? E se não fosse?”, a nossa reação seria de espanto, como se achássemos diante de uma pessoa meio esquisita. Aristóteles dizia argutamente que é próprio dos loucos perguntar-se as razões daquilo que a evidência mostra como fato.
	Gostaria de propor um exemplo, grotesco, mas significativo. Numa escola, o professor de filosofia explica:
		- “Para nós é evidente que esta folha seja um objeto fora de nós, disso ninguém duvida. Suponhamos, que eu não conheça este objeto: seria como se ele não existisse. Vejam, portanto, que aquilo que cria o objeto é o nosso conhecimento, é o espírito e a energia do homem. Eis um professor “idealista”.
		- Suponhamos que esse professor adoeça gravemente e seja substituto. O substituto, informado pelos alunos decide sobre o ponto da questão, decide retomar o exemplo do professor anterior: “Todos nós estamos de acordo - diz ele – com o fato de que a nossa primeira evidência é a de que este seja um objeto fora de nós. E se não fosse. Demonstre-me que ele existe como objeto fora de nós, de modo incontestável!” Eis um professor “problematicista”.
		- Suponhamos ainda que, por circunstâncias imprevista, chegue naquela classe um outro substituto de filosofia e que retome o assunto do mesmo ponto. Ele diz: “Todos nós temos a impressão de esta folha seja um objeto fora de nós: é uma evidência primeira, original. Mas, e se eu não a conhecesse? Seria como se ele não existisse. Vejam, portanto, que o conhecimento é um encontro entre uma energia humana e uma presença. É um acontecimento no qual a energia da consciência humana assimila-se a um objeto. Então, meus amigos, para o conhecimento são necessárias duas coisas: a energia da nossa consciência e o objeto. Eis um professor “realista”.

i. realismo
	Vimos três interpretações diferentes de um argumento. Qual delas será “justa”? Cada uma tem seus atrativos, exprime um ponto de vista verdadeiro. Por qual método nos decidiremos?

	Será preciso examinar as três opiniões e confrontá-las com os critérios imanentes à nossa natureza, com o conjunto de evidências e exigências originais com as quais a natureza nos dota.

	Dentre os três professores, qual utiliza um método que corresponde mais à experiência original? Digo-o: é o terceiro, pois revela uma posição mais razoável, porque leva em conta todos os elementos em jogo; qualquer outra metodologia recai num critério redutivo.

i. realismo
	Propus esse exemplo para insistir na necessidade de que a reflexão sobre si seja peneirada, a fim de alcançar um juízo, pelo confronto entre o conteúdo da própria reflexão e o critério original do qual todos somos dotados.

	Uma mãe esquimó, uma mãe paraguaia, dão luz a filhos que, quando tomarem consciência de sua existência, isto é, quando começarem a usar a razão, dirão “eu”, e utilizarão essa palavra para indicar uma multiplicidade de elementos derivados de diversas histórias, tradições e circunstâncias.

	 Mas, indubitavelmente, quando disserem “eu” usarão tal expressão também para indicar uma face interior, um “coração”, como diria a Bíblia, que é igual para cada um deles, embora traduzido das mais diversas maneiras.

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	João Paulo II, por sua vez, disse: “O caminho para a autêntica compreensão de si é a continua comparação entre o nosso eu e o nosso destino. E isso exige duas condições:

		1º) Ser apaixonado por aquele complexo de exigências que caracteriza o nosso coração;

		 2º) Abrir-se a um encontro objetivo com toda a realidade. Nesta comparação contínua, o homem faz a experiência elementar da verdade, ou seja, reconhece as coisas como elas realmente são”.
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	6. O homem, último tribunal?

	Se cada ser humano é capaz de julgar tudo a partir desse senso crítico dado pela natureza, então como evitar uma subjetivação geral. Teria a pessoa humana o poder sobre as suas ações? Mas isso não seria a anarquia, entendida como idealização do homem como critério último de si mesmo?

	A meu ver, existem dois tipos de homem que resgatam inteiramente a estatura do ser humano: é o anarquista e o autenticamente religioso. Com efeito, a natureza humana é relação com o infinito. O anarquista é a afirmação de si mesmo até o infinito. O autenticamente religioso é a firmação do infinito como significado de si.

i. realismo
	Qual das duas posturas é a mais razoável? Aquela que considera todos os fatores implicados na questão, ou seja, a postura religiosa.

	Com efeito, o homem afirma verdadeiramente a si mesmo aceitando o real, ou seja, o fato de que o homem não se faz por si mesmo; um Outro o faz a cada instante.

	7. Ascese para a libertação
	
	Diria então: quem quiser tornar-se adulto, sem ser enganado, alienado, escravo dos outros, deve acostumar-se a comparar tudo com a experiência elementar.
i. realismo
	
	Estamos diante de uma tarefa que é muito simples, mas nada popular, nada óbvia: quem a aceita, inevitavelmente vai nadar contra a corrente, contra a mentalidade dominante, que segue o modismo.

	Comecemos a julgar: é o início da libertação. Isso significa ser original, ser si mesmo.

	Por isso, precisamos estar dispostos a um trabalho, a uma ascese. Com a palavra ascese, queremos indicar a obra do homem enquanto este visa ao seu amadurecimento, enquanto está direcionado no caminho rumo à conquista de si mesmo, rumo à conquista da verdadeira felicidade.

i. realismo
	Eu não estou interessado em nenhuma teoria, / Em nenhuma fantasia nem no algo mais / Longe o profeta do terror, que a laranja mecânica anuncia / Amar e mudar as coisas me interessa mais, muito mais, me interessa...

	Eu não estou interessado em nenhuma teoria / Nem nessas coisas do Oriente, romances astrais/ A minha alucinação é suportar o dia-a-dia / E meu delírio é experiência com coisas reais.

	Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha, / Blus jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais, / Garotas dentro da noite, / Revolver ... Cheira cachorro! / Os humilhados do parque com seus jornais.

	Carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar / A solidão da noite, o movimento do tráfico, / Um rapaz delicado e alegre canta e requebra (é demais?) / Cravos, espinhas no rosto, Rock, hot dog... Play it cool baby! / Doze jovens coloridos,