Senso Religioso - Pe Paulo - design 1

Senso Religioso - Pe Paulo - design 1

Disciplina:O Humano e O Fenômeno Religioso75 materiais416 seguidores
Pré-visualização14 páginas
ter diante de si adultos que vivam para si uma hipótese boa a respeito da vida. Ex: testemunho de um amigo, Franco Nembrini :

4. Aspectos do compromisso
	“Eu entendi que os filhos precisam ter diante de si uma adulto que viva uma hipótese explicativa da realidade quando o meu filho Stefano tinha seis anos. Eu, num domingo à tarde, estava corrigindo provas e, a certo momento, eu levantei a cabeça e vi que meu filho me observava, que me olhava. Ele não tinha nada de especial para me perguntar, não estava nem com sede nem com fome e não tinha nenhuma necessidade particular. Ele me olhava e basta. Eu me lembro que naquele dia, cruzando com o olhar do meu filho, uma idéia me atravessou a mente: no olhar do meu filho eu senti se dirigir a mim uma pergunta totalmente radical. Era 	como se meu filho me olhasse pedindo: 	‘Papai me assegure que vale a pena vir ao mundo’. A única que eu podia fazer para comunicar ao meu filho uma resposta positiva era viver, eu mesmo, a certeza de um bem, a certeza de que a vida tem um sentido totalmente positivo. Essa experiência me fez entender a importância da tradição como uma hipótese de significado para a vida: os filhos aprendem aquilo que os pais vivem e testemunham.”
	4. ASPECTOS DO COMPROMISSO
	2) O VALOR DO PRESENTE

	Partir do presente é inevitável. Para aprofundar o nosso olhar no passado de que ponto partimos? Do presente. Para aventurarmo-nos nas arriscadas imagens do futuro, de que iniciamos? Do presente. Com efeito, alguém é tanto mais pessoa humana, quanto mais abraça e vive no instante presente tudo aquilo que o precedeu e o circunda.
	O presente é sempre uma ação, é o lugar, ao mesmo tempo enigmático e esplêndido, da liberdade, a energia que manipula o conteúdo do passado, liberando uma criatividade responsável. É no presente que acontece a decisão de se empenhar ou não com a riqueza que é transmitida; se não existe este empenho, o futuro fica comprometido.

5. Dupla realidade
	Numa reflexão atenta sobre a sua própria experiência, o homem descobre no seu presente dois tipos de realidade.

	a) Um tipo de realidade, que ele encontra em si mesmo, pode ser longo ou largo, pesado ou leve, quantitativamente descritível. Digamos com uma palavra: mensurável, divisível. É a matéria (“corpo”).

	b) Mas se eu estiver realmente empenhado com o meu eu, percebo em mim uma outra realidade que não pode ser quantificada com algo mensurável, ou seja, com a matéria. É a realidade espiritual constitutiva do nosso ser (“alma”).

	A idéia da bondade que está dentro do nosso ser, por exemplo, nos permite dizer que alguém “é bom”; essa idéia não poderia ser medida, quantificada, nem modificada com o tempo.

		
5. Dupla realidade
	
	A observação que o sujeito faz de si mesmo em ação lhe mostra, então, que o seu eu é composto de duas realidades diversas. Tentar reduzir uma realidade à outra seria negar a evidência da experiência que se apresenta diversas.

	Essas duas realidades com características irredutíveis podem ser chamadas de muitos nomes: foram denominadas matéria e espírito, corpo e alma. Porém, o importante é considerar firmemente a não redução de uma à outra.
 
 

SENSO RELIGIOSO:
SUA NATUREZA

1. O nível de certas perguntas
	
	Observemos agora o fator religioso como o aspecto fundamental do fator espiritual.

	O fator religioso representa a natureza do nosso eu enquanto se exprime em certas perguntas: “Qual é o sentido último da existência?” “Por que existem a dor, a morte? Por que, no fundo, vale a pena viver?”

	 Ou, a partir de outro ponto de vista: “De que e para que é feita a realidade?”

	O senso religioso coincide com aquele compromisso do nosso eu com a vida, que se mostra nessas perguntas.

		
1. O nível de certas perguntas
	No período da juventude, normalmente a pergunta que logo se coloca é:

	“Que faculdade escolher?” “Que curso escolher?”. São perguntas justas e verdadeiras.

	 Mas é bom enfatizar que antes de enfrentar estas perguntas, precisamos encontrar a resposta para uma outra pergunta, que vem antes:

	 “Qual é a razão pela qual eu estou neste mundo?” “A minha vida serve para que?” “Sou apenas um grão de areia dentro do cosmo, ou existo para algum propósito?”
1. O nível de certas perguntas

	Tais perguntas fazem parte da nossa natureza. Se não encontrarmos a resposta a estas perguntas, a nossa vida perde o sentido.
1. O nível de certas perguntas
	
	Podemos dizer também que o senso religioso é a característica que qualifica o nível humano da natureza e se identifica com a intuição inteligente e emoção dramática com que o homem, olhando a própria vida e a de seus semelhantes diz:

	“Somos como folhas...” “Longe do seu ramo, / Ó pobre folha frágil, / Onde vais tu”.
2. No fundo do nosso ser
	
	Essas perguntas se enraízam profundamente no nosso ser: não podem ser eliminadas, pois constituem como que o tecido de que é feito.

	São Paulo identifica-as com aquela energia que domina toda a mobilidade humana, provocando-a, redefinindo-a continuamente, compreendendo inclusive a própria mobilidade dos povos e seu vagar pelo mundo “em busca do deus” deles “que dá a cada um a vida, a respiração, tudo” (cf. At 17,22-24).
3. A exigência de uma resposta total
	Naquelas perguntas, o aspecto decisivo é oferecido pelos adjetivos a advérbios:

	“Qual é o sentido último da vida?” “No fundo, no fundo, de que é feita a realidade?” Por que vale verdadeiramente a pena que eu exista, que a realidade exista?”

	São perguntas que esgotam toda a energia da busca da razão. São perguntas que exigem uma resposta total que abranja todo o horizonte da razão. Uma bela poesia de Montale descreve isso muito bem:
	
		Sob o intenso azul do céu , um ou outro pássaro voa; nunca se 	detém: porque todas as imagens levam escrito: mais além”.

	
3. A exigência de uma resposta total
	Existe no Evangelho uma referência importante a esta dimensão: "Que importa ao homem possuir todo o mundo, se perde o significado de si? Que dará o homem em troca de si?” (cfr. Mt 16,26).

	 Este “si” não é outra coisa senão a exigência clamorosa, indestrutível e substancial de afirmar o significado de tudo. É precisamente assim que o senso religioso define o eu: o lugar da natureza onde é afirmado o significado de tudo.
	
	Quanto mais avançamos na tentativa de responder a tais perguntas, mais percebemos a sua potência e a nossa desproporção em relação à resposta total. É o tema dramático dos "Pensamentos" de Leopardi:

		

3. A exigência de uma resposta total
	“Não poder estar satisfeito com nenhuma coisa terrena, nem por assim dizer, com a terra inteira; considerar a amplitude inestimável do espaço, o número e a construção maravilhosa dos mundos, a achar que tudo é pouco e pequeno para a capacidade da sua própria alma; imaginar infinito o número dos mundos, e o universo infinito, e sentir que a alma e o nosso desejo seriam ainda maiores do que tão grande universo; e sempre acusar as coisas de insuficiência e maldade, sentir carência e vazio e, portanto, tédio, parece-me o maior sinal de grandeza e nobreza que se vê na natureza humana”.

	Podemos imediatamente pensar que Leopardi é um pessimista. Não! Nesta poesia ele revela de forma clara a grandeza do nosso eu. Nós, ao contrário, na maneira de olhar para a nossa humanidade, concebemos todos os sinais (o mal-estar, a insatisfação, a tristeza, o tédio) como limites que devem ser corrigidos e evitados. Sendo assim, nossa tentativa de corrigir isso tem como primeiro passo, como origem, um juízo errado: nós consideramos tudo isso uma maldição.

4. DESPROPORÇÃO EM RELAÇÃO À RESPOSTA TOTAL
	 É o que Leopardi afirma em uma sua belíssima poesia: A inexauribilidade das perguntas ressalta a contradição entre o ímpeto da exigência e a limitação da medida humana na procura.
	
		Como podes, ó natureza humana, / Se em tudo és 	frágil, vil, se 	és pó e sombra, / Tão elevados Ter os sentimentos? / E 	como, 	se ainda em parte nobre és, / 	Podem tão facilmente os 	teus 	mais dignos 	pensamentos e os mais altos impulsos,/ 	Ser por tão baixas causas despertados