Senso Religioso - Pe Paulo - design 1

Senso Religioso - Pe Paulo - design 1

Disciplina:O Humano e O Fenômeno Religioso75 materiais416 seguidores
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/ e ao mesmo tempo 	extintos?

4. Desproporção em relação à resposta total
	Se a experiência desta desproporção, por um lado, provoca em Drummond uma tristeza por outro, deixa-o como que desconcertado diante da percepção da grandeza do seu desejo:

		Meu Deus, porque me abandonastes se sabias que eu 	não era Deus, se sabias que eu era fraco./ 	Mundo,mundo, vasto mundo, se eu me chamasse 	Raimundo, seria uma rima, não seria uma 	solução./ 	Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu 	coração.
5. despropORÇÃO ESTRUTURAL
	
	O nosso desejo é infinito, buscamos uma resposta plena; qualquer coisa criada à qual nos apegamos não nos responde plenamente. Somos assim estruturalmente, isto é, é algo constitutivo do nosso ser. Uma belíssima poesia de Rilke descreve maravilhosamente bem essa desproporção estrutural:

		Apaguem-se-me os olhos: eu Te vejo, /Torna-me surdo eu 	ouvirei 	a Tua 	voz, /Corta-me os pés: por Teu caminho corro. 	/Sem voz a ti elevarei 	as preces. / Quebrem-se-me os 	braços de meu coração; /Se o coração parar, será o meu 	cérebro; /Se também ele arder, então meu sangue /Te 	acolherá, Senhor, em cada gota.

5. Desproporção estrutural
	
	A incapacidade de respondermos às exigências constitutivas do nosso ser é estrutural, isto é, de tal modo inerente à nossa natureza que representa a característica do nosso ser.

	Com efeito, basta observarmos com atenção a experiência que muitas vezes fazemos: conseguimos atingir nossos objetivos, realizamos nossos projetos, mas, mesmo assim, experimentamos uma falta que muitas vezes deixa o nosso coração apertado.
5. Desproporção estrutural
	
	Foi uma experiência semelhante que converteu Francesco Severi à religião, depois de cinqüenta anos de alta experiência científica. Em uma conversa que teve com Einstein poucos antes da morte deste, Severi discutiu também com o grande físico o tema religioso. A um certo ponto, Einstein lhe disse: "... quem não admite o mistério insondável não pode nem ser um cientista" .
	
	A vida é fome, sede, paixão por um objeto último que domina sobre seu horizonte, embora esteja sempre para além dele.

6. tristeza
	
	No homem real, a grande tristeza, caráter fundamental da vida consciente de si, é concebida como “desejo de um bem ausente” (cf. Tomás de Aquino).

	Esta tristeza é bem descrita por Clemente Rebora, numa bela poesia:

		Seja o que for que digas ou faças, / há dentro um grito: / não é 	por isso, não é por isso! / E assim tudo reenvia / a uma 	pergunta secreta: o ato é pretexto. / 	Na iminência de Deus 	/ a 	vida acaba com reservas caducas, /enquanto cada 	um se 	agarra / a algum bem que lhe grita: adeus.

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6. tristeza
	
	Se a tristeza é a centelha que se acende pela experiência da “diferença de potencial” entre a destinação ideal e a não realização histórica, o achatamento daquela “diferença” – seja como for que aconteça – cria o oposto lógico da tristeza, o desespero:

		Somente a idéia constante de que existe algo de infinitamente 	mais justo e mais feliz do que eu, enche-me todo de ternura 	sem medida e 	de glória, quem quer que eu seja, o que quer 	que eu tenha feito. Para o homem, é muito mais 	indispensável do que 	a própria felicidade 	saber, e a todo 	momento crer que 	existe, 	em certo lugar, uma 	felicidade 	perfeita e calma, para todos e para tudo... Toda a lei da 	existência humana 	consiste só 	nisso: que o homem 	possa se dobrar diante do infinitamente grande. Se 	os homens 	viessem a ser privados do infinitamente grande, eles não 	poderiam mais viver e morreriam presas do desespero” (Cf. 	Dostoevski, Os Possessos).

6. tristeza
	A tristeza revela que nos falta algo, que nunca estamos completos. Isso está bem descrito pelo poeta italiano Mario Luzi:

		“De que falta é esta falta,/ coração,/ de que de repente te enches?/ 	De que?/ Rompido o dique,/ inunda-te e te submerge/ a cheia 	da tua inteligência.../ 	Vem,/ talvez venha,/ de além de ti/ um 	chamado/ que agora, por agonizares, 	não escutas./ Mas 	existe, a música perpétua/ preserva sua força 	e canto... 	Voltará./ Tende calma”.

	A natureza dessa falta fica evidente quando procuramos dar-lhe uma resposta. Os prazeres, muitas vezes, constituem a primeira tentativa de preencher o vazio dessa falta.
7. A natureza do eu como promessa
	“Aquilo que o homem procura no prazer é o infinito, e ninguém 	renunciaria jamais à esperança de alcançar este infinito”.
 
	A observação de Cesare Pavese encontra outras dramáticas confirmações no seu “Diário”. Quando o escritor obteve o mais importante prêmio literário italiano, o Prêmio Strega, comentou:

		“Obtiveste o dom da fecundidade, és senhor de ti, do 	teu destino, és célebre como quem não procura sê-	lo. Tudo isto, 	todavia, acabará. Esta profunda alegria 	tua, esta ardente saciedade é feita de coisas que não 	planejaste; é dada a ti. A quem, a quem, a quem 	agradecer, contra quem blasfemar no 	dia em que 	tudo acabar?... Em Roma, apoteose! E daí?”

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7. A natureza do eu como promessa
	Mas já entre as primeiras notas do diário de Pavese emerge uma observação capital: “Como é profundo o pensamento de que realmente nada nos é devido. Alguém alguma vez nos prometeu algo? E então porque esperamos?”

	Talvez ele não tenha pensado que a espera é a estrutura mesma da nossa natureza, a essência da nossa alma. Ela não é um cálculo: é dada. A promessa está na origem, desde a própria origem da nossa criação. Quem fez o homem o fez “promessa”. Estruturalmente o homem espera; estruturalmente é mendigo, estruturalmente, a vida é promessa.
8. O senso religioso como dimensão
	
	O senso religioso é a capacidade que a razão tem de exprimir a própria natureza profunda na interrogação última, é o lugar da consciência que o homem tem da existência. Tal pergunta inevitável está em cada indivíduo e dentro do seu olhar para as coisas.

	Essa é uma verdade que ninguém pode negar: experimento dentro de mim um desejo imenso de algo que possa preencher a minha vida de esperança e de paz, mas sei que não pode ser algo que dure somente certo tempo; o meu desejo é que esse “algo” dure para sempre, o meu desejo é o de encontrá-lo.
8. O senso religioso como dimensão
	O senso religioso é a capacidade que a razão tem de exprimir a própria natureza profunda na interrogação última, é o locus da consciência que o homem tem da existência.

	Um grande filósofo e teólogo americano, Alfred N. Whitehead dizia que “a religião é aquilo que o homem faz na sua solidão”. A definição é interessante, mesmo que não expresse todo o valor do qual parte a intuição que a gerou. Com efeito, a pergunta última (que sentido tem tudo?) é constitutiva do indivíduo e, nesse sentido, o indivíduo está totalmente só: ele mesmo é essa pergunta e nada mais.

	

8. O senso religioso como dimensão
	

	Uma belíssima poesia de Pär Lagerkvist descreve isso de forma magistral:

	É meu amigo um desconhecido, alguém que não conheço./ Um desconhecido distante, distante. Por ele meu coração está cheio de saudades,/ Porque ele não está junto a mim. / Talvez porque não exista de verdade?/ Quem é tu que preenches o meu coração com a tua ausência?/ Que preenches toda a terra com a tua ausência?

	
8. O senso religioso como dimensão
	Mas, Atenção! A mesma pergunta, porém, no mesmo instante em que define a minha solidão, coloca a raiz da minha companhia, porque significa que eu sou constituído por uma outra coisa, ainda que misteriosa.

	Esta companhia é mais original que a solidão, já que aquela estrutura de pergunta não é gerada pela minha vontade, mas me é dada.

	Portanto, antes da solidão está a companhia que abraça a minha solidão; por isso não é verdadeira solidão, mas grito de apelo à companhia escondida (Deus).

8. O senso religioso como dimensão
			O meu rosto (Adriana Mascagni)

Deus, pra mim olho e eis que descubro: não tenho rosto
Olho no fundo e vejo o escuro que não tem fim
E só quando percebo que Tu és, como um eco ouço a minha voz
E renasço como o tempo da lembrança. Coração, porque tremes? Tu não estás só, tu não és só. Amar não sabes
E és amado. És