Mão Visível - Falácia do Valor Adicionado
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Mão Visível - Falácia do Valor Adicionado

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A MÃO VISÍVEL

Alexandre Schwartsman

Smith, Ricardo e o lobo

Quarta-feira, Abril 13, 2011

A “falácia do valor adicionado” é uma das manifestações mais comuns do analfabetismo
econômico. Geralmente se expressa como indignação pelo país exportar alguma matéria-
prima (minério, petróleo, algodão) ao invés de seu correspondente manufaturado (aço,
gasolina, têxteis), clamando a seguir pela atuação do governo para: (a) desvalorizar o
câmbio; ou (b) taxar as importações de manufaturas; ou (c) taxar as exportações de
matérias-primas; ou (d) dar crédito subsidiado à produção local; ou (e) subsidiar
diretamente a produção local; ou (f) todas as alternativas anteriores.

Embora as políticas acima tenham como efeito inequívoco o benefício de poucos em detrimento
de muitos, são comumente apresentadas como de “interesse nacional”, mas não é esse o caso.
Para entender isso, vamos usar um exemplo obviamente irreal, que, todavia, ajuda revelar a
estrutura básica do problema.

Imagine que haja 100 trabalhadores disponíveis e cada um possa produzir 2 toneladas de
minério de ferro, ou meia tonelada de aço. Por outro lado, cada tonelada de aço, produto de
maior valor agregado, vale duas toneladas de minério. Como deveriam então ser distribuídos os
trabalhadores entre a produção de aço e minério, considerando que o país precisa de 25
toneladas de aço?

À primeira vista bastaria empregar metade dos recursos para a produção de minério e metade
para a produção de aço, obtendo assim 100 toneladas de minérios e as requeridas 25 toneladas
de aço.

Há, contudo, uma alternativa melhor: todos os trabalhadores poderiam ser empregados na
produção de minério, gerando 200 toneladas, das quais 50 poderiam ser trocadas por 25
toneladas de aço. Mesmo concentrando a produção no bem de menor valor adicionado, obtém-
se o aço necessário, mas com um saldo maior de minério de ferro (150 toneladas contra 100) do
que na primeira opção.

O exemplo é confessadamente imaginário e os números foram escolhidos para mostrar um caso
em que o foco na produção do bem de menor valor adicionado gera resultados superiores. Ainda
assim, ele revela verdades importantes. Vale mais produzir minério do que aço em nosso
exemplo porque a produtividade relativa (2 toneladas/trabalhador no primeiro setor versus 0,5
tonelada/trabalhador no segundo) supera o preço do aço em termos de minério (2 toneladas de
minério por uma de aço). Não é difícil concluir que seria mais vantajoso empregar todos os
recursos na produção siderúrgica apenas se o preço do aço ultrapassar 4 toneladas de minério
por uma de aço.

Como, porém, podemos saber se a produtividade relativa entre os setores supera, ou não, o
preço relativo desses dois bens? Basta observar o comportamento das empresas: face à

alternativa de produzir minério ou aço, qual é a atividade escolhida? Dado que empresas
privadas, em geral, não estão no negócio de rasgar dinheiro, a escolha mais lucrativa revela a
relação entre preços e produtividade.

No entanto, seria esse comportamento míope, dado que a empresa estaria preocupada apenas
consigo mesma, e não com “os interesses do país”? Não. No primeiro caso, temos a produção de
100 toneladas de minério e 25 de aço, que, ao preço de 2:1 equivale a um PIB de 150 toneladas
de minério (ou 75 de aço). No segundo caso, o PIB equivale a 200 toneladas de minério (ou 100
de aço), mostrando que a otimização individual também implica otimização para a sociedade
como um todo.

Assim, a menos que se consiga mostrar que há custos (ou benefícios) envolvidos na produção
dos diferentes bens não plenamente refletidos nos preços (por exemplo, se uma atividade é mais
poluidora que a outra), a solução de mercado revela a forma mais eficiente de produção. Os
“interesses do país” serão melhor servidos se aprendermos a respeitar os resultados da busca
pelo interesse individual, coordenados pelo sistema de preços, não pelo intervencionismo
governamental.