Prova EAE 120_13_10_2010_gabarito
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Prova EAE 120_13_10_2010_gabarito

Disciplina:Introdução Às Ciências Sociais275 materiais1.599 seguidores
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FACULDADE DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE DA
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Departamento de Economia
Introdução às Ciências Sociais - EAE - 120
Noturno
Primeira Prova ‑ 13/10/2010
Ricardo Abramovay – Professor Titular

AVISOS

As questões têm peso equivalente.

Não é necessário dissertar longamente sobre cada questão. As respostas que podem ser elaboradas em poucas frases.

Se preferir escrever a lápis, faça-o de maneira legível.

Quando a conquista e a manutenção do poder baseiam-se explicitamente na preocupação de fazer o bem, expor transparência e usar métodos democráticos, isso significa distanciamento com relação às ideias básicas de Maquiavel no Príncipe? Por que?

Não. Mesmo em situações democráticas e de amplo controle social sobre o governo, o poder exige sempre o uso de métodos próprios à dominação política e que nunca podem ser inteiramente transparentes ou democráticos.

Principais equívocos nas respostas

A questão não é se o Príncipe pode ou não preconizar democracia ou transparência, se ele prefere ou não fazer o bem. A questão é: em casos de controle social sobre as atividades do Estado os preceitos maquiavelianos deixam de valer? E a resposta é não.

A questão não é: que opinião teria Maquiavel sobre a democracia e sim se na democracia o dirigente político utilizar métodos maquiavelianos.

Não é verdade que, para Maquiavel, o governante deve tentar enveredar pelo caminho do bem. \O raciocínio não é: fazer o bem e, se não der, então fazer o mal. O raciocínio é: para agir politicamente, é necessário ter a capacidade de impor um certo ponto de vista sobre os outros, mesmo em situações democráticas. Por isso que Maquiavel é importante e atual.

O importante na resposta não está na possibilidade de métodos democráticos e sim no fato de que mesmo métodos democráticos supõem o emprego de táticas que supõem poder por parte do governante.

A virtù maquiaveliana não significa métodos democráticos ou transparência. Estes atributos são os das virtudes atuais ligadas a movimentos como ética na política, por exemplo, mas não são de inspiração maquiaveliana.

O importante na pergunta é o tipo de procedimento usado pelo governante e não sua intenção de fazer o bem. Mesmo quando se faz as coisas de forma transparente e voltada a objetivos sociais, a negociação e a capacidade de obter apoio para estes objetivos depende de atuação política.

Muitos apresentaram um Maquiavel que preconiza equilíbrio em que só se recorre à violência se necessário: é até verdade, mas não é a resposta à pergunta formulada.

Qual é, na opinião de Isaiah Berlin o pressuposto intelectual da civilização Ocidental que Maquiavel contribui para destruir?
É que não existe um projeto político ou uma utopia capaz de unificar todas as correntes de pensamento. Consequentemente haverá sempre uma disputa entre estas correntes. Maquiavel contribui derrubar o mito de que existe um estado social ótimo, em direção ao qual a boa, a verdadeira política deveria dirigir-se. Exatamente porque esta definição do ótimo é impossível que a atividade política é necessária.
Ou no dizer de um de vocês: “Berlin diz que Maquiavel contribui para destruir o pressuposto de que existe um padrão universal abrangente em que cada homem deva optar”.
É correto dizer que para Berlin a política não é uma ciência normativa.

Principais equívocos nas respostas

O equívoco mais comum foi o de dizer que o pressuposto intelectual que Maquiavel contribui para derrubar é que a política não se rege pela moral cristã. Isso é verdade, mas esta ideia não é apresentada por Berlin como o pressuposto intelectual da civilização Ocidental que Maquiavel contribui a destruir.
Em que sentido se pode dizer que, para Hobbes a política é uma ciência dedutiva?
A política é uma ciência dedutiva, para Hobbes, pois a construção do Estado decorre logicamente dos atributos humanos do egoísmo e da racionalidade. A base da política como ciência dedutiva é o individualismo metodológico.
Principais equívocos nas respostas

Não basta dizer que analisando-se as propensões humanas, daí se deduz os comportamentos: é preciso mostrar que propensões são estas e quais são seus resultados políticos.

Tampouco basta dizer que a política é uma ciência dedutiva pois parte de deduções pré-estabelecidas como verdades. É uma resposta tautológica.

Com base na terminologia de Levine, defina quais são as propensões atômicas dos atores, seu campo interativo e o estado social resultante em Hobbes e em Locke.
Em Hobbes a propensão de cada ator é o desejo (de poder, de riqueza, de honra) da qual resulta, como campo interativo, a guerra que traz a anarquia. Ao mesmo tempo, como existe a propensão individual à autopreservação, os homens interagem estabelecendo o contrato e o Estado social daí resultante é o de paz.

Em Locke, a propensão de cada ator é pacífica e a interação resulta imediatamente numa socialização benigna, construtiva. Mas quando existe acumulação de riqueza, esta socialidade pacífica encontra-se ameaçada. A propensão pacífica dos atores faz com que estabeleçam um contrato do qual resultado um Estado civil democrático e capaz de proteger os cidadãos, evitando que eles tenham que fazer justiça com as próprias mãos.
Principais equívocos nas respostas

Locke não é utilitarista.

Na descrição de Hobbes, há dois momentos: um em que a interação resulta em anarquia e outro em que ela resulta em ordem.
Em que o utilitarismo de Mill se distingue do de Benthan?
Mill se insurge contra o cálculo do prazer e da dor e recusa a ideia de que os bens materiais são a principal fonte do bem-estar para os indivíduos.
Principais equívocos nas respostas

A diferença não é que Mill procurou basear-se em matemática.
Por que razão, para Mill, a economia é uma ciência separada das outras?
Entre as ciências do homem e da sociedade a economia (juntamente com a etologia, disciplina que Mill jamais desenvolveu) é a única ciência dedutiva. Ela se apoia no método que consiste em isolar os motivos econômicos de todos os outros, considerando o ser humano apenas enquanto propenso à aquisição de riqueza.

Principais equívocos nas respostas

A resposta não está na insuficiência da economia: tem que procurar realçar, na resposta, o alcance da economia e não seu limite.

A economia não se confunde, nem assimila outras ciências como a sociologia, a psicologia, etc.
Qual o valor do trabalho para Marx?
A expressão “valor do trabalho” é irracional, para Marx. O valor é o tempo socialmente necessário para produzir as mercadorias. Existe valor da força de trabalho (que corresponde à cesta de consumo do operário) ou o valor do produto do trabalho. Mas não o valor do trabalho.

Principais equívocos nas respostas

Muitos de vocês retomaram a expressão de David Ricardo (que Marx critica, como comentei em aula) segundo a qual o valor do trabalho é o salário.
O que há de contraditório, para Marx, na fórmula geral do capital?
É que se trata de uma troca entre iguais, cujo resultado é a desigualdade dos termos de troca.

Principais equívocos nas respostas

O principal equívoco está em dizer que a contradição da fórmula geral encontra-se na exploração do trabalhador, sem mencionar o essencial: é uma troca entre iguais que resulta em desigualdade.

Não existe valor do dispêndio de força: existe ou o valor da força de trabalho (cesta básica) ou o valor dos produtos do trabalho.

Dizer que o valor do trabalho é abstrato não significa nada.

O que é contraditório na fórmula geral não é que D-M-D seria tautologia. Tautologia não é contradição.