Senso Religioso - Pe Paulo - design 2

Disciplina:O Humano e O Fenômeno Religioso75 materiais431 seguidores
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sou“ senão identificando o eu com "eu sou feito".

5. A lei do coração
	Trata-se do fato de que há no eu algo como uma voz que me diz “bem”, e me diz “mal”. Essa consciência do eu traz consigo a percepção do bem e do mal. É que a Bíblia e São Paulo definiam como “a lei escrita em nossos corações”.

	É o trilho pelo qual Aquele que nos cria reconduz a Si toda a nossa existência. O trilho de um bem, de um justo a que está ligado o próprio sentido da vida, da nossa existência, do real; algo que é bom e justo porque é assim, que não está à mercê de nada. Que uma mãe queira bem ao seu filho é bom porque é bom; que alguém com sacrifício ajude um estranho é bom porque é bom.

Conclusão
	Qual é a fórmula do itinerário rumo ao significado último da realidade? A única condição para sermos sempre e verdadeiramente religiosos é vivermos sempre intensamente o real. A fórmula do itinerário rumo ao significado da realidade é viver o real sem censuras, isto é, sem renegar nem esquecer nada.

	O que bloqueia a dimensão religiosa autêntica, o fato religioso autêntico, é uma falta de seriedade para com o real, que tem no preconceito o exemplo mais agudo. É sinal dos grandes espíritos e dos homens vivazes a ânsia da busca através do empenho com a realidade da sua existência.

	

conclusão
	Eis, então, a conclusão: o mundo, esta realidade com que nos deparamos, é como se no momento do impacto libertasse uma palavra, fizesse ouvir um significado. O mundo é como uma palavra, um logos que reenvia, remete a outro além de si, mais acima. Em grego, “acima” se aná. Este é o valor da analogia: a estrutura do impacto do homem com a realidade desperta no homem uma voz que o atrai para um significado que está mais além, mais acima, aná.

	Analogia. Esta palavra sintetiza a estrutura dinâmica do impacto que o homem tem com a realidade.

II. EXPERIÊNCIA DO SINAL
	PERGUNTAS:

	1. Em que sentido, no impacto com a realidade, o homem faz a experiência do sinal?

	2. Por que seria irracional negar a existência de uma outra coisa além da realidade experimentável (ou seja, negar o Mistério do qual a realidade é sinal)?

	3. Qual é valor racional da dinâmica do sinal?

ii. Experiência do sinal
	Como vimos acima, a realidade me atinge demonstra e me obriga (se eu for leal com a evidência imediata que percebo) a reconhecer a existência de alguma outra coisa. Mas como?

	1. Provocação

	O real solicita-me a procurar alguma outra coisa além daquilo que me aparece imediatamente. Diante do mar, da terra, do céu e de todas as coisas que neles se move, eu não permaneço impassível; eu sou animado, movido, comovido pelo que vejo.
ii. EXPERIÊNCIA DO SINAL
	2. O sinal

	Uma coisa que se vê e se toca e, ao ser vista e tocada, move-se em direção a outra, como se chama? Chama-se sinal. O sinal é uma realidade cujo sentido é uma outra realidade, uma realidade experimentável que adquire significado quando conduz a uma outra. Esse é o método com o qual a natureza chama a nossa atenção para outra coisa além d si mesma: o método do sinal.

	Esse método é também o modo normal dos relacionamentos entre as pessoas.

ii. EXPERIÊNCIA DO SINAL
	3. Negação irracional

	Diante desse fenômeno não seria racional, isto é, não corresponderia à natureza do homem, negar a existência daquela outra coisa. Não seria humanamente adequado envolver-se com esse fenômeno esgotando a sua experiência no seu aspecto imediato.

	Vamos supor que eu entre em seu quarto e veja um vaso com um buquê de flores. Então pergunto: “Que bonito! Quem lhe deu?” Mas você não responde nada. Eu insisto: “Quem colocou essas flores sobre a sua mesa? Você me responde: “estão aí porque estão aí”. Eu continuo insatisfeito com essa resposta até que você esclarece: “Foi minha mãe que me deu.” “Ah”, diria então satisfeito. Não seria um olhar humano frente ao fenômeno da presença daquele buquê de flores a não ser aceitando o convite contido naquele fenômeno. A presença das flores, na realidade, é sinal de uma outra coisa.

ii. EXPERIÊNCIA DO SINAL
	4. O caráter exigencial da vida

	A prova experimental do fato de que a natureza do impacto do homem com o real desenvolve um pressentimento ou busca de outra coisa, é dada pelo caráter de exigência da vida,
	
	Tais exigências podem ser reconduzidas a quatro categorias:
	1) A exigência da verdade, isto é, exigência de significado das coisas e da existência. Esta exigência implica sempre a identificação da verdade última, do significado último, porque não se pode definir verdadeiramente uma verdade parcial senão em relação com o que é último.

	

ii. EXPERIÊNCIA DO SINAL
	2) A exigência da Justiça. Esta exigência se identifica com o homem, com a sua pessoa. Sem a perspectiva de um além, a justiça é impossível (ex.: homem que sofreu a pena de morte e, em seguida, descobriu-se que ele era inocente... ).

	3) A exigência da felicidade. Quanto mais a pessoa faz a experiência da felicidade, mais se dá conta de que ainda não está totalmente satisfeita. Se estiver realmente atenta à sua vida, percebe logo que naquela experiência de satisfação está implicada a referência a um Outro.
 	

 

ii. EXPERIÊNCIA DO SINAL
	4) A exigência do amor. Para compreender o dinamismo desta exigência basta citar um texto de Romeu e Julieta, de Shaskespeare:

	“Mostre-me uma amante que seja muito bela; que é sua beleza, senão um sinal onde leio o nome daquela que é ainda mais bela?”.

	O caráter exigencial da existência humana acena para além de si , como a um destino e um objetivo: a resposta está além das modalidades existenciais experimentáveis.

ii. Experiência do sinal
	5. “Tu”, sinal supremo

	Se no impacto com o homem, o mundo funciona como sinal, devemos então dizer que o mundo “demonstra” algo de “Outro”, demonstra “Deus” assim como o sinal demonstra aquilo de que é sinal.

	É importante sublinhar a analogia com a expressão normal das relações humanas. O lugar privilegiado onde o homem uma experiência de completude é a companhia, a amizade, particularmente entre o homem e a mulher. A mulher para o homem, e vice-versa constituem realmente outro; tudo o mais é assimilável pelo homem, mas o tu nunca. O tu não é exaurível; é evidente e não “demonstrável”.

iii. A descoberta da razão
	Procuremos agora esclarecer rapidamente o valor racional da dinâmica do sinal.

	1. A razão é exigência de compreender a existência; quer dizer, é exigência de explicação adequada, total da existência. Esta explicação não pode ser encontrada dentro do horizonte da nossa experiência de vida e, por mais que dilatemos este horizonte, a exigência de um porquê permanece: a morte fixa irremediavelmente essa não-plenitude.
	
	
iii. A descoberta da razão
	2. Se quisermos salvar a razão, isto é, se queremos ser coerentes com esta energia que nos define, se não queremos renegá-la, o seu próprio dinamismo nos obriga a afirmar a resposta exaustiva para além do horizonte da nossa vida.

	A resposta existe porque grita através das perguntas constitutivas do nosso ser, mas não pode ser medida pela experiência. Existe, mas não sabemos o que é.

iii. A descoberta da razão
	3. O vértice da conquista da razão é perceber que existe um desconhecido inatingível ao qual os movimentos do homem se destinam, porque dele dependem. É a idéia do mistério.

	O mistério não é um limite para a razão, mas é a maior descoberta a que esta pode chegar: a existência de algo incomensurável com ela mesma. O mistério é intuído como realidade implicada no próprio mecanismo do nosso eu; não é obstáculo para a razão, mas sinal de uma abertura sem fim. Gabriel Marcel afirma com toda força: “O Mistério é esclarecedor”
	
	
iii. A descoberta da razão
	4. A razão do homem vive neste nível vertiginoso. A explicação existe mas não pode ser apreendida pelo homem; existe, mas não sabemos como é. O historiador romano Tácito assim descreve no seu Germania a idéia que as tribos alemãs da faziam da divindade:

	"Aquela realidade escondida, inapreensível, que percebem somente como algo de que depende a sua vida, a esta realidade chamam Deus"
Ronieri Aguiar fez um comentário
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