Senso Religioso - Pe Paulo - design 2

Disciplina:O Humano e O Fenômeno Religioso75 materiais416 seguidores
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revela que "um excessivo apego a si mesmo" ( a fórmula psicológica idêntica é conhecida: "amor próprio") impele a razão do homem, no seu desejo apaixonado, na sua pretensão de compreender este supremo significado do qual dependem todos os seus atos, a dizer em certos momentos:

	 "Compreendi: o mistério é isto" ( cfr. Ex. 32, 1-4 ).

	
III. A impaciência da razão
	Isto quer dizer que existencialmente esta natureza da razão como exigência de conhecer, de compreender, penetrando tudo, e por isso pretende também penetrar no desconhecido do qual depende cada coisa, do qual o seu fôlego e a sua respiração dependem a cada instante. A razão, impaciente, não tolera a adesão ao único sinal através do qual seguir o desconhecido, sinal tão obscuro, tão opaco, tão aparentemente casual, como é a sucessão das circunstâncias: é como sentir-se em poder de um rio que nos arrasta para lá e para cá.

	
III. A impaciência da razão
	
	Na sua situação existencial, a natureza da razão sofre uma vertigem à qual primeiro pode resistir, mas na qual em seguida cai. A vertigem consiste no caráter prematuro ou na impaciência com a qual diz: "Entendi, o significado da vida é este".

	Todas as afirmações segundo as quais "o significado do mundo é este", na sua diversidade e multiplicidade, são todas provas daquela queda.

IV. Um ponto de vista que altera
	Mas quando a razão do homem diz: "o significado da minha vida é...", "o significado do mundo é...", "o significado da história é...", identifica inevitavelmente este é: o sangue da raça alemã, a luta do proletariado, a competição pela supremacia econômica, etc...

	Toda vez que este é identifica um conteúdo de definição, parte inevitavelmente de um certo ponto de vista.
	
	
IV. Um ponto de vista que altera
	Isto quer dizer que, se o homem pretende a definição do significado global, só pode cair na exaltação do seu ponto de vista, de um ponto de vista. Só poderia pretender a totalidade por um particular; um particular é dilatado até atingir a totalidade.
	
	Então este ponto de vista procurará encaixar cada aspecto da realidade dentro de sua perspectiva. E como é um particular da realidade, este encaixar tudo só poderá fazer com que se renegue ou esqueça alguma coisa; só poderá reduzir, negar e renegar o rosto completo e complexo da realidade.

IV. Um ponto de vista que altera
	Onde está o "phatos" desta atitude? Está no fato de o senso religioso, isto é, a natureza do homem na sua estatura última, identificará o significado total de sua vida com algo de compreensível para si. E aqui está a raiz do erro: "com algo compreensível para si". Exatamente porque a natureza da razão é exigência de compreender, diante da intuição do desconhecido, do mistério, fica tomada de vertigens e, quase sem se dar conta, ela escorrega, rebaixa o seu olhar e, fixando-o sobre um dos muitos fatores da sua experiência, diz: "É este o significado“.
IV. Um ponto de vista que altera
	
	A decadência, a degradação da qual falava, a parábola que imediatamente, segundo uma espécie de força da gravidade, trabalha dentro da razão, está na pretensão de que a razão seja a medida do real, quer dizer, que a razão possa identificar e, portanto, definir qual seja o significado de tudo. Que significa ter a pretensão de ser a medida do real? Significa pretender ser Deus.

V. ídolos
	 A Bíblia chama com um determinado nome o particular com o qual a razão identifica o significado total do seu viver e do existir das coisas. Este particular com o qual a razão identifica a explicação de tudo chama-se, na Bíblia, ídolo. É algo que parece Deus, tem máscara de Deus, mas não é Deus.

	Quanto mais se tenta explicar tudo com o ídolo, mais se compreende que ele não é suficiente: Tem olhos mas não vêem, ouvidos mas não ouvem, tem mãos mas não tocam", diz o Salmo 36, ou seja: os ídolos não mantém suas promessas e suas pretensões totalizantes. Ao contrário, na medida em que o mistério é reconhecido, tende a determinar a vida de modo tal que aquela terrível lista de São Paulo silencia, se esvazia. Na medida em que os ídolos são exaltados, o humano é rebaixado. É abolição da pessoa, da responsabilidade do humano. A estrutura será a culpada de tudo: o ídolo obscurece o horizonte do olhar humano e altera a forma das coisas.
V. ídolos
	
	Mas existe um corolário impressionante. Hitler tem o seu ídolo, sobre o qual pretende edificar a vida do mundo para uma humanidade melhor. Mas esta sua construção, que procura tudo envolver, tem que defrontar-se, a certa altura, com o dinamismo do projeto de Lênin ou Stálin; e então?

	 A ideologia construída sobre o ídolo é totalizante por natureza; de outro modo, não poderia tentar vencer no plano político. Quando se trata de duas ideologias totalizantes, o encontro entre elas só pode produzir um confronto total. Isto explica porque, na Bíblia, a origem da violência como sistema de relacionamento, isto é, da guerra, é o ídolo.

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VI. DINÂMICAS DE IDENTIFICAÇÃO DO ÍDOLO
	Existe uma outra observação importante a ser feita. Já vimos que o homem realiza a identificação de Deus com o ídolo escolhendo alguma coisa que ele compreende: porque aqui está o pecado original, a pretensão de identificar o significado total com algo que o homem compreende. Mas, como se disse, se há uma coisa que o homem não pode fazer é o momento original, o mais importante: dar ser às coisas. Ele pode manipular o que existe, mas não pode dar existência a nada.

	O homem não pode evitar esta alternativa: ou é escravo de outros homens ou é sujeito dependente de Deus.
	
	Por fim, observemos que, desde que o homem é homem, amadurecendo na história ele tende a identificar o deus, isto é, o significado do mundo com um ou outro aspecto do eu. Todo este jogo, o jogo do ídolo, repete-se, contradizendo-se cem vezes por dia. O ídolo jamais produz a unidade e totalidade sem esquecer ou renegar alguma coisa.

	
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conclusão
	
	O mundo é sinal. A realidade evoca uma Outra. Para ser fiel à sua natureza e à natureza desta evocação, a razão deve admitir a existência de alguma outra coisa que explica e sustenta tudo. Mas, se por natureza, o homem intui o Além, por uma condição existencial, não se mantém e cai. A intuição é como um ímpeto que decai. Como por uma força de gravidade triste e maligna.

	A realidade é sinal e desperta o senso religioso. Mas é uma sugestão mal interpretada; existencialmente, o homem é levado a interpretá-lo mal, isto é, prematuramente, impacientemente. A intuição da relação com o Mistério se corrompe em presunção.
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vii. A exigência da revelação
	

	Por isso, Santo Tomás de Aquino diz, no início da sua Summa Theologiae:

		"A verdade sobre Deus que a razão poderia atingir seria, de fato, 	somente para um pequeno número, e depois de muito tempo, e não 	sem mistura de erros. Por outro lado, é do conhecimento desta 	verdade que depende toda a salvação do ser humano, pois a salvação 	está em Deus. Para tornar esta salvação mais universal e mais certa, 	teria, pois, sido necessário ensinar aos homens a verdade divina com 	uma divina revelação".

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vii. A exigência da revelação
	De muitos modos, então, o gênio religioso humano gritou a saudade de uma libertação desta inextricável prisão da impotência e do erro. Talvez a expressão mais potente seja a que encontramos no Fedon de Platão:

		"Parece-me, ó Socrates, e talvez também a ti, que na vida presente não se 	possa atingir a verdade segura sobre essas coisas de nenhum modo, ou pelo 	menos com grandíssimas dificuldades. Mas acho que seria uma vileza não 	estudar sob cada aspecto as coisas ditas sobre e abandonar a pesquisa 	antes de ser examinado cada meio. Porque nestas coisas, de duas uma: ou 	se 	chega a conhecer como estão; ou, se não se consegue, aplica-se ao 	melhor e 	mais seguro dentre os argumentos humanos e, com ele, 	como sobre um 	barco, tenta-se a travessia do oceano. A menos que não se 	possa, com 	maior comodidade e menor perigo, fazer a passagem com 	algum meio de 	transporte mais sólido, isto é, com a ajuda da palavra 	revelada de um
Ronieri Aguiar fez um comentário
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