Senso Religioso - Pe Paulo - design 2

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A EXIGÊNCIA DA REVELAÇÃO
Realidade e mistério
I. A HIPÓTESE DA REVELAÇÃO
	A nossa natureza é exigência de verdade e de realização, quer dizer, de felicidade. Todo o movimento do homem, qualquer coisa que ele faça, é ditado por esta urgência que o constitui. Mas esta urgência, chegando às bordas da própria experiência de vida, não encontra ainda aquilo que tem procurado; nas fronteiras extremas do território da sua experiência, esta nossa urgência não encontrou ainda o que procurava. E o aparente muro da morte codifica facilmente a realidade desta observação.
	
	Eis a questão. Porque é por força da natureza, para não se suprimir como natureza, que neste ponto a nossa razão, a nossa humanidade intui que a resposta está implicada no seu próprio dinamismo; resposta que existe pelo próprio pelo próprio fato de existir a exigência. Seria preciso decidir-se por uma irracionalidade total, por uma não-naturalidade total, para suprimir o impulso com o qual a nossa natureza intui que este significado último, esta dependência total, tem um termo de referência - mesmo se ele está, usemos a palavra dramática, "desesperadamente" além, está além, "trans", é "transcendente", "absoluto", isto é, não ligado ao tempo e ao espaço, nem a nenhuma medida da razão, da fantasia ou da imaginação que possamos usar.

i. A HIPÓTESE DA REVELAÇÃO
	A existência desta suprema incógnita, da qual tudo na história e no mundo depende, é o vértice e a vertigem da razão. Isto significa, da fato, que, idealmente, o homem que realiza a sua humanidade até este ponto deveria ser um homem à mercê, com toda a sua vontade de vida, com toda a sua "afeição" ao real, instante por instante, totalmente suspenso por esta Incógnita suprema, a este absoluto Desconhecido, inatingível, indecifrável, inefável. Como este Desconhecido manifesta ao homem a sua vontade? De que modo comunica ao homem o plano inteligente que assegura o significado de tudo? A comunicação acontece através da aparente casualidade das circunstâncias, dos condicionamentos banais que determinam cada instante do homem.

	Que paradoxo! Para seguir a luz absoluta do significado, seria necessária uma obediência a cada instante, como de quem navega na névoa absoluta; instante a instante, deveria obedecer à coisa aparentemente mais irracional, isto é, às coisas que o vento do tempo torna absolutamente imutáveis. É preciso uma grande coragem: como a de Jacó. Toda a noite, isto é, o tempo da existência, vivido em tensão com aquela Presença inapreensível, indecifrável, da qual não se conhece a face. Sobrevém ao homem a tortura, a vertigem.

i. A hipótese da revelação
	O anseio de uma "redenção", de uma rota segura ao atravessar o oceano do significado, fora gritado profeticamente quatro séculos antes de Cristo, no Fédon de Platão. No extremo da experiência da vida, no extremo da consciência sofrida e apaixonada da existência, solta-se, apesar do próprio homem, este grito de humanidade mais verdadeira, que é como uma súplica, uma mendicância; liberta-se a grande hipótese, "a não ser que possa fazer a travessia sobre alguma sólida nau, isto é, com a ajuda de uma palavra revelada do Deus".
	
	Em termos próprios, chama-se a isto hipótese da revelação. A palavra revelação tem um sentido lato, mais amplo e genérico: o mundo é esta revelação de Deus, do mistério. A realidade é um sinal por cuja interpretação a consciência do homem compreende a existência do mistério. Neste sentido, o mundo é estruturalmente a revelação a revelação do Deus: é a interpretação da estrutura dinâmica das coisas no relacionamento com o homem que leva a ouvir a presença de um "Além".

I. A HIPÓTESE DA REVELAÇÃO
	Mas, em sentido próprio, "revelação" não é mais fruto de uma interpretação que o homem faz da realidade, da natureza do homem em busca do seu significado: trata-se, ao contrário, de um possível fato real, um eventual acontecimento histórico. Um fato que o homem pode reconhecer ou não. Judas não o reconheceu; a maioria daqueles que o viram não o reconheceu.
	
	Mas se Deus de algum modo entre na história do homem como um fator interno da história, não permanecendo como última margem além das aparências que o homem deve ultrapassar, mas tornando-se uma presença dentro da história, capaz de falar como um amigo, um pai, uma mãe - esta é a revelação a que aspirava o Fedon de Platão.
	
	Esta é a hipótese excepcional, esta é a revelação em sentido estrito: o desvelar-se do mistério através de um fator da história com o qual, no caso do cristianismo, ele se identifica.
II. Condições da sua aceitabilidade
	1) Esta hipótese é, antes de mais nada, possível. A Maria, que perguntava: "Como é possível? ", o Anjo responde: "Para Deus nada é impossível". Negar a possibilidade desta hipótese é a forma mais extrema de idolatria, a extrema tentativa que a razão opera para impor a Deus uma nossa imagem d’Ele. Porque Deus é mistério, como podemos impor a Ele aquilo que pode ou não fazer?
	
	2) Esta hipótese é extremamente conveniente. Uma hipótese é conveniente quando se encontra com o desejo do homem, quando corresponde ao coração e à natureza do homem. É sumamente conveniente uma resposta à espera , normalmente inconsciente. Em semelhante hipótese, Deus não suprime, certamente, a liberdade operosa do homem.
II. Condições da sua aceitabilidade
	3) Existem duas condições que esta hipótese deve respeitar, pois sem elas não seria uma hipótese aceitável:
	a) Se deve ser verdadeiramente uma revelação, como palavra além daquelas que o mundo já diz ao nosso coração indigno e à nossa inteligência que indaga, deve ser uma palavra compreensível ao homem. Por isso, a revelação, no sentido estrito, para ser tal, para acrescentar algo à revelação enigmática do mundo, deve traduzir-se em termos compreensíveis a nós.

	b) Mas Deus, traduzido em termos compreensíveis, não seria idolatria? Embora seja traduzido em termos humanos, o resultado da revelação deve ser o aprofundamento do mistério como mistério. O seu resultado não deve ser uma redução do mistério, como se o homem pudesse dizer: "Compreendi!", mas um aprofundar-se do mistério. Por isso é conhecido, e é cada vez mais conhecido como mistério.	
II. Condições da sua aceitabilidade
	Por exemplo: o mundo e a minha vida dependem de Deus. Isto é verdade. Mas, se ao invés da enigmática palavra "mistério", como nos sugere a realidade, usássemos a palavra "Pai", como nos sugere a revelação, teríamos então um termo bastante compreensível a partir da nossa experiência: é o pai quem me dá a vida, quem me introduz na beleza das coisas, quem me coloca a salvo de possíveis perigos.

	Então, o Absoluto, o Mistério é Pai, aliás "tam pater nemo", ninguém é tão pai. Esta revelação feita por Cristo não diminui o Absoluto, mas de fato aprofunda o conhecimento do mistério: Pai nosso que estais nos céus, Pai nosso que estais no profundo, na raiz do nosso ser.
II. Condições da sua aceitabilidade
	A impossibilidade de uma revelação é o dogma fundamental do pensamento iluminista, o tabu pregado por toda a filosofia liberal e por seus herdeiros materialistas. A afirmação desta impossibilidade é a tentativa extrema que a razão fez para ditar ela mesma a medida do real e, portanto, a medida do possível e do impossível na realidade.
	
	Mas a hipótese da Revelação não pode ser destruída por nenhum preconceito e nenhuma opção. Ela coloca uma questão de fato, à qual a natureza do coração está originalmente aberta. Para o êxito da vida, é preciso que esta abertura permaneça determinante. O destino do "senso religioso" está totalmente ligado a ela.
	
	Esta é a fronteira da dignidade humana: "Mesmo que a salvação não venha, desejo, porém, ser digno dela a cada instante" ( Kafka )

O SENSO RELIGIOSO
SÍNTESE
I. O senso religioso: o ponto de partida
	1. Como proceder

	Com abordar a experiência religiosa de modo a captar os seus fatores constitutivos?

	a) Se a experiência religiosa é uma experiência, não podemos senão partir de nós mesmos para olhá-la de frente de modo que possamos conhecê-la assim
Ronieri Aguiar fez um comentário
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