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Disciplina:O Humano e O Fenômeno Religioso75 materiais416 seguidores
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me davam. Mas o que é que me faltava? O que era aquele vazio terrível que eu sentia por dentro antes de me deitar à noite? Afinal eu tinha tudo, e isso não era apenas uma maneira de dizer. O que eu sentia era o desejo que todos nós temos, e que nos aproxima uns dos outros, quer sejamos adultos, quer calouros. Pois eu sempre tive a necessidade de ser feliz, e o que nunca consegui entender era por que razão, na minha imensa sorte, eu nunca havia conseguido ser feliz. Ou, melhor dizendo, eu não entendia como seria possível encontrar uma felicidade duradoura. Dizia a meus amigos: ‘Se uma noite dessas eu perguntasse a vocês, na danceteria, quando estivéssemos bebendo e fazendo outras bobagens juntos, se vocês estão felizes com o que estamos fazendo, muitos de vocês me responderiam que sim. Mas se no dia seguinte, depois da farra, eu lhes repetisse a mesma pergunta, não sei até que ponto vocês poderiam mentir a si mesmos. Eu fingi que estava tudo bem durante vinte anos, se quiserem saber. Mas, no fim, entendi que nós podemos nos esconder de tudo, menos do nosso coração e da exigência de felicidade que carregamos nele’. E pensar que busquei a felicidade por toda a parte, em todas as pessoas e em todas as coisas [nós buscamos a felicidade em todas as pessoas e em todas as coisas, na realidade]. Cheguei a sair de casa, ficar longe da minha família, durante quase dois anos, em Londres, para ser feliz, pensando que fossem eles que impedissem a minha liberdade, e que só a minha liberdade pudesse me tornar feliz. Mas outra vez estava errado” (Filipe)

2. SUBSTITUIÇÃO VOLUNTARISTA DAS PERGUNTAS
	
	Se for eliminada a energia estimulante da “experiência elementar”, a energia dinâmica que aquelas perguntas determinam, em que consistirá a energia que nos faz agir?

	A energia que nos faz agir reduz-se a uma afirmação de si, ou seja, no lugar daquelas perguntas se coloca a energia da vontade, por meio da qual afirma a si mesmo como significado.

2. SUBSTITUIÇÃO VOLUNTARISTA DAS PERGUNTAS
	Essa atitude é a mais dramática, pois se trata de uma posição puramente existencial, uma concepção de vivida. As perguntas machucam, fazem mal. É preciso, então, considerar a vida de modo tal que elas não venha à luz.	
	a) O primeiro significado é bem geral, conhecido por todos, por nós mesmos: “Não pense nisso!”. 	

	Como na peça Henrique IV, de Shakespeare, quando Dora diz a Falstaff:
 	“Ó meu gracioso leitãozinho da feira de São Bartolomeu, quando cessarás de guerrear de dia e duelar de noite, e começarás a preparar o teu velho corpo para o céu?”.
	Falstaff responde:
	“Quieta, minha boa Dora, não fales como uma cabeça de morto, não me recordes o meu fim”. Esta é a suprema sabedoria de muitos”.	

3. NEGAÇÃO PRÁTICA DAS PERGUNTAS

	
	b) Mas há um outro delineamento: a sociedade cria interesses para obscurecer o grande interesse da pergunta essencial, a pergunta pelo significado.

	Mas não consegue realizar isso. Então, a vida em sociedade é suplantada pelo álcool, pela droga, pelo sexo, pelos remédios, etc.
	
	Exemplo: próximo slaid:
3. NEGAÇÃO PRÁTICA DAS PERGUNTAS
	“Nas ruas de nossa cidade, a multidão se move sobre as largas calçadas, sob edifícios altos como nunca. Em uma inquietude surda e dolorosa, procura o sabor do dia presente. Com sede de fortes excitações, lota os cinemas, os estádios, os bares. Não se contenta com as motivações sociais da existência, apesar de ter reconhecido a sua lógica, ilustrada todos os dias com mil argumentações. Os argumentos geralmente a convencem: a multidão não é composta de loucos, ela compreendeu a importância do trabalho em sua vida, leva a sério o esforço organizado, respeita a energia material, fonte dos sucessos futuros. Tudo isso, porém, não apaga a nostalgia. Atormentada por um confuso desejo, ansiando por esquecer o programa de suas realizações, a multidão quer descobrir o sabor da vida, que lhe permita gozar o prazer do espaço da existência. Nisto, não é exigente, aceita aquilo que lhe dão. Os princípios e os objetivos não apagam a nostalgia. O álcool contém a garantia mais segura para reconciliar-se com o presente; uma garrafa de meio litro contém o percentual desejado de irracional...”

3. NEGAÇÃO PRÁTICA DAS PERGUNTAS
	c) Mas o aspecto mais nobre, mais acabado, mais fundamentado filosoficamente, é o ideal estóico da ataraxia, da impertubabilidade: não é possível responder essas perguntas; portanto, é preciso anestesiar-se diante delas.

	Esse se tornou o ideal de muitos escritores contemporâneos. Basta ler o final de Adeus às armas, de Hemingway: o homem que supera a dor pela morte da sua mulher indo embora “assoviando” – este seria o homem “racional”, senhor de si.
							
3. NEGAÇÃO PRÁTICA DAS PERGUNTAS
4. Evasão estética e sentimenTal
	
	Nesta postura não há compromisso por parte da nossa liberdade, mas satisfação expressiva do reflexo emocional suscitado pela interrogação

	“O que é a vida, condessa? / É a sombra de um sonho fugitivo. / A fábula breve acabou, / A minha breve fábula vã. / O único imortal é o amor”.

	A busca do sentido da vida, a urgência, a exigência de um sentido para a vida torna-se um espetáculo de beleza, assume uma forma estética, mas se perde no sentimento, ou seja, não serve como resposta para a vida.

4. Evasão estética e sentimenTal
	Outro exemplo: Nikos Kasantzákis em Odysseus:

	“A liberdade, irmãos, não está nem no vinho, nem na doce mulher, nem nos bens dentro do cofre, nem nos filhos no 	berço. A liberdade é um canto desdenhoso que se perde 	ao vento”

	O espaço que a exigência de um significado total oferece no valor da liberdade fica bem expresso, mas se detêm numa emoção estética.

5. A negação desesperada das perguntas
	
	Entre todas as atitudes errôneas, esta é a mais dramática, a mais séria. É negar a possibilidade de resposta às perguntas. Esta atitude é tanto mais intensa quanto mais se sentem as perguntas.

	 Nas posturas precedentes, procura-se destruir as perguntas; aqui não. Aqui, elas são levadas a sério; a seriedade impede que elas sejam negadas. Mas é a dificuldade das respostas que faz com que se diga, em certo ponto: "não é possível".

	

5. A negação desesperada das perguntas
	
	Esta é a atitude mais dramática, porque aqui é pura opção do homem que determina a opção entre o sim e o não. Mas entre a opção pelo não e a opção pelo sim, qual corresponde mais à origem, a todos os fatores da nossa estrutura; isto é, qual é razoável?

	Este é o ponto. A autêntica religiosidade é a defesa até o fim do valor da razão, da consciência humana: afirma com toda força a existência da resposta e, por isso, salva a razão.

6. A alienação
	
	O ideal da vida residiria numa hipotética evolução no futuro, para o qual todos deveríamos concorrer como único significado do viver: é a idéia do progresso.
	
	Mas existe uma objeção radical. As perguntas fundamentais assinalam o aparecimento na natureza exatamente da dimensão pessoal do homem, da originalidade irredutível da sua personalidade. Uma resposta não é dada se não for dada a mim, se não for para mim.
Dostoievski, os irmãos karamazov
	Se não encontramos uma resposta que seja para o nosso eu, para a nossa humanidade, que sentido teria se empenhar nas coisas que nos são dadas? Deixo a Dostoievski expressar de novo esta evidência racional: “Segundo a minha pobre inteligência terrena, euclidiana, sei apenas que o sofrimento existe e que os culpados não existem, que cada coisa deriva simples e diretamente de uma outra, que tudo flui e tudo se equilibra, mas estas não são senão bobagens euclidianas, bem sei, e não posso me contentar com viver baseado em semelhante bobagens! Que me importa que não haja culpados, que cada um derive simples e diretamente de uma outra, e que eu saiba disso? Preciso de uma compensação, senão me destruo. E não uma compensação no infinito, sabe-se lá onde e quando, mas aqui, na terra; quero vê-la com os meus olhos! Eu acreditei, e por isso também quero ver, e se então já estiver morto, ressuscitem-me porque seria aviltante se tudo acontecesse sem mim. Não sofri
Ronieri Aguiar fez um comentário
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