Senso Religioso - Pe Paulo - design 2

Senso Religioso - Pe Paulo - design 2


DisciplinaO Humano e O Fenômeno Religioso84 materiais434 seguidores
Pré-visualização17 páginas
Temos então a corrupção, a decomposição. Essa espécie de vertiginosa descentralização é, pois , aplicada àquilo que por natureza pode ser parcelado, medido, modificado.
	Se, porém, existe em mim uma realidade que não é divisível, nem mensurável ou essencialmente mutável, a ideia de morte, assim como a experiência mostra-a a mim, não é aplicada ela. 
	É preciso ter a coragem de não temer essa lógica. O eu de cada pessoa não esgota a sua existência naquilo que se vê e se constata que morre. Há no eu de cada pessoa algo de não mortal, de imortal. A alma humana é imortal.
 
 
SENSO RELIGIOSO: 
SUA ORIGEM E NATUREZA
1. O nível de certas perguntas
	Observemos agora o fator religioso como o aspecto fundamental do fator espiritual.
	O fator religioso se exprime em certas perguntas: \u201cQual é o sentido último da existência?\u201d \u201cPor que existem a dor, a morte? Por que, no fundo, vale a pena viver?\u201d Ou, a partir de outro ponto de vista: \u201cDe que e para que é feita a realidade?\u201d
	O senso religioso coincide com aquele compromisso do nosso eu com a vida, que se mostra nessas perguntas. 	
1. O nível de certas perguntas
	
	O senso religioso: intuição inteligente e a emoção dramática com que o homem, olhando a própria vida e a de seus semelhantes, diz: "somos como folhas...; "Longe de seu ramo, pobre folha frágil, onde irás?". 
	De fato, a palavra religião deriva do latim religare (ligar de novo), em cujo sentido etimológico indica exatamente a necessidade que o ser humano tem de estar ligado a uma origem, a uma fonte da qual seu ser brota; ou seja, ao ramo do qual tira sua seiva para viver.
1. O nível de certas perguntas
	
	Tais perguntas fazem parte da nossa natureza. Se não encontrarmos a resposta a estas perguntas, a nossa vida perde o sentido.
1. O nível de certas perguntas
	
	Um dos textos literários mais bonitos é aquele em que \u201co pastor errante da Ásia\u201d de Leopardi, propõe à lua, que parece dominar o infinito do céu e da terra, as perguntas do horizonte também sem fim: 
		Amiude, ao te ver/ Muda assim sobre campos que, desertos, / 	Lá na distância com o céu confinam; / Ou então a viajar / 	Comigo e 	meu rebanho tão de perto; / E quando olho a 	amplidão, de 	estrelas cheia, / Penso e digo comigo: por que 	tanta candeia? / Por que estes ares infinitos, este 	infinito 	profundo, sereno, / Esta imensa solidão? E eu, que sou eu?
	
2. No fundo do nosso ser
	Essas perguntas se enraízam profundamente no nosso ser: não é possível eliminá-las do nosso ser, pois constituem como que o tecido de que é feito.
	Com efeito, há momentos em que todos nós fazemos as Grandes Perguntas. Por que? Porque todos nós somos atormentados pelas mesmas questões básicas. Não importa se somos ricos ou pobres, homens ou mulheres, famosos ou desconhecidos: 
	- Toda pessoa, não importa quão rica seja, tem um vazio dentro de si;
	- Toda pessoa sente solidão, de um modo que nem os relacionamentos, nem os filhos, nem amigos conseguem preencher. Eu creio que é uma carência de Deus (Greg Laurie, O Sentido da Vida).
3. A exigência de uma resposta total
	Naquelas perguntas, o aspecto decisivo é oferecido pelos adjetivos a advérbios: qual é o sentido último da vida? No fundo, no fundo, de que é feita a realidade? Por que vale verdadeiramente a pena que eu exista, que a realidade exista?
	São perguntas que esgotam toda a energia da busca da razão. São perguntas que exigem uma resposta total que abranja todo o horizonte da razão. Uma bela poesia de Montale descreve isso muito bem:
	
		Sob o intenso azul do céu , um ou outro pássaro 	voa; nunca 	se detém: porque todas as imagens 	levam escrito: mais além\u201d.
	
3. A exigência de uma resposta total
	Existe no Evangelho uma referência importante a esta dimensão: "Que importa ao homem possuir todo o mundo, se perde o significado de si? Que dará o homem em troca de si?\u201d (cfr. Mt 16,26).
	 Este \u201csi\u201d não é outra coisa senão a exigência clamorosa, indestrutível e substancial de afirmar o significado de tudo. 
	Quanto mais avançamos na tentativa de responder a tais perguntas, mais percebemos a sua potência e a nossa desproporção em relação à resposta total.
4. DESPROPORÇÃO EM RELAÇÃO À RESPOSTA TOTAL
	É o tema dramático dos "Pensamentos" de Leopardi: 
	"Não poder estar satisfeito com nenhuma coisa terrena, nem por assim dizer, com a terra inteira; considerar a amplitude inestimável do espaço, o número e a construção maravilhosa dos mundos, a achar que tudo é pouco e pequeno para a capacidade da sua própria alma; imaginar infinito o número dos mundos, e o universo infinito, e sentir que a alma e o nosso desejo seriam ainda maiores do que tão grande universo; e sempre acusar as coisas de insuficiência e maldade, sentir carência e vazio e, portanto, tédio, parece-me o maior sinal de grandeza e nobreza que se vê na natureza humana\u201d.
 
4. DESPROPORÇÃO EM RELAÇÃO À RESPOSTA TOTAL
	Podemos imediatamente pensar que Leopardi é um pessimista. Não! Nesta poesia ele revela de forma clara, a grandeza do nosso eu. Nós, ao contrário, na maneira de olhar para a nossa humanidade, concebemos todos os sinais (o mal-estar, a insatisfação, a tristeza, o tédio) como limites que devem ser corrigidos e evitados . 
	Sendo assim, nossa tentativa de corrigir isso tem como primeiro passo, como origem, um juízo errado: nós consideramos tudo isso uma maldição.
	Leopardi, por sua vez, enfatiza bem o contrário: esses sinais nos dizem qual é a natureza do nosso eu, quem somos nós: relação com o infinito. 
	
5. DESPROPORÇÃO EM RELAÇÃO À RESPOSTA TOTAL
	Esta desproporção é descrita de forma espetacular pelo grande filósofo Maurice Blondel, em sua obra Dialética da Ação: 
	\u201cA vida, portanto, desenvolve-se em contraste jamais aplacado entre o poder da vontade, que solicita sem descanso em direção a novas ações, e os resultados factuais desses esforços. As metas alcançadas são sempre inadequados: sempre existe desproporção entre o que somos e o que tendemos ser. A vontade querida coloca-se como objeto diante da vontade que quer e esta ressurge continuamente, já que, não sendo nós ainda aquilo que queremos, estamos em uma relação de dependência no que se refere ao nosso verdadeiro fim\u201d.
4. Desproporção em relação à resposta total
	Se a experiência desta desproporção, por um lado, provoca em Drummond uma tristeza por outro, deixa-o como que desconcertado diante da percepção da grandeza do seu desejo:
		Meu Deus, porque me abandonastes se sabias que eu não era Deus, 	se sabias que eu era fraco. / Mundo, mundo, vasto mundo, se 	eu me 	chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma 	solução. / Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu coração. 
	A mesma coisa é dita por Adélia Prado, poetiza mineira:
		\u201cPara o desejo do meu coração o oceano é comparado a uma gota\u201d.
5. despropORçÃO ESTRUTURAL
	O nosso desejo é infinito, buscamos uma resposta plena; qualquer coisa criada à qual nos apegamos não nos responde plenamente. Somos assim estruturalmente, isto é, é algo constitutivo do nosso ser. Uma belíssima poesia de Rilke descreve maravilhosamente essa desproporção estrutural: 
		Apaguem-se-me os olhos: eu Te vejo, /Torna-me surdo eu ouvirei 	a Tua 	voz, /Corta-me os pés: por Teu caminho corro. /Sem voz 	a ti elevarei 	as preces. / Quebrem-se-me os braços de meu 	coração; /Se o 	coração parar, será o meu cérebro; /Se também 	ele arder, então meu 	sangue /Te acolherá, Senhor, em cada 	gota.
5. Desproporção estrutural
	Dentro de um milhão de anos, a questão colocada por aquelas perguntas será talvez mais exasperada, mas não respondida.
	Talvez se para voar tivesse eu asas, / E fosse às nuvens, estrelas contar, / Ou qual trovão, de cume em cume errasse, / Seria mais feliz, doce rebanho, /Seria mais feliz, cândida lua ( G. Leopardi ) . 
	Cento e oitenta anos depois de Leopardi, o homem vaga, "qual trovão, de cume em cume" com seus aviões a jato, e "conta ás estrelas uma a uma" com seus satélites. 
	Mas podemos dizer que o homem tenha-se tornado, no entanto, ao menos um pouco mais feliz? Certamente não. Trata-se
Ronieri
Ronieri fez um comentário
arquivo interessante
0 aprovações
Carregar mais