Marcos Mendes - Falhas de Governo
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Marcos Mendes - Falhas de Governo

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Por que a intervenção do governo pode gerar prejuízos à sociedade?

Marcos Mendes1

Já foi postado neste site um texto, de minha autoria, com o título “Por que o

governo deve intervir na economia

?”, em que argumento que existem “falhas de
mercado”, como externalidades, assimetria de informações ou restrições à competição
que reduzem o nível de bem-estar da sociedade. Uma intervenção do governo para
solucionar essas “falhas de mercado”, se bem executada, pode elevar o nível de bem-
estar da população. No presente texto vou discutir o outro lado da moeda: as “falhas de
governo”, ou seja, os fatores que podem fazer com que as intervenções do governo
gerem distorções maiores que aquelas que ele se propõe a resolver. Assim, toda ação
governamental deveria ser precedida de uma análise prévia sobre as suas vantagens
(correção de falhas de mercado) e desvantagens (possíveis falhas de governo
decorrentes daquela ação).

Problemas de escolha coletiva
O processo de decisão governamental é feito de forma diferente do processo de

decisão individual. Se pretendo comprar um carro, faço uma análise dos custos dessa
compra e dos benefícios que ela vai me proporcionar. Ao fazer isso, uso minha escala
de valores individuais para avaliar os custos e benefícios (se dou muito ou pouco valor a
ter um carro bonito; ou se prefiro um carro mais barato que não seja tão bonito; avalio
quanto estou disposto a pagar por um câmbio automático ou um banco de couro; etc.).
As minhas preferências podem ser diferentes das preferências do meu vizinho, mas
nesse processo decisório apenas as minhas preferências são relevantes.

Nas decisões governamentais temos um processo de escolha coletiva, em que os
valores e preferências de todos os eleitores devem ser levados em consideração, o que
torna o processo decisório muito mais complicado. Além disso, não há uma votação
direta de todos os eleitores cada vez que uma decisão de governo tem que ser tomada.
As pessoas votam em representantes (deputados, governadores, etc.) que passarão a
representá-las nas decisões públicas. Esses representantes votam um orçamento, para
que o dinheiro público seja gasto.

O representante político, ao votar por este ou aquele gasto público, terá dois
problemas. Primeiro, ele não conhece inteiramente as preferências de seu eleitorado. No
máximo ele tem uma idéia de que, por exemplo, o seu eleitor está demandando mais
segurança pública e menos educação pública, ou que prefere menos impostos com
menos serviços do que a expansão dos serviços financiada por mais impostos. Segundo,
o seu eleitorado não é homogêneo, e ele terá que encontrar uma forma de atribuir pesos
às diversas preferências.

Mesmo que as pessoas sejam perguntadas, em pesquisa de opinião, sobre as suas
preferências por serviços públicos, elas não terão incentivo para revelar suas verdadeiras
preferências. Suponhamos que se faça uma pesquisa em que se pergunte a cada eleitor
que tipo de serviço público ele deseja, e que se avise a esse eleitor que ele terá que
pagar impostos proporcionalmente aos serviços que queira receber (quem escolher mais

1 Doutor em economia – USP. Consultor Legislativo do Senado. Editor do site www.brasil-economia-
governo.org.br

serviços públicos pagará mais impostos). Esse tipo de consulta incentivará os eleitores a
dar respostas que subestimem a sua real demanda por serviços públicos, para evitar
pagar por eles. Eu não vou dizer que gostaria de ter mais policiais nas ruas. Vou esperar
que outra pessoa dê essa resposta e arque com esse custo. Uma vez que haja mais
policiais nas ruas eu também vou me beneficiar disso sem precisar pagar a conta.

Por outro lado, se for feita a mesma pesquisa, avisando-se ao eleitor que,
independentemente da lista de serviços públicos que ele elencar como desejáveis em
resposta à pesquisa, ele pagará um imposto prefixado (não relacionado com a
quantidade de serviços públicos desejados), então ele terá incentivos a superestimar suas
verdadeiras demandas. Afinal, já que vai pagar a mesma coisa por 5 ou 10 policiais nas
ruas, o eleitor prefere ter 10 policiais.

Note que a resposta do eleitor depende da maneira como é feita a pergunta, isso,
em Economia, é estudado pela Teoria de Desenho de Mecanismos.

Mesmo que se considere possível em um sistema democrático conhecer as
preferências de cada eleitor, e que seja possível consultá-los a cada decisão, o processo
decisório pode ter um viés na direção da expansão do gasto público e da intervenção do
governo na economia.

Tal viés acontece porque na maioria das economias, e a economia brasileira não é
uma exceção, a distribuição de renda não é simétrica em torno da média. Há uma
concentração maior de pessoas abaixo da média, dado que umas poucas pessoas muito
ricas puxam a média para cima. Isso significa que a renda mediana2 será menor que a
renda média

Pagando menos impostos que o restante da sociedade, todos os eleitores com
renda igual ou inferior à mediana tenderão a preferir mais serviços públicos (pois são
subsidiados pelos demais eleitores), enquanto os eleitores com renda igual ou superior à
media tenderão a preferir menos serviços públicos (pois pagam proporcionalmente
mais impostos). Porém, como o primeiro grupo é mais numeroso, ele tende a ganhar as
eleições e o resultado será uma tendência à expansão do gasto público.

. Se a tributação for proporcional à renda, então o eleitor com renda igual à
mediana pagará menos impostos que o eleitor com renda igual à média.

Basicamente o que se tem é um grupo (eleitores de renda igual ou inferior à
mediana) pegando carona no gasto financiado pelos eleitores de renda mais alta. Esse
mesmo fenômeno pode ter manifestações distintas. Por exemplo, em um país
organizado sob a forma de federação, os governos estaduais terão incentivos a buscar
recursos federais (impostos pagos por contribuintes de todo o país) para investir em
projetos que beneficiem principalmente os moradores do estado. É o que ocorre, por
exemplo, com as famosas emendas parlamentares, em que os deputados e senadores de
um estado têm incentivos a colocar despesas em favor de seus estados no orçamento
federal. Afinal, os eleitores desses estados estariam recebendo benefícios sem ter de
pagar integralmente por eles.

Outra manifestação comum desse tipo de problema é a sobreposição de programas
públicos executados pelo governo federal, estadual e municipal. Digamos que os
políticos percebam que um determinado programa (por exemplo: distribuição de leite a
famílias de baixa renda) gera muitos votos. Então tanto o presidente da república,
quanto o governador e o prefeito desejarão obter esse ganho eleitoral para seus

2 Se ordenarmos a população da menor para a maior renda, a renda mediana será a daquele indivíduo que
se encontra exatamente na metade da lista.

respectivos partidos, e introduzirão programas semelhantes, gerando um excesso de
oferta daquele serviço público.

Sintetizando, o problema da escolha coletiva gera tendência ao aumento dos
gastos públicos e consequente aumento dos impostos. Daí a necessidade de regras e
instituições que ponham limites a essas pressões, como a Lei de Responsabilidade
Fiscal, limitações a emendas parlamentares e possibilidade de contingenciamento de
despesas.

Problema principal-agente e informação assimétrica
Os eleitores não têm como monitorar plenamente os políticos eleitos. E os

políticos eleitos não têm como monitorar os servidores que nomeiam para gerenciar as
políticas públicas. Por isso, servidores e políticos podem, no exercício da função, buscar
os seus objetivos individuais (ampliar poder político, enriquecer, trabalhar pouco, etc.)
em vez de buscar os objetivos da comunidade,