Marcos Mendes - Falhas de Governo
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Marcos Mendes - Falhas de Governo

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uma vez que não há informação
suficiente para que se conheça a real eficácia de sua gestão.

O problema do principal–agente surge em condições de informação assimétrica,
ou seja, quando os atores envolvidos não possuem a mesma quantidade ou qualidade de
informação. No caso, o “principal” contrata o “agente” numa situação em que pode
haver conflito de interesses, de forma que o “agente”, por deter informação privilegiada,
e terá incentivos para tirar proveito pessoal do negócio do “principal”. Por exemplo, um
eleitor (principal) não conhece todos os detalhes contratuais e de custos de uma compra
pública, o que abre espaço para um agente (gestor público) superfaturar a compra e
obter ganho privado.

Diversos fenômenos conhecidos surgem desse problema. Suponha uma empresa
pública que preste serviço de abastecimento de água. A intenção inicial do governo, ao
criar essa empresa, foi lidar com uma falha de mercado conhecida como “monopólio
natural”. Não é eficiente que várias empresas fornecedoras de água instalem
encanamentos pela cidade para distribuir água às residências. O custo seria muito alto. É
mais barato ter uma única rede de distribuição. Mas, nesse caso, a empresa operadora
será monopolista e poderá cobrar muito caro pela água. Uma solução possível é prestar
o serviço por meio de uma empresa estatal que, não tendo fins lucrativos e sendo
voltada para o bem coletivo, irá estabelecer um preço justo para a água.

Ocorre que os políticos e servidores nomeados para gerenciar a empresa (agentes)
podem resolver usar o poder de monopólio em proveito próprio. Aproveitando-se da
menor informação que os eleitores (principais) têm sobre custos e receitas da empresa,
os “agentes”, em vez de fixar um preço da água que apenas cubra os custos operacionais
e de investimento, fixarão preço mais elevado e usarão o excedente em seu favor (altos
salários, participações no lucro, baixo esforço para ser eficiente, contratação de pessoas
de seu grupo político, etc.).

 Outro exemplo interessante: uma conhecida falha de mercado (associada à falta
de informações relativas a garantias para empréstimos) faz com que alguns setores da
sociedade (como pequenos agricultores, micro e pequenos empresários) não tenham
acesso ao crédito oferecido pela rede bancária tradicional. Essa falha de mercado
justificou a criação de bancos estaduais no Brasil, voltados a ofertar crédito a tais
segmentos. Mas o resultado foi uma falha de governo. Os governadores e gestores dos
bancos estaduais (agentes) passaram a gerir tais bancos em desacordo com os objetivos
anunciados aos eleitores (principais): os bancos estaduais viraram, em sua maioria,

financiadores de campanhas eleitorais e de “empresários amigos”, deixando grandes
rombos financeiros que acabaram sendo pagos pelo governo federal. O resultado final,
em termos de bem-estar social, foi negativo.

Inexistem incentivos à eficiência.

Atribui-se ao economista Milton Friedman3

Porém, quando compro alguma coisa com o meu dinheiro, para o uso de outra
pessoa, me preocupo mais com o preço que pagarei do que com a qualidade. Nessa
situação, não serei o usuário do produto, logo minha preocupação recai mais sobre os
custos (que pagarei) do que sobre os benefícios (que recairão sobre outra pessoa). Pense
no seu processo de decisão ao escolher um presente para o seu amigo oculto na festa de
fim de ano no trabalho: você certamente sabe que seu colega gostaria mais de ganhar
um IPAD, mas acaba concluindo que ele ficará feliz com um CD ou um livro.

 um interessante raciocínio sobre o
incentivo a analisar custo e qualidade dos produtos ao se decidir por uma compra.
Quando eu compro um produto com o meu dinheiro para o meu uso, eu me preocupo
em analisar tanto o preço quanto a qualidade do produto. Afinal, tanto os custos quanto
os benefícios do produto vão recair sobre mim.

Quando vou comprar alguma coisa para o meu uso, pagando com o dinheiro dos
outros, vou olhar mais para a qualidade e me preocupar menos com o preço. Pense em
um adolescente fazendo compras com o cartão de crédito do pai.

Na situação em que vou comprar alguma coisa para ser usada por outra pessoa,
pagando com um dinheiro que não é meu, não vou me preocupar nem com o preço que
pago, nem com a qualidade do produto. Essa é a situação de um funcionário público que
está adquirindo bens e serviços a serem usados pela população.

Ou seja, o incentivo do agente governamental para buscar o menor preço é baixo,
pois não é ele que está pagando diretamente pela compra. Também não vai fazer grande
esforço para buscar qualidade, se o serviço público é para atender a população em geral
e não ao servidor em particular.

Há, também, pouco incentivo à inovação no serviço público. Em geral, a inovação
é estimulada e bem remunerada no setor privado, pois ela é fonte de geradora de lucros.
Já no serviço público impera a regra da obediência ao regulamento e da
responsabilização individual em casos de fracasso. Nesse contexto, por que devo inovar,
se corro o risco de errar e ser responsabilizado? Prefiro cumprir os regulamentos e
esperar pelas promoções por tempo de serviço. O resultado é a aversão ao risco e o
apego a procedimentos burocráticos.

Associe-se a isso a estabilidade no emprego e estará completo o quadro de
desestímulo ao esforço. No caso brasileiro, do ponto de vista do servidor, a competição
ocorre antes (no concurso) e não durante o exercício profissional. As pessoas fazem
esforço colossal para serem aprovadas em concorridos certames de seleção para o
serviço público. Mas, uma vez aprovadas, não correndo risco de demissão por baixo
esforço, nem vislumbrando ganhos salariais decorrentes do esforço individual, reduzem
seu nível de dedicação ao trabalho.

Além disso, o setor público é monopolista na prestação de muitos serviços
(infraestrutura urbana, policiamento, controle de poluição, justiça, etc.), logo não há o
estímulo à eficiência gerada pela competição.

3 Não foi possível confirmar a autoria.

Alto custo de transação nas decisões públicas
Imaginemos que o parlamento está prestes a votar uma lei que autoriza um

aumento de 0,5% na tarifa de telefonia. Uma empresa telefônica que fature, digamos,
R$ 2 bilhões por ano, tem uma expectativa de ganho de R$ 10 milhões com a aprovação
da lei. Para ela será lucrativo gastar, digamos, R$ 1 milhão em pagamento a lobistas
para pressionar pela aprovação da lei. Além disso, como são poucas as empresas de
telefonia operando no país, será fácil, para elas, juntarem-se para financiar o lobby em
favor do projeto.

Olhemos, agora, o lado de um consumidor que gaste R$ 2 mil por ano em sua
conta de telefone. Para ele, o custo adicional da aprovação da lei será de R$ 10. Vale a
pena para ele fazer esforço e se mobilizar com vistas a economizar R$ 10? Quanto
tempo e dinheiro ele irá gastar para conclamar os milhares de usuários de telefone a se
organizarem para protestar em conjunto?

Ou seja, os lobbies em favor de interesses específicos, de grupos restritos, levam
vantagem nas decisões políticas, pois têm menor custo de transação e maior resultado
financeiro esperado nas decisões tomadas pelo governo; enquanto que, para a maioria
que paga a conta, não vale a pena o custo de se mobilizar para brecar a demanda do
lobby (o custo é dividido por todos e o benefício é concentrado).

Todos os grupos que conseguirem arcar com os custos de mobilização tendem a
levar vantagem no processo de decisão política em detrimento do contribuinte:
sindicatos de trabalhadores, movimentos de trabalhadores sem terra, federações
empresariais, clubes de futebol, etc.

Um custo de transação adicional está na inércia das regras e na dificuldade para se
alterar leis. A agenda do parlamento é congestionada e os projetos de lei