Naercio - Vale a pena Liberalizar a Economia
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Naercio - Vale a pena Liberalizar a Economia


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Vale a pena liberalizar a economia? 
Naércio Menezes Filho 
03/11/2006 
 
 
As reformas liberalizantes que ocorreram a partir da década de 80 em 
vários países em desenvolvimento, seguindo o que se convencionou 
chamar de Consenso de Washington, continuam sendo objeto de acirrado 
debate na arena econômica e política, tanto no Brasil como no resto do 
mundo. Há um consenso de que as reformas não produziram o 
crescimento econômico almejado nos países que as adotaram (sendo o 
Chile a exceção à regra), mas ainda não se sabe direito o que deu errado. 
Alguns afirmam que as reformas não foram feitas com a profundidade e 
amplitude necessária, enquanto outros afirmam que o crescimento 
depende de outros fatores, que nada têm a ver com as reformas liberais. 
Eu me alinho com o primeiro grupo e vou tentar explicar porque, usando 
o exemplo da liberalização comercial. 
 
Depois de décadas de um sistema altamente burocrático de proteção 
comercial, que visava o desenvolvimento da indústria nacional, o 
governo brasileiro começou, no final da década de 80, a remover as 
barreiras não tarifárias e diminuir drasticamente as tarifas de importação, 
que baixaram de 42% em média em 1988 para cerca de 13% em 1995. 
Depois de alguns anos e várias pesquisas a respeito deste processo, já 
temos uma boa idéia dos efeitos que a liberalização comercial produziu 
na economia brasileira. 
 
Segundo a teoria econômica, os efeitos da liberalização comercial 
deveriam ser claros. Em primeiro lugar, o preço dos produtos afetados 
pela redução das tarifas deveria diminuir, o que beneficiaria os 
consumidores. O Brasil deveria especializar-se na produção dos bens em 
que possui vantagens comparativas e, como estes bens usam mais mão-
de-obra não-qualificada, a demanda por trabalhadores com menos 
educação deveria crescer e a desigualdade de renda tenderia a diminuir. 
Os trabalhadores e empresários deveriam se deslocar dos setores aonde 
não temos vantagens comparativas para os setores em que as temos, 
incorrendo em um custo temporário de deslocamento. Além disto, as 
firmas ficariam mais expostas à concorrência internacional e, 
consequentemente, sua produtividade deveria aumentar, para poder 
enfrentar esta concorrência e seus preços mais baixos. 
 
 
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Para que as reformas produzam o crescimento econômico que todos 
esperamos, é necessário implementá-las como um todo e não 
individualmente 
 
Porém, algumas vezes a realidade não se comporta exatamente como a 
teoria econômica prevê. O que aconteceu no Brasil? Em primeiro lugar, 
os preços de fato se reduziram nos setores afetados pela redução de 
tarifas e a variedade de produtos importados aumentou, o que claramente 
beneficiou os consumidores. Além disto, aumentou também a 
participação dos setores mais competitivos na economia global, o que 
contribuiu para uma queda na desigualdade de renda. Mais ainda, a 
produtividade das firmas brasileiras também cresceu, o que deveria 
provocar um aumento do nosso PIB per capita. 
 
Mas, infelizmente, nem tudo foi um mar de rosas. Em primeiro lugar, o 
aumento da produtividade foi menor do que o esperado pela magnitude 
da abertura comercial, atingindo cerca de 8% no período entre 1988 e 
1998 como um todo. Além disto, este aumento de produtividade ocorreu 
mais pela eliminação das firmas menos eficientes da indústria e menos 
pelo aumento da produtividade dentro de cada firma. As firmas mais 
eficientes utilizam menos trabalhadores, ou seja, a produtividade 
aumentou porque a indústria continuou a produzir a mesma quantidade 
que produzia antes da abertura, só que utilizando menos trabalhadores. 
Mais importante que tudo isto, o aumento de produtividade setorial não 
se traduziu em taxas de crescimento maiores para a economia como um 
todo, pois o PIB per capita cresceu apenas 3,5% entre 1988 e 1998. 
 
Por que então a abertura comercial não teve um impacto maior na 
economia brasileira? Pesquisas recentes mostram que isto ocorreu 
principalmente pela falta de flexibilidade no mercado de trabalho 
brasileiro e pela baixa qualificação do nosso trabalhador. Para que a 
liberalização comercial produzisse todos os efeitos desejados, os 
trabalhadores teriam que se deslocar dos setores menos competitivos 
para os mais competitivos da economia brasileira, especialmente para as 
firmas que começaram a exportar. Entretanto, não foi isto o que ocorreu. 
Os trabalhadores atingidos pela liberalização comercial mudaram para o 
setor informal da economia (especialmente no setor de serviços), ficaram 
desempregados por longos períodos de tempo ou passaram a trabalhar 
por conta-própria, tornando-se menos produtivos para a sociedade como 
um todo. 
 
O que aconteceu de errado? Ocorre que, ao mesmo tempo em que as 
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tarifas eram reduzidas, a Constituição de 1988 (chamada de Constituição 
cidadã), diminuiu a jornada de trabalho máxima de 48 para 44 horas, 
aumentou o prêmio da hora-extra de 20% para 50% do salário, aumentou 
a licença maternidade de 3 para 4 meses, aumentou o valor das férias de 
1 para 4/3 do salário mensal e aumentou a multa da demissão sem justa 
causa de 10% para 40% do FGTS. Por mais que estas medidas tenham 
beneficiado o trabalhador, elas certamente aumentaram o seu custo para 
as empresas que poderiam contratá-lo. Além disto, grande parte do 
aumento de produtividade observado nas firmas brasileiras ocorreu 
devido à utilização de novas tecnologias, que se tornaram mais baratas 
graças às reduções tarifárias. 
 
Ponha-se agora no lugar de um empresário que está tendo sua parcela de 
mercado ameaçada pela concorrência internacional, que vê os custos das 
novas tecnologias declinando rapidamente, enquanto os custos do 
trabalho são elevados pela Constituição cidadã. O que você faria? 
Obviamente tentaria defender sua parcela de mercado através de um 
processo de redução de custos, com demissão de trabalhadores não 
qualificados e utilização de processos produtivos mais avançados. E foi 
exatamente isto que eles fizeram. Na medida em que todas as firmas 
caminham nesta direção, não resta alternativa para os trabalhadores 
menos qualificados senão o emprego informal no setor de serviços. Já os 
trabalhadores mais qualificados, que têm maior facilidade para lidar com 
as novas tecnologias, mas que são minoria no Brasil, são aproveitados 
nas firmas e nos setores que se expandem com o processo de 
liberalização. 
 
Qual a moral da história? Para que as reformas produzam o crescimento 
econômico que todos esperamos, é necessário implementá-las como um 
todo e não individualmente. Caso contrário, todo o esforço político 
necessário para produzir cada uma delas não se traduzirá em um 
crescimento econômico sustentado. Precisamos urgentemente de 
reformas na legislação trabalhista e de políticas educacionais que 
aumentem a qualidade da educação dos trabalhadores brasileiros, senão 
ficaremos cada vez mais atrasados com relação ao resto do mundo. 
 
Naércio Menezes Filho é professor de economia do IBMEC-SP e da FEA-USP e diretor de 
pesquisas do Instituto Futuro Brasil, escreve mensalmente às sextas-feiras. 
 
 
 
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