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ali que a estrada
mudava de donos. A noite podíamos ver as luzes de nossos caminhões
de abastecimento, que vinham de Alcubierre e, si multaneamente, os dos
fascistas, vindos de Saragoça. Dava para ver a própria cidade, uma linha
estreita de luzes, parecendo-se aos portalós de navio, a uns vinte
quilômetros para o sudoeste. As tropas do Governo olhavam-na àquela
distância desde agosto de 1936, e continuam a fazê-lo hoje.
Havia cerca de trinta homens em nossa posição, inclusive um espanhol
(Ramón, cunhado de Williams), bem como uma dúzia de metralhadores
espanhóis. Com exceção de uma ou duas pragas - pois é sabido que a
guerra atrai a gentalha - os ingleses formavam uma turma
excepcionalmente boa, tanto física quanto mentalmente. Talvez o melhor
de toda essa turma fosse Bob Smillie - o neto do famoso dirigente dos
mineiros - que mais tarde iria ter morte tão ruim e sem sentido em
Valência. Muita coisa fica revelada a respeito do caráter espanhol, no
fato de que ingleses e espanhóis sempre se davam bem juntos, a
despeito das dificuldades causadas pela diferença de idiomas. Todos os
espanhóis, conforme descobrimos, conheciam duas expressões em
inglês, Uma era "O.K., baby", e a outra uma palavra utilizada pelas
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meretrizes de Barcelona em seus entendimentos com os marinheiros
britânicos, e receio que os revisores não a deixassem imprimir aqui.
Também ali nada acontecia em toda a linha de frente. Tínhamos apenas
o estampido irregular dos disparos e, muito raramente, o estrondo de um
morteiro fascista que mandava todos correndo para a trincheira de cima
para ver em que morro os petardos estavam explodindo. O inimigo
achava-se um tanto mais próximo de nós naquela parte, a uns 300 ou
400 metros. Sua posição mais adiantada ficava exatamente em frente à
nossa, com um ninho de metralhadora cujas seteiras constituíam uma
tentação constante a que desperdiçássemos as balas. Raramente os
fascistas se davam ao trabalho de disparar fuzis, mas mandavam de lá
rajadas bem precisas sobre qualquer um que se expusesse. Ainda
assim, passaram-se dez dias ou mais ate que tivéssemos nossa primeira
baixa. Os soldados inimigos à nossa frente eram espanhóis. mas pelas
informações prestadas por alguns desertores havia alguns graduados
alemães em seu meio. Em alguma época anterior havia mouros ali -
pobres coitados, como devem ter sofrido com o frio! - pois lá na terra de
ninguém encontrava-se um mouro morto, que constituía uma das coisas
a serem vistas na localidade - A dois ou três quilômetros para a
esquerda, a linha deixava de ser continua e existia uma faixa de campo,
mais baixa e densamente coberta de vegetação, que não pertencia aos
fascistas nem a nós. Tanto nós quanto eles costumávamos fazer
patrulhas por lá, durante o dia. Não deixava de ter sua graça. à escoteira,
embora eu jamais visse uma patrulha fascista a distância menor do que
diversas centenas de metros. Mediante muito rastejamento podia-se
passar em parte pelas linhas fascistas e até mesmo ver a casa de
fazenda onde estava içada a bandeira monarquista, e que servia de
quartel-general local dos inimigos. De vez em quando sapecávamos-lhe
uma saraivada de fuzis e tratávamos de procurar abrigo antes que as
metralhadoras nos localizassem. Espero que tenhamos arrebentado
algumas janelas, mas o edifício ficava a uns oitocentos metros de
distância, e com nossas armas não podíamos ter certeza sequer de
acertar uma casa tão longe.
Na maior parte os dias eram claros e frios, às vezes ensolarados por
volta das doze horas, mas sempre frios. Aqui e ali, no terreno das
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encostas, achávamos as pontas verdes de açafrão ou íris a se estender.
Era evidente a aproximação da primavera, mas em marcha bem lenta.
As noites mostravam-se mais frias do que nunca, e ao sair da guarda, de
madrugada, costumávamos juntar o que restara do fogo na cozinha a
ficar de pé nas brasas quentes. Isso não podia ser pior para as botinas,
mas era ótimo para os pés. Havia manhãs, todavia, em que a visão da
alvorada entre os picos de montanhas chegava quase a compensar o
fato de estar fora da cama naquelas horas doidas. Eu detesto
montanhas, mesmo quando situadas em ponto de vista espetacular, mas
às vezes a aurora raiando atrás dos picos à nossa retaguarda, as
primeiras faixas estreitas de luz dourada, como espadas a cortar a treva,
e depois disso a luz brilhante e os oceanos de nuvens carmesins a
estender-se por distâncias inconcebíveis, valiam a pena observar,
mesmo quando se estivera de pé a noite inteira, quando as pernas
adormeciam do joelho para baixo e éramos assaltados pelo pensamento
sombrio de que não se comeria coisa alguma senão dali a três horas. Vi
o raiar da aurora mais vezes, naquela campanha, do que durante todo o
resto de minha vida - ou durante a parte que, espero, ainda virá.
Nosso efetivo era reduzido ali, o que representava guardas mais longas
e faxinas maiores. Eu começava a sofrer um pouco a falta de sono
inevitável até mesmo no tipo de guerra mais calma. Além da guarda e
patrulha, surgiam alarmes e prontidões constantes à noite, e de qualquer
forma ninguém consegue dormir direito num buraco infernal, cavado no
chão, os pés doendo de tanto frio - Em meus três ou quatro primeiros
meses na linha de frente acredito que não tenha tido mais de doze
períodos de vinte e quatro horas inteiramente sem dormir. Por outro lado,
é certo que não tive noites de sono completo. Dormir vinte ou trinta horas
numa semana era coisa de todo normal. Os efeitos disso não são tão
ruins quanto seria de esperar, pois ficava-se estúpido à beça e a tarefa
de subir e descer os morros tornava-se mais difícil ao invés de mais fácil,
mas eu me sentia bem e estava quase constantemente com fome - céus,
que fome! Toda a comida parecia-me boa, até mesmo o eterno feijão que
todos, na Espanha, acabavam finalmente aprendendo a odiar. Nossa
água vinha de quilômetros além, nas costas de mulas ou de pobres e
perseguidos burros. Por algum motivo que me escapa, os camponeses
de Aragón tratavam suas mulas bem, mas quanto aos burros,
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dispensavam-lhes um tratamento abominável. Se um burro empacasse,
era comuníssimo que o tropeiro lhe desferisse bom pontapé nos
testículos. Cessara a distribuição de velas, e os fósforos começavam a
escassear. Os espanhóis nos ensinaram como fazer lamparinas de
azeite com uma lata de leite condensado, um pente de balas (vazio) e
um pouco de trapos. Quando havia azeite, o que nem sempre ocorria,
aquelas coisas queimavam com uma chamazinha fraca e fumacenta,
produzindo luz de um quarto de vela, apenas o suficiente para
encontrar-se o fuzil na escuridão.
Não parecia haver esperança alguma de qualquer luta verdadeira.
Quando deixamos Monte Pocero, eu contara meus cartuchos e
descobrira que em perto de três semanas disparara apenas três tiros
contra o inimigo Dizem que são precisas mil balas para matar um
homem, e naquela batida seriam precisos vinte anos até eu poder matar
meu primeiro fascista. Em Monte Oscuro as linhas estavam mais
próximas e fazia-se número maior de disparos, mas tenho razoável
certeza de que não acertei pessoa alguma. A bem da verdade, naquela
linha de frente e nesse período da guerra a arma verdadeira não era o
fuzil, mas o megafone. Não se podendo matar o inimigo, gritava-se para
ele tudo quanto era desaforo e provocação. Tal método de guerra é coisa
tão extraordinária, que merece explicação.
Sempre que as linhas se encontravam em distância que a voz humana
alcançasse, travava-se intenso intercâmbio de uma trincheira para a
outra De nós partiam os gritos:
- Fascistas - maricones!
E, vindo deles:
- Viva España! Viva Franco!
Ou então, quando sabiam que havia ingleses no nosso lado, gritavam em
espanhol:
- Voltem pra casa, seus ingleses! Não queremos estrangeiros