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aqui!
No lado do Governo, as milícias partidárias, o grito de frases de
Lutando na Espanha
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propaganda destinadas a solapar o moral do inimigo já se transformara
em técnica regular. Em toda posição que se prestasse a isso havia
homens, em especial os metralhadores que eram dispensados para o
trabalho de gritar, e que recebiam megafones para isso. Via de regra
eles berravam uma frase feita, cheia de sentimentos revolucionários que
visavam fazer os soldados fascistas compreenderem que não passavam
de cachorrinhos do capitalismo internacional, que estavam lutando contra
sua própria classe, etc. etc. e instavam para que se bandeassem para
nosso lado. Isso era repetido continuamente por turmas que se
revezavam na tarefa, e às vezes adentrava-se pela noite afora. Não há
dúvida de que o trabalho apresentava efeitos, e todos concordavam em
que o gotejamento de desertores fascistas devia-se a isso, em parte.
Pensando bem no assunto dá para ver que quando um pobre coitado
designado como sentinela - e muito provavelmente membro de sindicato
socialista ou anarquista, apanhado pelo recrutamento contra sua vontade
- está enregelado em seu posto, o refrão "Não lute contra sua própria
classe!" a ecoar repetidamente na escuridão acaba por causar certa
impressão. Podia até representar exatamente a diferença entre desertar
e não desertar. Está claro que tal método não se ajusta à concepção
britânica de como fazer a guerra e reconheço ter ficado espantado e
escandalizado quando, pela primeira vez, vi fazerem isso. Que idéia
estapafúrdia, essa de querer converter o inimigo, ao invés de abrir fogo
sobre ele! Já agora acredito que, de qualquer ponto de vista pelo qual se
encare a questão, era um recurso legítimo. Na guerra comum de
trincheira, quando não existe artilharia, mostra-se extremamente difícil
infligir baixas ao inimigo sem que se receba número idêntico das
mesmas. Se for possível imobilizar certo número de homens no lado
oposto, fazendo com que desertem, tanto melhor, e os desertores têm
mais valor do que cadáveres, pois prestam informações. Mas
inicialmente tal sistema nos desalentou, levando-nos a crer que os
espanhóis não estavam encarando aquela guerra muito a sério. O
homem que se encarregava da gritaria destinada ao inimigo, no posto do
P. S. U . C. lá embaixo à nossa direita, era um verdadeiro artista no
assunto. As vezes, ao invés de gritar refrões revolucionários, ele
simplesmente contava aos fascistas que estávamos muito mais bem
alimentados do que eles. Sua descrição das rações que recebíamos do
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Governo tendia, na verdade, a mostrar-se um tanto imaginativa.
- Torrada com manteiga! - dava para ouvir no eco que reverberava pelo
vale afora. - Estamos aqui sentados e comendo torradas com manteiga!
Pedacinhos lindos de torrada com bastante manteiga!
Não duvido que, como nós, ele não visse manteiga já desde semanas ou
meses atrás, mas naquelas noites geladas as noticias de torradas
imersas em manteiga provavelmente puseram muitas bocas fascistas
cheias de água. Até a minha ficava, embora eu soubesse que ele mentia
descaradamente.
Certo dia, em fevereiro, vimos um aeroplano fascista a aproximar-se.
Como de costume, a metralhadora foi levada para o descoberto e seu
cano virado para cima, enquanto todos se deitavam de costas para fazer
boa mira. Nossas posições isoladas não valiam o lançamento de uma
bomba, e via de regra os poucos aviões fascistas que passavam por ali
faziam círculos para evitar o fogo das metralhadoras. Mas daquela feita o
aeroplano veio diretamente para nós, alto demais para que se pudesse
abrir fogo, e dele vieram caindo não bombas, mas coisas brancas e
brilhantes que revoluteavam no ar. Algumas chegaram até nossa
posição. Eram exemplares de um jornal fascista, o Heraldo de Aragân
anunciando a queda de Málaga.
Aquela noite os fascistas na posição em frente desferiram um tipo de
ataque abortivo. Eu acabava de alojar-me para dormir, meio morto de
sono, quando estrugiu uma torrente forte de balas por cima e alguém
gritou no abrigo:
- Estão atacando!
Passei a mão no fuzil e deslizei até meu posto, na parte de cima da
posição e ao lado da metralhadora. Reinavam uma escuridão completa e
barulheira infernal. O fogo de umas cinco metralhadoras caía sobre nós,
e houve uma série de estrondos fortes causados pelo arremesso de
bombas fascistas por sobre seu próprio parapeito, em manobra das mais
idiotas. A treva da noite parecia impenetrável e lá embaixo no vale, à
nossa esquerda, pude ver o brilho esverdeado de fuzis onde um
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pequeno número de fascistas, provavelmente em patrulha, metia-se no
brinquedo. As balas voavam em torno de nós no escuro, com seus
ruídos característicos. Algumas granadas passaram pelo alto
assoviando, mas não caíram perto de nós e (como era comum nessa
guerra) a maioria deixou de explodir. Tive um instante de aperto quando
outra metralhadora abriu fogo do alto do morro atrás da gente - na
verdade fora arma trazida ali para nos dar apoio, mas no momento
pareceu estarmos cercados. Logo em seguida a nossa própria
metralhadora engasgava, como sempre acontecia por utilizar aqueles
cartuchos do diabo, e a vareta de desentupi-la foi perdida na escuridão
impenetrável. Parecia que nada mais nos restava, senão ficar quietos e
servir de alvos. Os metralhadores espanhóis, em sinal de desdém, não
procuraram abrigo e, na verdade, expuseram-se deliberadamente, de
modo que tive de fazer o mesmo. Por insignificante que fosse, todo
aquele acontecimento mostrou-se interessantíssimo. Era a primeira em
que eu estivera, a rigor, sob fogo inimigo e, para minha humilhação,
verifiquei estar apavorado. Sempre se sente o mesmo, pelo que
observei, quando sob fogo pesado. O medo não é tanto a ser atingido
quanto se deve a não sabermos onde vamos sé-lo. Fica-se ali
imaginando todo o tempo, pensando em que ponto exato a bala vai nos
pegar, e isso confere a todas as partes do corpo uma sensibilidade das
mais desagradáveis.
Depois de uma ou duas horas os disparos diminuiram e cessaram, e por
todo esse tempo tivemos uma única baixa. Os fascistas avançaram com
duas metralhadoras até à terra de ninguém, mas guardando uma boa
distância e sem fazerem qualquer tentativa no sentido de chegar ao
nosso parapeito. Na verdade não estavam atacando, e apenas gastavam
cartuchos e faziam uma barulheira dos diabos a fim de comemorar a
tomada de Málaga. A importância principal do caso foi que isso
ensinou-me a ler as noticias da guerra nos jornais com espírito mais
precavido e incrédulo, pois um Ou dois dias mais tarde os jornais e o
rádio divulgavam relatórios de um ataque tremendo que fora desferido
com cavalaria e tanques (como se pudessem escalar uma encosta
perpendicular!) e que os heróicos ingleses repeliram.
Quando os fascistas nos disseram que Málaga caíra em suas mãos,
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achamos ser mentira deles, mas no dia seguinte surgiam boatos mais
convincentes e deve ter passado um dia, ou dois, para o acontecimento
ser oficialmente reconhecido. Gradualmente toda a história deplorável foi
surgindo - como a cidade fora evacuada sem se disparar um tiro, e como
a fúria dos italianos recaíra não sobre as tropas, que partiram dali, mas
sobre a pobre população civil, partes da qual foram perseguidas e
metralhadas por grande distância. As notícias causaram um calafrio na
espinha, em todos nós, pois qualquer que tenha sido a verdade, todos os
homens na milícia acreditavam que a queda de Málaga devia-se a
traição. Era a primeira vez que eu ouvia falar em traição ou metas
divergentes, e isso veio a formar em meu espírito as primeiras dúvidas
vagas a respeito daquela guerra que, até então, apresentara as coisas
certas e as erradas com