naespanha
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U. M. podiam ser suprimidos ou multados se
dissessem alguma coisa considerada daninha. Também é fazer justiça
ao P. O. U. M. o afirmar que embora eles pudessem fazer sermões sem
fim a respeito da revolução e citar Lênin ad nauseam, via de regra não se
empenhavam em calúnias pessoais. Restringiam suas polêmicas, além
disso, aos artigos em jornal. Seus grandes cartazes coloridos, destinados
a um público mais amplo (os cartazes são importantes na Espanha, com
sua grande população analfabeta), não atacavam os partidos rivais, mas
eram simplesmente antifascistas ou abstratamente revolucionários, bem
como as canções entoadas pelos milicianos. Os ataques desferidos
pelos comunistas eram coisa muito diferente, e falarei deles noutra parte
deste livro. Neste ponto posso apresentar apenas uma indicação
resumida de sua linha de ataque.
Lutando na Espanha
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Analisando-se superficialmente, a briga entre comunistas e o P.O.U.M.
era de tática. O P.O.U.M. favorecia a revolução imediata, e os
comunistas não. Até aí, tudo bem, e havia muito a ser dito por ambos os
lados. Além disso, os comunistas afirmavam que a propaganda feita pelo
P.O.U.M. dividia e enfraquecia as forças do Governo e, assim, punham a
guerra em risco; e também nesse aspecto, embora mais tarde cu não
concordasse, podia-se aceitar tais afirmações. Mas aqui entrava em
cena a peculiaridade da tática comunista. Experimentalmente de início, e
depois em tom mais alto, eles começaram a afirmar que o P.O.U.M.
dividia as forças do Governo não por erro involuntário, mas por intuito
deliberado. Afirmava-se que o P.O.U.M. não passava de uma quadrilha
de fascistas disfarçados, pagos por Franco e Hitier, que instavam por
uma política pseudo-revolucionâría como recurso para ajudar a causa
fascista. O P.O.U.M. era uma organização "trotskísta" e a "Quinta Coluna
de Franco". Isso queria dizer que muitos milhares de membros da classe
trabalhadora, inclusive oito ou dez mil soldados que se enregelavam nas
trincheiras da linha de frente, bem como centenas de estrangeiros que
vinham à Espanha para lutar contra o fascismo, muitas vezes
sacrificando seus empregos e nacionalidade para isso, eram
simplesmente traidores pagos pelo inimigo. E essa história foi divulgada
por toda a Espanha mediante cartazes, etc. e repetida sem cessar pela
imprensa comunista e pró-comunista de todo o mundo. Eu poderia
encher meia dúzia de livros com citações, se quisesse fazê-lo.
Estavam, portanto dizendo o seguinte contra nós: que éramos trotskistas,
fascistas, traidores, assassinos, covardes, espiões e assim por diante.
Reconheço não ser agradável receber tais nomes, ainda mais quando se
pensa em algumas das pessoas responsáveis pelos mesmos - Não é
coisa agradável ver um rapazinho espanhol, de quinze anos, sendo
carregado da linha de frente em maca, com o rosto pálido espiando por
cima dos cobertores, e pensar nas pessoas elegantes que, em Londres e
Paris, escrevem panfletos destinados a provar que ele não passa de um
fascista disfarçado. Um dos traços mais horríveis da guerra é que toda a
propaganda guerreira, todos os gritos e mentiras e ódio, vêm
invariavelmente de pessoas que não estão lutando. Os milicianos do
P.S.U.C. a quem conheci na linha de frente, os comunistas da Brigada
Internacional que encontrei de vez em quando, jamais me chamaram de
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trotskista ou traidor; deixavam essa tarefa para os jornalistas na
retaguarda. As pessoas que escreviam panfletos contra nós e nos
vilipendiavam nos jornais ficavam, todas elas, bem seguras em suas
casas, ou quando muito nas redações de Valência, a centenas de
quilômetros das balas e da lama. E à parte das calúnias da luta
inter-partidária, todo o aparato comum de guerra, a fanfarra, o heroísmo,
o vilipêndio ao inimigo - tudo isso era feito, como de costume, por
pessoas que não estavam lutando e que, em muitos casos, prefeririam
correr cem milhas numa fuga disparada a lutar. Um dos mais tristes
efeitos desta guerra foi ensinar-me que a imprensa esquerdista é tão
falsa e desonesta quanto a da direita.8 Tenho a impressão sincera de
que em nosso lado - o lado do Governo - essa guerra foi diferente das
guerras comuns, imperialistas, a julgar pela natureza da propaganda,
entretanto, jamais se poderia adivinhá-lo. Mal começara a luta e já os
jornais, tanto da direita quanto da esquerda, mergulhavam ao mesmo
tempo na mesma sentina de despudor. Todos recordamos o cartaz
divulgado pelo Daily Mail, intitulado "vERMELHOS CRUCIBICAM IRMÃS
DE CARIDADE", enquanto que, para o Daily Worker, a Legião
Estrangeira de Franco era composta de "assassinos, prostituidores.
toxicômanos e o rebotalho de todos os países europeus". Até mesmo em
outubro de 1937 o New Statesman nos brindava com narrativas de
barricadas fascistas formadas com os corpos de crianças vivas (material
dos mais imprestáveis para uma barricada, posso assegurar), e o Sr.
Arthur Bryant declarava que serrar as pernas a um comerciante
conservador" constituía "coisa comum" na Espanha legalista. As pessoas
que escrevem coisas assim são gente que nunca lutou, e possivelmente
acreditam que escrever é coisa capaz de substituir o lutar. É o mesmo
em todas as guerras - os soldados lutam, os Jornalistas gritam e nenhum
patriota verdadeiro chega perto de uma trincheira da frente, a não ser
nos mais curtos passeios para fins propagandísticos.
Há ocasiões em que se torna reconfortante, para mim, pensar como o
aeroplano está modificando as condições da guerra. Talvez na próxima
grande guerra possamos ver alguma coisa sem precedentes em toda a
história: um patrioteiro furado à bala.
No que dizia respeito à parte jornalística, essa guerra era apenas um
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negócio a explorar, como outro qualquer. Mas havia uma diferença: a de
que enquanto os jornalistas, via de regra, reservavam suas invectivas
mais mortíferas para o inimigo, neste caso e ao correr do tempo os
comunistas e o P .O . U . M. passaram a escrever com mais azedume,
um sobre o outro, do que sobre os fascistas. Ainda assim, não consegui
levar isso muito a sério naquela ocasião. A disputa interpartidária
mostrava-se incômoda e até repugnante, mas parecia uma querela
doméstica. Eu não acreditava que viesse a alterar coisa alguma, ou que
realmente existisse qualquer divergência política irreconciliável.
Compreendia que comunistas e liberais empenhavam tudo para evitarem
que a revolução seguisse sua marcha, mas não compreendia que eles a
pudessem fazer recuar.
Havia bons motivos para isso. Por todo aquele tempo eu me achava na
frente, e ali a atmosfera social e política não se alterara. Eu deixara
Barcelona no inicio de janeiro e não tive qualquer licença senão em final
de abril, e por todo esse tempo - e até período posterior - na faixa de
Aragón controlada pelas tropas anarquistas e do P .0. U . M. persistiram
as mesmas condições, pelo menos exteriormente. Continuava a
atmosfera revolucionária como eu a vira pela primeira vez. Generais e
soldados, camponeses e milicianos prosseguiam dando-se como iguais,
todos recebiam a mesma paga. usavam as mesmas roupas, comiam a
mesma comida e chamavam aos demais "tu" e "camarada". Não havia
classe patronal, classe braçal, mendigos, prostitutas. advogados,
sacerdotes, nem sabujice ou continências e zumbaias. Eu respirava o ar
da igualdade. e em minha simplicidade imaginava que fosse o mesmo
por toda a Espanha. Não compreendia que por uma questão de
casualidade, mais ou menos, estava isolado em meio à parte mais
revolucionária da classe trabalhadora espanhola.
Assim foi que quando meus camaradas com melhor educação política
me disseram que não se podia adotar uma atitude puramente militar para
com a guerra, e que a escolha era entre a revolução e o fascismo. eu ria
deles. No todo, eu aceitava o ponto de vista comunista, que se reduzia