naespanha
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no
chão, trabalho dos mais fatigantes. Se os metralhadores fascistas nos
vissem era preciso estender-se, como um rato para passar debaixo de
uma porta, enquanto as balas picotavam o chão a poucos metros de
distância. A coisa parecia valer a pena, naquela época. As batatas
estavam ficando raras, e quem arranjasse um saco cheio delas podia
levá-lo à cozinha e trocá-lo por uma garrafa de café.
Ainda assim nada acontecia, e parecia que jamais ia acontecer. "Quando
vamos atacar? Por que não atacamos?" eram as perguntas que
ouvíamos dia e noite, feitas tanto pelos espanhóis quanto pelos ingleses.
Quando se pensa no que a luta representa, parece estranho que os
soldados queiram lutar, mas não há dúvida de que o desejam. Na guerra
estacionária existem três coisas pelas quais todos os soldados anseiam:
uma batalha, mais cigarros e uma semana de folga. Estávamos agora
um pouco mais bem armados do que antes. Cada homem tinha em seu
poder um fuzil e cento e cinqüenta balas, ao invés de cinqüenta, e pouco
a pouco recebíamos baionetas, capacetes de aço e algumas bombas.
Corriam boatos constantes de batalhas que íamos travar, mas passei a
crer que os mesmos eram deliberadamente espalhados a fim de manter
o ânimo do pessoal. Não era preciso grande conhecimento militar para
ver que não teríamos qualquer ação de maior envergadura naquele lado
de Huesca, pelo menos durante algum tempo. O ponto estratégico era a
estrada para Jaca, que ficava no outro lado. Mais tarde, quando os
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anarquistas desferiram seus ataques àquela estrada, nossa incumbência
foi a de desferir "ataques de sustentação", forçando assim os fascistas a
trazer tropas do outro lado.
Durante seis semanas houve apenas uma ação militar em nossa parte
da frente. Isso ocorreu quando nossos Soldados de Assalto atacaram o
Manicômio, um asilo de doidos que não mais era usado para esse fim e
que os fascistas converteram em fortaleza. Havia diversas centenas de
refugiados alemães servindo no P .O. U. M., e estavam organizados num
batalhão especial chamado o Batallón de Choque, e de um ponto de
vista militar eles se achavam em nível bem diferente da milícia - na
verdade, pareciam-me mais a soldados do que quaisquer outros
elementos que eu tenha visto na Espanha, com exceção dos Guardas de
Assalto e alguns elementos da Coluna Internacional. O ataque foi um
fracasso, como de costume. É de imaginar quantas operações nessa
guerra, no lado do Governo, foram tornadas um fracasso. Os Guardas de
Assalto invadiram e tomaram o Manicômio, mas os soldados, não me
lembro de qual milícia, que deviam dar-lhes apoio apoderando-se do
morro vizinho que dominava o Manicômio, foram deixados muito mal. O
capitão que os comandava era um daqueles oficiais do Exército Regular,
gente de fidelidade duvidosa, que o Governo teimava em empregar. Seja
por medo, ou por traição, foi ele quem preveniu os fascistas, atirando
uma bomba quando seus homens estavam a duzentos metros de
distância. Tenho o grato prazer de registrar que seus homens o mataram
ali mesmo. Mas o ataque de surpresa não contou com surpresa alguma,
e os milicianos foram moídos por fogo intenso e expulsos do morro, e à
noite os Guardas de Assalto eram forçados a deixar o local. Por toda
aquela noite as ambulâncias desfilaram na estrada horrível para
Sietamo, acabando de matar os mais feridos com seus solavancos.
Estávamos todos infestados de piolhos e, embora persistisse o frio, havia
calor suficiente para isso. Eu já tive grande experiência com parasitas
corporais de diversos tipos, mas quanto à sua lídima bestialidade o
piolho suplanta todos os demais. Outros insetos, mosquitos, por
exemplo, fazem a gente sofrer mais, mas ao menos não são residentes
em nosso corpo. O piolho humano parece-se um pouco a uma
lagostinha, e vive principalmente nas nossas calças. A menos que se
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queimem todas as roupas, não há modo conhecido de livrar-se dele.
Pelas costuras das calças o infame põe seus ovinhos brancos e
brilhantes, como minúsculos grãos de arroz, que chocam e procriam
famílias inteiras com velocidade horrenda. Acredito que os pacifistas
poderiam lucrar muito se ilustrassem seus panfletos com fotografias
ampliadas do piolho. Então, há glória na guerra. hem? Na guerra todos
os soldados são piolhentos, pelo menos quando faz calor suficiente. Os
homens que combateram em Verdun, Waterloo, Flodden, Senlac e nas
Termópilas - todos eles tinham piolhos arrastando-se por seus testículos.
Nós mantínhamos os calhordas mais para baixo, em certa medida,
queimando-lhes os ovos e tomando banho tantas vezes quantas possível
e, francamente, coisa nenhuma a não ser os piolhos poderia fazer-me
entrar naquela água gelada.
Tudo estava acabando - botinas, roupas, fumo, sabão, velas, fósforos,
azeite. Nossos uniformes desmanchavam-se em pedaços, e muitos dos
homens não tinham mais botinas, apenas sandálias com solas de corda.
Encontravam-se pilhas de botinas velhas e inúteis por toda a parte e
certa feita mantivemos aceso o fogo de um abrigo, por dois dias,
utilizando principalmente aqueles objetos, que não são mau combustível.
A essa altura minha mulher estava em Barcelona e costumava
mandar-me chá, chocolate e até charutos, quando conseguia
encontrá-los, mas até naquela cidade tudo escasseava, principalmente o
fumo. O chá constituía autêntica dádiva do céu, embora não tivéssemos
leite para misturar e raras vezes algum açúcar. Da Inglaterra eram
enviados constantemente pacotes para os combatentes, mas nunca
chegavam. Comida, roupas, cigarros, tudo era recusado pelo correio, ou
então confiscado na França. Por curioso que pareça, a única firma que
conseguia enviar pacotes de chá - e até mesmo uma lata de biscoitos,
em certa ocasião memorável - era a Army and Navy Stores (Intendência
do Exército e Marinha). Pobre e velho Exército, pobre e velha Marinha!
Cumpriam nobremente o dever fazendo essas remessas, mas talvez se
sentissem melhor se elas fossem para o lado franquista das barricadas.
A escassez de fumo era o pior de tudo. De início recebíamos um maço
de cigarros por dia, depois isso fora reduzido a oito cigarros diários, e
depois a cinco. Finalmente tivemos dez dias pavorosos, nos quais não se
fez qualquer distribuição de fumo. Pela primeira vez eu via na Espanha o
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que pode ser visto a qualquer dia em Londres - gente apanhando
guimbas no chão.
No final de março fiquei com uma das mãos infeccionada e foi preciso
rasgá-la e usar tipóia. Fui para um hospital, mas não valia a pena
mandar-me até Sietamo por tão pouco, de modo que fiquei naquilo a que
chamavam hospital, em Monflorite, e que era apenas um posto de
triagem para as baixas. Fiquei ali dez dias, parte desse tempo em leito.
Os practicantes (auxiliares de hospital) roubaram praticamente todos os
objetos que eu possuía, inclusive minha máquina fotográfica e todas as
fotografias já tiradas. Na linha de frente todos roubavam, sendo isso o
efeito inevitável da escassez, mas no hospital encontravam-se os piores
ladrões. Mais tarde, no hospital em Barcelona, um norte-americano que
viera juntar-se à Coluna Internacional em navio que fora torpedeado por
submarino italiano, contou-me como fora levado para a costa ferido, e
como os padioleiros furtaram seu relógio de pulso, quando o carregavam
até à ambulância.
Enquanto meu braço esteve na tipóia passei alguns dias deliciosos,
percorrendo os arredores. Monflorite era o aglomerado comum de casas
feitas de barro e pedra, com becos estreitos e tortuosos que foram
batidos pelos caminhões até se transformarem em coisas semelhantes
às crateras da lua. A igreja fora bastante abalada, mas era utilizada
como depósito militar. Em toda a vizinhança havia apenas duas casas de
fazenda de dimensões maiores, Torre Lorenzo e Torre Fabián, e
somente duas construções