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realmente grandes, que com certeza eram as
residências dos latifundiários, senhores do campo. Podia-se ver sua
riqueza refletida nas choças miseráveis dos camponeses. Logo atrás do
rio, perto da linha de frente, havia um enorme moinho de farinha, com
uma casa de campo ao lado. Parecia uma vergonha ver aquela grande e
custosa máquina enferrujando na ociosidade e as pás de madeira da
roda arrancadas para queima como lenha. Mais tarde, para obter lenha
destinada às tropas mais distantes, eram enviadas turmas com
caminhões para destroçar sistematicamente todo aquele lugar. Era
costume levantar as tábuas do soalho nos aposentos jogando-se uma
granada de mão lá dentro. La Granja. que era nosso depósito e cozinha,
talvez fosse um convento em outra época. Tinha pátios e construções
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anexas bem grandes, cobrindo uns quatro mil metros quadrados ou
mais, com estábulos para trinta ou quarenta cavalos. As casas de campo
naquela parte da Espanha não apresentam qualquer interesse do ponto
de vista arquitetônico, mas suas casas de fazenda, feitas de pedras
caiadas com arcadas redondas e barrotes de telhado, são lugares
nobres, construídos de acordo com um plano que provavelmente não
sofre modificações há séculos. As vezes essas edificações insinuavam
certa simpatia pelos ex-donos fascistas, quando se via o modo pelo qual
a milícia tratava as mesmas. Em La Granja todos os aposentos que não
estivessem em uso encontravam-se transformados em latrina, num
amontoado tremendo de móveis quebrados e excrementos. A igrejinha a
seu lado, tendo as paredes perfuradas por granadas, apresentava em
todo o chão boa altura de fezes. No grande pátio onde os cozinheiros
distribuíam a comida. o lixo formado por latas enferrujadas, lama,
estrume e alimentos deteriorados era revoltante, e conferia força à antiga
canção militar, onde se diz:
Ha ratos, muitos ratos,
ratos tão grandes quanto gatos,
no depósito do intendente!
Os próprios ratos em La Granja eram tão grandes quanto gatos, ou
andavam perto disso, sendo bicharocos inchados que perambulavam
pelos montes de sujeira, descarados demais para correr, a não ser
quando se abria fogo contra eles.
Finalmente, chegara a primavera. O azul do céu mostrava-se mais
suave, o ar se tornara repentinamente perfumado. Os sapos
ocupavam-se afincadamente nas valas, tratando de procriar. Em redor
do tanque de água que servia de bebedouro às mulas da aldeia,
encontrei sapos verdes bastante estranhos, do tamanho de uma moeda
e tão brilhantes que a grama nova parecia desbotada a seu lado.
Meninos camponeses saiam com baldes caçando caramujos, que
assavam vivos em folhas de estanho. Assim que o tempo melhorava os
camponeses apareciam para a aradura de primavera. É bem típico da
vagueza completa com que a revolução agrária espanhola se acha
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envolta o fato de que não pude sequer descobrir com certeza se a terra
fora coletivizada ou se os camponeses haviam simplesmente dividido
toda ela entre si. Imagino que, em teoria, tenha sido coletivizada,
porquanto estávamo s em território do P.O.U. M. e dos anarquistas. Seja
lá como for, os latifundiários se tinham ido, os campos estavam sendo
cultivados e as pessoas pareciam satisfeitas. o ar amigo dos
camponeses para com a gente jamais deixou de me causar espanto. A
alguns dos mais idosos a guerra deve ter parecido sem sentido, pois
dava para ver como produzia uma escassez de tudo e uma vida
tetricamente vazia para todos, e na melhor de todas as épocas agrícolas
os lavradores detestam ter soldados alojados no lugar onde estão. No
entanto, eles se mostravam invariavelmente amistosos - talvez refletindo
que por mais intoleráveis que fôssemos de outros modos, éramos quem
se antepunha entre eles e seus ex-senhores. A guerra civil é uma coisa
bizarra. Huesca não se encontrava a oito quilômetros de distância, era o
mercado daquela gente, todos tinham parentes ali, em todas as semanas
de suas vidas eles tinham. ido até lá para vender suas aves e legumes, e
agora, por oito meses seguidos, fora erguida uma barreira impenetrável
de arame farpado e metralhadoras no caminho. De vez em quando isso
era esquecido por eles, e certa feita eu estivera conversando com uma
velha que carregava uma daquelas pequenas lâmpadas de ferro nas
quais os espanhóis queimam azeite.
- Onde posso comprar uma lâmpada igual a esta? - perguntei.
- Em Huesca - disse ela, sem pensar, e depois disso caímos ambos na
risada.
As moças da aldeia eram criaturas esplêndidas e bem vividas, com
cabelos negros, andar requebrante e uma atitude franca e direta, própria
de um homem para outro, talvez o subproduto da revolução.
Homens com blusas azuis esfarrapadas. culotes de belbute negro e
chapéus de palha de aba larga. aravam os campos com auxilio de
parelhas de mulas, que balançavam ritmicamente as orelhas compridas.
Seus arados eram instrumentos em mau estado, que apenas
arranhavam o chão e não cortavam como deviam. Todos os
instrumentos agrícolas eram coisas deploravelmente antiquadas. sendo
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tudo governado pelo valor do metal usado. Uma relha de arado, por
exemplo, mostrava-se emendada, e depois recebera nova emenda, a
ponto de se formar quase exclusivamente de remendos. Ancinhos e
terçados eram feitos de madeira. As pás, entre gente que raramente
tinha botinas para calçar, eram instrumentos desconhecidos, e aqueles
homens cavavam o chão com uma enxada primitiva, como as utilizadas
na Indica. Havia uma espécie de grade que devia datar da parte final da
Idade da Pedra, formada de tábuas reunidas, com o tamanho
aproximado de uma mesa de cozinha. Nessas tábuas havia centenas de
furos de encaixe, em cada qual se achava enfiado um pedaço de pedra
lascada, modelado exatamente como os homens o costumavam lascar
há milhares de anos. Lembro-me que senti quase horror ao encontrar um
engenho daqueles em tapera abandonada, na terra de ninguém. Foi
preciso dar tratos à bola por bastante tempo, até compreender que se
tratava de uma grade. Desgostou-me pensar no trabalhão que fora
preciso para construir uma coisa daquelas, e na pobreza que se via
obrigada a usar pedra lascada em lugar de aço. Depois disso passei a
abrigar sentimentos melhores para com o industrialismo. Mas existiam
naquela aldeia dois tratores modernos, certamente tomados de algum
latifúndio.
Uma ou duas vezes dirigi-me até ao pequeno cemitério amurado que
distava mais ou menos quilômetro e meio da aldeia. Os mortos da linha
de frente eram geralmente mandados para Sietamo, e ali repousavam,
apenas, os mortos da aldeia. Como era bizarramente diferente de um
cemitério inglês! Ali não se encontrava qualquer sinal de deferência para
com os mortos. Tudo estava tomado de arbustos e grama, vendo-se
ossos humanos espalhados por toda a parte. Mas o que realmente me
surpreendeu foi a falta quase completa de inscrições religiosas nas
lápides, embora todas datassem de antes da revolução. Apenas uma
vez, se não me engano, vi o "Orai pela alma de Fulano , que e comum
encontrar nas sepulturas católicas. A maioria das inscrições era
puramente secular, com poemas ridículos a respeito das virtudes do
falecido. Era uma sepultura, em cada quatro ou cinco, via-se uma
pequena cruz ou referência perfuntória ao Céu, que via de regra fora
arrancada por algum ateu, equipado com talhadeira e disposição.
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Pareceu-me que o povo naquela parte da Espanha deve ser gente
genuinamente destituída de sentimento religioso, isto é, no sentido
comum. É curioso que em todo o tempo pelo qual estive na Espanha
jamais tenha visto uma pessoa persignar-se, quando seria de pensar que
tal gesto se torna instintivo, com ou sem revolução. Está claro que a
Igreja espanhola voltará (como