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afirma o ditado, a noite e os jesuítas
sempre regressam), mas não resta dúvida de que ao inicio da revolução
ela entrou em colapso e foi destruída em tal medida que seria
inimaginável até mesmo para a Igreja da Inglaterra em circunstâncias
comparáveis. Para o povo espanhol, pelo menos na Catalunha e Aragón,
a Igreja não passava de exploração pura e simples, e talvez a crença
cristã tenha, em certa medida, sido substituída pelo anarquismo, cuja
influência está bastante disseminada e certamente apresenta uma
coloração religiosa.
Foi no dia em que voltei do hospital que adiantamos a linha de frente
para o que realmente era sua posição correta, uns mil metros à frente,
estendendo-se ao longo do pequeno curso de água a duzentos metros
diante das linhas fascistas. Essa operação deveria ter sido efetuada
meses antes, e a justificação para fazê-lo agora estava em que os
anarquistas atacavam a estrada para Jaca e o avançarmos nesse lado
obrigara os fascistas a desviar soldados para nos enfrentar.
Estávamos sem dormir por umas sessenta ou setenta horas, e minhas
recordações registram um véu azulado, ou melhor, uma série de quadros
diferentes. Ouvindo os ruídos feitos pelo inimigo, à espreita na terra de
ninguém, a cem metros da Casa Francesa, fazenda fortificada que fazia
parte da linha fascista. Sete horas deitado num pântano horrível, em
água fedorenta na qual o corpo ia afundando cada vez mais: o cheiro de
caniços, o frio entorpecedor, as estrelas imóveis no céu negro, o coaxar
estridente dos sapos... Embora estivéssemos em abril, foi a mais fria de
todas as noites que passei na Espanha. A somente cem metros atrás de
nós as turmas de trabalho agiam com afinco, mas reinava o maior
silêncio, a não ser pelo coro dos sapos. Apenas uma vez naquela noite
ouvi um ruído - o barulho familiar de um saco de areia que é achatado
com uma pá. É estranho como, somente de vez em quando, os
espanhóis conseguem um brilhante feito de organização. Toda a
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manobra à frente foi maravilhosamente planejada. Em sete horas
seiscentos homens construíram mil e duzentos metros de trincheira e
parapeito, em distâncias que variavam de cento e cinqüenta a trezentos
metros das linhas fascistas, e com tamanho silêncio que o inimigo nada
ouviu, havendo apenas uma baixa durante a noite. No dia seguinte
aumentava esse número, naturalmente, Cada homem tinha uma tarefa a
cumprir, até mesmo os auxiliares da cozinha, que chegaram de repente,
quando o trabalho estava feito, trazendo baldes cheios de vinho
temperado com brandy.
Depois disso veio o raiar da aurora e os fascistas descobriram que
estávamos lá. O quadrado branco da Casa Francesa, embora a duzentos
metros de distância, parecia mais alto do que nós, e as metralhadoras
que exibia nas janelas de cima, protegidas por sacos de areia, davam a
impressão de estar mirando diretamente para baixo, visando nossa
trincheira. Ficamos todos ali, a olhar aquilo, imaginando o motivo pelo
qual os fascistas não nos viam. Logo em seguida veio uma rajada
perigosa de balas, todos se puseram de joelhos e começaram a cavar
freneticamente, aprofundando a trincheira e fazendo pequenos abrigos
laterais. Meu braço ainda estava em ataduras, eu não podia cavar, e por
isso passei a maior parte do dia lendo uma novela policial, intitulada The
Missing Moneydender ("O agiota desaparecido"). Não me recordo do
enredo, mas sei muito bem qual era o meu sentimento quando lia, e
lembro-me também da argila umedecida no fundo da trincheira abaixo de
mim, a mudança constante de pernas para tirá-las da passagem de
homens que iam e vinham apressados, os estampidos de projéteis a um
ou dois palmos acima da cabeça. Thomas Parker levou uma bala na
parte superior da coxa e isso, em suas próprias palavras, ia muito além
do que podia desejar para merecer uma condecoração. As baixas
ocorriam por toda a linha, mas não se comparavam ao que ocorreria se
os fascistas nos apanhassem durante a noite, quando estávamos
avançando. Mais tarde um desertor viria contar que cinco sentinelas
fascistas tinham sido fuziladas por negligência. Até mesmo agora eles
poderiam nos massacrar, caso tivessem a iniciativa de trazer alguns
morteiros para a linha. Foi um trabalho difícil o de carregar feridos pela
trincheira apertada e cheia de gente. Vi um pobre-diabo, os culotes
vermelhos de sangue, a estirar-se na liteira, arquejando em agonia. Era
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preciso carregar os feridos por grande distância, até dois quilômetros,
pois mesmo onde havia estrada as ambulâncias não chegavam perto da
linha. Quando chegavam perto demais os fascistas costumavam disparar
os canhões sobre elas - o que era justificável, tendo em vista que
nenhum dos lados tinha qualquer escrúpulo em utilizar ambulâncias para
transportar munição.
E depois disso, na noite seguinte, veio a espera em Torre Fabián, onde
aguardamos ordem para desferir um ataque, o que foi cancelado ao
último instante pelo telégrafo sem fio. No paiol onde ficamos esperando,
o chão era uma capa fina de palha sobre camadas altas de ossos, tanto
humanos quanto de vacas, tudo em mistura, e infestado de ratos.
Aqueles animaizinhos sujos vinham em regimentos pelo chão, surgidos
de todos os lados. Se há alguma coisa que eu deteste mais do que outra,
é uni rato correndo por cima de mim na escuridão. Mas ainda assim tive
a satisfação de acertar num deles um soco que o mandou pelos ares.
Em seguida veio a espera, a cinqüenta ou sessenta metros do parapeito
fascista, aguardando-se a ordem de atacar. Uma fila comprida de
homens acocorados numa vala de irrigação, com as baionetas
aparecendo pela beira e o branco dos olhos reluzindo na escuridão. Lá
estavam Kopp e Benjamin acocorados atrás de nós, com um homem que
trazia a bolsínha de estafeta do telégrafo sem fio presa ao ombro. No
horizonte, para o ocidente, clarões róseos de canhões disparando e
acompanhados, com intervalos de alguns segundos, por explosões
enormes. E depois disso um ruído de batidas do sem-fio, e a ordem
sussurrada, de que devíamos sair dali enquanto podíamos. Fizemos
isso, mas não com suficiente rapidez. Doze pobres meninos da J.C.I. (a
Liga da Juventude do P.O.U.M., correspondendo à J.S.U. do P.S.U.C.),
que foram colocados a uns quarenta metros do parapeito fascista, foram
apanhados pela madrugada e não conseguiram fugir. Tiveram de ficar ali
o dia inteiro, tendo apenas punhados de grama para abrigar-se e os
fascistas disparando contra eles sempre que se mexiam. Ao anoitecer
sete estavam mortos, e os outros cinco conseguiram rastejar e afastar-se
na escuridão.
Depois disso, e por muitas manhãs seguintes, ouvíamos o som dos
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ataques anarquistas no outro lado de Huesca. Era sempre o mesmo
som. De repente, em alguma das primeiras horas do dia, vinha o
estrondo inicial de muitas bombas explodindo simultaneamente - e
mesmo à distância de quilômetros isso era um barulho diabólico e
impressionante - e em seguida o estrondo ininterrupto de fuzis e
metralhadoras disparando ao mesmo tempo, num som forte que se
parecia, de modo curioso, ao rufar de tambores. Por graus a fuzilaria
espalhava-se por todas as linhas que cercavam Huesca, e saiamos para
a trincheira a fim de nos recostarmos sonolentamente no parapeito,
enquanto um fogo irregular e sem sentido passava por cima.
Durante o dia os canhões faziam belo estrondo. Torre Fabián, que era
agora nossa cozinha, foi atingida por fogo de artilharia e destruída em
parte. É curioso que, quando estamos observando o fogo de artilharia em
distância a salvo do mesmo, sempre queremos que o artilheiro acerte o
alvo, mesmo que esse alvo contenha nosso jantar e o de alguns
companheiros. Os fascistas estavam disparando bem aquela manhã, e
talvez houvesse artilheiros alemães em ação. Examinaram bem a Torre
Fabián, pondo um