naespanha
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nenhum nas linhas fascistas.
Continuamos a marcha, cada vez mais devagar. Não consigo transmitir
Lutando na Espanha
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ao papel a profundidade e autenticidade de meu desejo de chegar até lá.
Que maravilhoso seria chegar a uma distância em que pudéssemos
lançar as bombas, antes que eles nos ouvissem! Numa ocasião assim a
gente nem sequer sente medo, apenas um desejo tremendamente
destituído de esperanças, de passar por aquele terreno intermediário. Eu
senti exatamente a mesma coisa quando espreitava um animal
selvagem, o mesmo desejo agoniante de chegar a distância suficiente, a
mesma certeza fantasmagórica de que isso era impossível. E como a
distância aumentara! Eu conhecia aquele terreno muito bem, sabia que
tinha menos de cento e cinqüenta metros, mas ainda assim pareceu
mais comprido que um quilômetro. Quando se está avançando naquele
passo, percebe-se como uma formiga as variações enormes no terreno;
a faixa esplêndida de grama aqui, aquela faixa lamacenta e pegajosa ali,
os caniços altos e barulhentos que têm de ser evitados, o monte de
pedras que quase faz a gente desistir de tudo, por parecer impossível
transpo-lo sem ruído.
Estávamos andando daquele jeito e por tanto tempo que comecei a
pensar que tínhamos errado a direção Foi quando, na escuridão, linhas
finas e paralelas de alguma coisa mais escura do que a noite se
tornaram levemente visíveis. Era o arame farpado da frente (os fascistas
tinham duas linhas desse arame, uma à frente da outra) Jorge
ajoelhou-se, procurou no bolso. Estava com nosso único alicate cortador
de arame. Plic-plic! Os arames foram delicadamente postos de lado.
Esperamos para que os companheiros lá atrás chegassem. Pareciam
estar fazendo um barulho de todos os diabos. Devíamos estar a uns
cinqüenta metros do parapeito fascista, e tocamos à frente, encurvados.
Uma passada furtiva, abaixando o pé tão de leve quanto um gato que se
aproxima da toca de ratos; depois uma pausa para ouvir; e outro passo.
Levantei a cabeça uma vez, e em absoluto silêncio Benjamin pos a mão
atrás de meu pescoço e o puxou para baixo com violência. Eu sabia que
o outro arame farpado ficava a menos de vinte metros do parapeito, e
parecia-me inconcebível que trinta homens chegassem até lá sem serem
ouvidos. Bastava a respiração arquejante para nos denunciar. Mas, seja
lá como for, chegamos. O parapeito fascista estava à vista agora, um
monte escuro e impreciso, bem alto sobre nós. Mais uma vez Jorge
ajoelhou-se e procurou no bolso. Plic-plic! Não havia jeito de cortar o
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arame em silêncio.
Então era aquele o arame farpado de dentro! Passamos por ali
rastejando de quatro e com rapidez bem maior. Se tivéssemos tempo
para tomar posição agora, tudo estaria bem. Jorge e Benjamin
arrastaram-se para a direita, mas os homens que vinham atrás e
deveriam espalhar-se, tinham de formar uma fila única para passar pela
pequena abertura no arame, e exatamente nesse instante houve um
clarão e estampido no parapeito fascista. A sentinela finalmente nos
ouvira. Jorge colocou-se de joelho e girou o braço como um jogador de
boliche. Sua bomba explodiu em algum lugar no parapeito. No mesmo
instante, muito mais depressa do que se teria achado possível, eclodiu o
estrondo de dez ou vinte fuzis inimigos. Estavam à nossa espera, afinal
de contas. Por momentos dava para ver cada saco de areia naquela luz
sinistra. Os homens que se achavam distantes demais arremessavam as
bombas, e algumas caíam antes do parapeito. De cada seteira pareciam
jorrar jatos de fogo. Sempre é horrível fazerem fogo contra a gente na
escuridão - pois cada clarão de disparo de fuzil parece estar apontando
diretamente para nós - mas o pior eram as bombas. Não se pode
conceber o horror causado por essas armas, a menos que se tenha visto
uma delas explodir por perto, em plena escuridão. A luz do dia há
somente o estrondo da explosão, mas na treva tem-se também o clarão
vermelho e cegante. Eu me jogara ao chão logo aos primeiros disparos.
Tudo isso ocorrera enquanto me achava deitado de lado, na lama
viscosa, lutando selvagemente com o pino de uma bomba. O desgraçado
não queria sair! Finalmente compreendi que o estava torcendo na
direção errada. Retirei o pino, fiquei de joelhos, atirei a bomba e
mergulhei de volta no chão. A bomba estourou à direita, fora do
parapeito. O susto estragara minha pontaria. Naquele exato momento
outra bomba explodiu bem à minha frente, tão perto que pude sentir o
calor da explosão. Achatei-me no chão e enterrei o rosto na lama com
tanto vigor que machuquei o pescoço e pensei estar ferido. Em meio
àquela zoada, ouvi alguém dizer calmamente, em inglês, atrás de mim:
- Estou ferido.
A bomba, na verdade, atingira diversos homens perto de mim, sem me
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alcançar. Ajoelhei-me e atirei outra, e não me recordo para onde ela foi.
Os fascistas faziam fogo, nossos companheiros lá atrás também, e eu
tinha plena consciência de estar no meio, entre eles. Senti o impacto de
um disparo bem perto e compreendi que um homem estava abrindo fogo
logo atrás de mim. Levantei-me e berrei com ele:
- Não atire em mim, seu idiota!
Nesse momento vi que Benjamin, a dez ou quinze metros para a direita,
gesticulava. Corri para lá, e isso obrigava a atravessar aquela linha de
seteiras e despejar fogo, e naquela trajetória infame mantive a mão
esquerda a tapar a face, gesto dos mais idiotas - como se a mão
pudesse deter uma bala! - mas causava-me pavor a idéia de ser atingido
na cara. Benjamin estava ajoelhado e apresentava expressão ao mesmo
tempo satisfeita e diabólica, enquanto disparava meticulosamente sobre
os clarões de fuzil, com sua pistola automática. Jorge caíra ferido aos
primeiros tiros, e estava em algum lugar que não se podia ver.
Ajoelhei-me ao lado de Benjamin, tirei o pino de minha terceira bomba e
arremessei-a. Ah! Nada de dúvidas, dessa feita. Ela explodiu dentro do
parapeito, na quina do "L", exatamente no ninho de metralhadora.
O fogo fascista pareceu ter afrouxado de modo bem repentino. Benjamin
se pôs de pé com um salto e gritou:
- A frente! Atacar!
Partimos em carreira pela encosta curta e íngreme, ao final da qual
estava o parapeito fascista. Eu digo "carreira", mas "arrasto" seria mais
correto. O fato é que não se pode andar ligeiro quando se está
encharcado e enlameado dos pés à cabeça, e carregando um fuzil e
baioneta pesados, e mais cento e cinqüenta cartuchos. Eu estava
possuído pela convicção naturalíssima de que haveria um fascista à
minha espera lá em cima. Se ele disparasse àquela distância, não
poderia deixar de me acertar, mas ainda assim contava que ele não o
fizesse, para poder pegar-me com sua baioneta. Sentia de antemão o
cruzar de nossas baionetas e imaginava se ele teria braço mais forte do
que o meu. Mas não havia fascista algum à espera. Com vaga sensação
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de alívio, verifiquei que havia um parapeito baixo e que os sacos de areia
proporcionavam uma base firme aos pés. Via de regra eles são difíceis
de ultrapassar. Lá dentro tudo estava em frangalhos, barrotes
espalhados por toda a parte e grandes fragmentos de uralita pelo chão.
Nossas bombas destruíram todos os abrigos, mas ainda assim não se
via vivalma. Pensei que os fascistas podiam estar ocultos em algum
ponto subterrâneo, e gritei-lhes em inglês (pois não conseguia pensar em
qualquer palavra espanhola naquele momento):
- Come on out of it! Surrender! ("Saiam dai! Rendam-se!")
Nem sombra de resposta. Nisso, um homem, figura sombria àquela meia
luz, deslizou do telhado de um dos abrigos destruídos e saiu em carreira
para a esquerda. Parti ao seu encalço, enfiando a baioneta na escuridão
sem qualquer resultado. Ao dar a volta no abrigo, vi um homem - não sei