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se era o mesmo que vira antes - fugindo pela trincheira de comunicação
que dava para a outra posição fascista. Devo ter estado bem perto dele,
pois pude vê-lo claramente. Era calvo e parecia não ter qualquer roupa
no corpo, exceto um cobertor que segurava em torno dos ombros. Se eu
abrisse fogo, poderia reduzi-lo a fanicos, mas com medo de dispararmos
uns contra os outros, havíamos recebido ordens para só utilizar as
baionetas depois de estarmos dentro do parapeito, e de qualquer modo
eu nem sequer pensei em atirar, naquela conjuntura. Ao invés disso,
meus pensamentos deram um salto de vinte anos atrás, e lembrei-me de
nosso instrutor de boxe na escola, mostrando-me em pantomima bem
vivida como enfiara a baioneta num turco, nos Dardanelos. Segurei o
fuzil com força e fiz um arremesso às costas do sujeito. Estava fora de
meu alcance. Outro mergulho, e acertei outra vez no ar vazio. E por
alguma distância ficamos assim, ele correndo pela trincheira e eu atrás
no chão mais alto, mirando-lhe as omoplatas sem conseguir alcançá-las
uma só vez - recordação bem cômica que posso ter hoje, embora
acredite que para ele não fosse tão cômico assim.
Como era natural, o sujeito conhecia melhor aquele lugar, e logo me
escapulia. Quando voltei ao ponto de nosso ataque, a posição estava
cheia de homens a gritar. Diminuíra um pouco o ruído dos disparos, e os
fascistas continuavam a despejar fogo sobre nós, por três lados, mas era
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de distância maior. Nós os havíamos repelido, por algum tempo, e
lembro ter declarado, em tom de oráculo:
- Podemos sustentar este lugar por meia hora, não mais que isso.
Não sei por que cargas d'água escolhi esse período de meia hora.
Olhando pelo parapeito à direita, dava para ver inúmeros clarões
esverdeados, de fuzis que disparavam na escuridão, mas estavam muito
distantes, a cem ou duzentos metros. Nossa tarefa agora era dar uma
batida na posição e retirar tudo que valesse a pena. Benjamin e alguns
outros já estavam vasculhando as ruínas de um abrigo maior, no meio da
posição, e ele saiu cheio de animação pelo telhado destruído, puxando a
braçadeira de corda de uma caixa de munição.
- Camaradas! Munição! Muita munição aqui!
- Não queremos munição - disse alguém. - Queremos fuzis.
Era verdade. Metade de nossos fuzis estava inservível, engasgada com
lama. Podiam ser limpos, mas é perigoso retirar o ferrolho de um fuzil na
escuridão, pois é só colocá-lo em algum lugar e perdê-lo em seguida. Eu
tinha uma pequenina lanterna elétrica que minha mulher adquirira em
Barcelona, e não fosse por isso não teríamos qualquer espécie de luz.
Alguns homens com fuzis em bom estado deram início a um fogo
desencontrado contra os clarões de disparos na distância. Ninguém se
atrevia a atirar depressa, pois até os melhores fuzis estavam sujeitos a
engasgar se esquentas sem demais. Havia perto de dezesseis homens
dentro do parapeito, inclusive um ou dois que estavam feridos. Lá fora
havia outros feridos, ingleses e espanhóis, caídos na lama. Patrick
O'Hara, irlandês de Belfast que tivera algum preparo em primeiros
socorros, ia de um para outro lado com pacotes de ataduras, pensando
os feridos e, naturalmente, servindo de alvo a disparos vindos de nosso
próprio lado da linha, todas as vezes em que voltava ao parapeito, e a
despeito de seus gritos indignados de "Poum!"
Começamos a vasculhar a posição fascista. Havia diversos mortos, mas
não parei para examiná-los. Eu procurava a metralhadora. Por todo o
tempo em que estivemos lá fora, deitados na lama, eu pensara
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vagamente no motivo pelo qual a metralhadora não disparava. Enfiei a
lanterna elétrica pelo ninho, e tive amarga decepção. Não estava lá! Ali
se encontravam o tripé, bem como diversas caixas de munição e peças
sobressalentes, mas a arma se fora. Os fascistas deviam tê-la
desaparafusado e tirado dali ao primeiro alarme. Não havia dúvida de
que agiam sob ordens, mas fora estúpido e covarde fazer isso, pois se a
mantivessem no lugar poderiam esmagar todos nós. Estávamos furiosos,
pois todos contávamos apreender uma metralhadora.
Procuramos de um e de outro lado, mas não achamos coisa alguma de
maior valor. Havia grande número de bombas fascistas no chão, de tipo
bastante inferior, que se disparava puxando um cordão, e guardei duas
no bolso como lembranças. Era impossível deixar de estranhar a miséria
dos abrigos fascistas. O monte de roupas, livros, comida e pequenos
pertences pessoais que se via em nossos abrigos era coisa que ali não
se encontrava. Aqueles pobres conscritos, que nada recebiam de soldo,
pareciam não possuir coisa alguma além de cobertores e alguns
pedaços de pão mofado. Na extremidade mais distante havia um
pequeno abrigo que ficava, em parte, acima do chão, e apresentava uma
pequenina janela. Enfiamos a lanterna por ali e ao mesmo tempo
soltamos um brado de alegria. Um objeto cilíndrico, em estojo de couro,
com mais de um metro de altura e de diâmetro, estava apoiado na
parede. Tratava-se do cano da metralhadora, naturalmente! Fizemos a
volta e chegamos à entrada, e ali verificamos que o objeto em estojo de
couro não era uma metralhadora, mas algo que, em nosso exército
destituído de armas, era mais precioso ainda: um telescópio enorme,
provavelmente aumentando sessenta ou setenta vezes, com tripé
desdobrável. Tais telescópios simplesmente não existiam em nosso lado,
e havia uma fome desesperada pelos mesmos. Nós o trouxemos para
fora, em triunfo, e o deixamos encostado no parapeito, para carregá-lo
depois.
Nesse momento alguém gritou que os fascistas estavam se
aproximando. Era certo que a zoada dos tiros se tornara muito mais alta.
Mas era óbvio que os fascistas não-contraatacariam pela direita, pois
isso obrigá-los-ia a atravessar a terra de ninguém e atacar o seu próprio
parapeito. Se tivessem algum juízo, viriam a nós por dentro da linha. Dei
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a volta até ao outro lado dos abrigos. A posição tinha o formato
aproximado ao de uma ferradura, com os abrigos no meio, de modo que
não tínhamos outro parapeito cobrindo nossa esquerda. De todas as
direções vinha fogo cerrado contra nós, mas isso não fazia grande
diferença. O ponto perigoso ficava bem à frente, onde não contávamos
com qualquer proteção, e ali por cima passava uma torrente de balas,
Deviam estar chegando da outra posição fascista mais além na linha,
tornando-se evidente que os Guardas de Assalto não a haviam
capturado. Dessa feita, todavia, o estrondo era ensurdecedor, o estrugir
ininterrupto de fuzis disparados em massa, que eu estava acostumado a
ouvir a distância, sendo aquela a primeira vez que me achava em meio
dele. E a essa altura, como é claro, os disparos haviam-se espalhado por
toda a linha de frente, quilômetros e quilômetros seguidos. Douglas
Thompson, com um braço atingido e inutilizado, pendendo ao lado do
corpo, estava encostado no parapeito e disparava contra os clarões,
usando para isso o braço bom. Alguém cujo fuzil engasgara o ajudava,
municiando sua arma.
Havia quatro ou cinco de nós naquele lado, e tornava-se óbvio o que
devíamos fazer, Era preciso arrastar os sacos de areia do parapeito à
frente e formar uma barricada cobrindo o lado desprotegido, e isso muito
depressa. O fogo estava alto por enquanto, mas poderia vir mais baixo a
qualquer momento e pelos clarões de disparos feitos ao redor dava para
ver que tínhamos cem ou duzentos homens contra nós. Começamos a
arrancar os sacos do parapeito e a carregá-los vinte metros à frente,
atirando-os numa pilha de qualquer maneira. Que trabalho horrível! Eram
sacos de areia bem grandes, pesando uns 45 quilogramas, e exigindo
todo o vigor de que se dispunha para saírem do lugar. Depois disso a
aniagem apodrecida se rasgava e a terra molhada caía por cima em
cascata, pelo pescoço abaixo e subindo