naespanha
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as mangas da roupa.
Lembro-me de ter sido assaltado pelo horror que tudo aquilo me
causava, o caos, a escuridão, o ruído assustador, as carreiras de um
para outro lado na lama, as batalhas com aqueles sacos pesados que
estouravam à toa - e tudo isso na atrapalhação causada pelo fuzil que eu
não largava de jeito algum, com medo de ficar sem ele. Cheguei a gritar
para um dos companheiros, enquanto caminhávamos aos tropeções,
carregando um saco:
Lutando na Espanha
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- Então isto é a guerra! Não é uma bosta?
De repente, uma série de vultos altos surgiu aos pulos pelo parapeito da
frente. Ao aproximarem-se de nós, vimos que usavam o uniforme de
Guardas de Assalto, e soltamos aclamações, acreditando que se
tratasse de reforços, Mas eram apenas quatro homens, três alemães e
um espanhol, e mais tarde ficamos sabendo o que acontecera aos
Guardas de Assalto. Não conhecendo o terreno e mergulhados na treva,
deram com os costados no lugar errado, onde se viram apanhados pelo
arame farpado dos fascistas, e ali bom número deles fora fuzilado.
Aqueles quatro perderam-se dos demais o que era muita sorte para eles.
Os alemães não falavam uma só palavra de inglês, francês ou espanhol.
Foi com dificuldade e muita gesticulação que lhes explicamos o que
estávamos fazendo e conseguimos sua ajuda na formação da barricada.
Os fascistas, a essa altura, tinham trazido uma metralhadora. Podíamos
vê-la cuspindo fogo a cem ou duzentos metros, seus projéteis choviam
em cima de nós num gargalhar firme e gelado. Não tardamos a jogar um
número suficiente de sacos de areia no lugar, a fim de conseguir uma
cobertura baixa da qual os poucos homens naquele lado da posição
podiam manter-se deitados e usar suas armas. Eu estava de joelhos,
atrás deles. Uma granada de morteiro passou assoviando por cima e
estourou em algum lugar na terra de ninguém. Era outro perigo, mas
seriam precisos alguns minutos para nos enquadrar em seu fogo. Agora
que tínhamos acabado a luta com aqueles malditos sacos de areia, a
coisa apresentava até certo aspecto divertido; o ruído, a escuridão, os
clarões a aproximar-se, os nossos companheiros respondendo ao fogo.
Tinha-se até algum tempo para pensar, e eu me lembro que fiquei
verificando se estava com medo, resolvendo naquela ocasião que isso
não acontecia. Lá fora, onde provavelmente estivera sujeito a menos
perigo, eu enjoara de tanto medo. De repente ouvimos outro grito a
avisar que os fascistas se aproximavam. Dessa vez não havia qualquer
dúvida, pois os clarões dos fuzis inimigos estavam muito mais próximos.
Vi um deles que não podia estar a mais de vinte metros. Era claro que
eles se adiantavam pela trincheira de comunicação, e a vinte metros
encontravam-se dentro do alcance de nossas bombas. E ramos oito ou
nove amontoados, e uma única bomba bem jogada nos reduziria a
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fanicos. Bob Smillie, com sangue escorrendo pelo rosto por causa de um
ferimento leve, pôs-se de joelhos e arremessou uma bomba. Nós nos
agachamos, esperando o estrondo. A espoleta ficou rubra enquanto
atravessava o ar, mas a bomba não explodiu. (Pelo menos uma quarta
parte daquelas bombas sempre falhava.) Eu não tinha mais bombas,
exceto as fascistas que apanhara como recordação, e não sabia como
funcionavam. Gritei para os outros, para saber se alguém tinha alguma
bomba disponível. Douglas Moyle examinou os bolsos e passou-me
uma. Atirei-a ao ar e mergulhei de cara no chão. Por um desses golpes
de sorte que acontecem talvez uma vez por ano, eu conseguira lançar a
bomba quase exatamente onde o fuzil disparara. Houve o estrondo e
logo, instantaneamente, um clamor diabólico de gritos e gemidos.
Havíamos acertado um deles, pelo menos, e não sei se o homem
morreu, mas decerto ficara bastante ferido. Pobre coitado, pobre coitado!
Senti certo arrependimento enquanto ouvia seus gritos. Mas no mesmo
instante, à luz fraca dos clarões de fuzil, vi ou julguei ver uma figura de
pé no lugar onde o fuzil disparara. Fiz mira com o meu e disparei. Outro
grito, mas acho que era ainda o efeito da bomba. Outras foram atiradas,
e os clarões de fuzil que vimos em seguida estavam muito distantes, a
cem metros ou mais. Portanto nós os havíamos repelido, pelo menos
temporariamente.
Todos começaram a amaldiçoar e perguntar por que demônios não nos
mandavam reforço. Com uma submetralhadora, ou vinte homens de fuzis
limpos, poderíamos sustentar aquele lugar contra todo um batalhão. Foi
nesse momento que Paddy Donovan, subcomandante naquela
empreitada e que fora mandado voltar à nossa linha para saber quais as
ordens, galgou o parapeito da frente.
- Ei! Saiam dai! Todos devem retirar-se imediatamente!
- O quê?
- Retirar! Sair daqui!
- Por quê?
- Ordens. De volta às nossas linhas, e bem depressa.
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Já havia companheiros subindo o parapeito da frente, diversos deles
lutando com uma pesada caixa de munição. Lembrei-me do telescópio
que ficara encostado ao parapeito no outro lado da posição, mas nesse
momento vi que os quatro Guardas de Assalto, suponho que em
conformidade com alguma ordem misteriosa recebida anteriormente por
eles, começavam a correr pela trincheira de comunicações. Isso ia dar
para a outra posição fascista e - se chegassem lá - à morte certa.
Estavam sumindo na escuridão, e corri atrás deles, enquanto procurava
a palavra em espanhol para "retirar", e finalmente consegui gritar "Atrás!
Atrás!" o que talvez fizesse entender. O espanhol compreendeu e trouxe
os outros de volta. Paddy aguardava no parapeito.
- Venham, depressa!
- Mas, o telescópio!
- F... . o telescópio! Benjamin está esperando lá fora.
Subimos o parapeito e saímos da posição. Paddy segurou o arame
farpado para eu passar, e assim que nos afastamos do abrigo
proporcionado pelo parapeito fascista encontramo-nos debaixo de um
fogo infernal que parecia vir de todas as direções. Não duvido de que
parte dele viesse de nosso próprio lado, pois todos estavam abrindo fogo
na linha de frente. Para qualquer lado que nos voltássemos, éramos
brindados com nova torrente de balas, e assim fomos tangidos para lá e
para cá na escuridão, como um rebanho de ovelhas. O fato de estarmos
carregando uma caixa de munição capturada ao inimigo - uma daquelas
que contêm 1.750 tiros e pesam cerca de 45 quilogramas - e mais uma
caixa de bombas e diversos fuzis fascistas não facilitava, absolutamente,
a coisa. Em alguns minutos, embora a distância de parapeito a outro não
fosse superior a duzentos metros e a maioria conhecesse o terreno,
estávamos inteiramente perdidos. Encontrávamo-nos a patinar num
campo enlameado, sem saber de outra coisa que não a dura realidade
das balas vindas de ambos os lados. Não havia lua para nos orientar,
mas o céu tornava-se um pouco mais claro. Nossas linhas ficavam a
leste de Huesca, e eu queria ficar onde estávamos até a primeira
claridade da aurora mostrar para onde estavam leste e oeste, mas os
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outros se opunham a isso. Continuamos a chapinhar para a frente,
mudando de direção diversas vezes e fazendo turnos na caixa de
munição. Finalmente vimos a linha baixa e chata de um parapeito à
nossa frente. Podia ser nosso, ou dos fascistas, e ninguém fazia a menor
idéia do caminho que tomáramos. Benjamin rastejou sobre o estômago e
passou por uma planta alta e esbranquiçada até a distância de vinte
metros do parapeito, e deu um grito de reconhecimento. A resposta foi
outro grito de "Poum!". Levantamo-nos, abrimos caminho até ao
parapeito, enfiamo-nos mais uma vez pela vala de irrigação -
cataplás-gugo! - e estávamos a salvo.
Kopp nos aguardava dentro do parapeito, em companhia de alguns
espanhóis. O médico e as padiolas tinham sumido. Parecia que todos os
feridos tinham sido recolhidos,