naespanha
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no abrigo em Monte Pocero outra vez,
na beirada de calcário que serve de cama, e o jovem Ramón ronca com
o nariz achatado entre minhas omoplatas. Estou tropeçando na trincheira
enlameada, atravessando o nevoeiro que gira ao redor como vapor frio.
Estou a meio caminho numa fenda da encosta, lutando por manter o
equilíbrio e agarrando uma raiz de alecrim bravo no chão. Lá por cima,
cantam balas perdidas e destituídas de qualquer sentido.
Estou deitado e oculto entre pequenos abetos, no chão baixo ao oeste
de Monte Oscuro, com Kopp e Bob Edwards e três espanhóis. No topo
do morro cinzento à nossa direita encontra-se uma fieira de fascistas,
subindo aquilo como se fossem formigas. Bem à frente um toque de
cometa parte das linhas fascistas. Kopp troca um olhar comigo, e com
gesto de colegial faz fiau para o inimigo.
Estou no pátio enlameado de La Granja, em meio ao grupo de homens
que lutam com suas vasilhas de estanho em volta ao caldeirão de
ensopado. O cozinheiro, homem gordo e embaçarado, faz-nos recuar
brandindo a concha em nossa direção. Em mesa próxima está um
homem barbudo, com enorme pistola automática no coldre e partindo
pães em cinco pedaços. Atrás de mim uma voz com sotaque londrino
(Bill Chambers, com quem tive acesa disputa, e que mais tarde foi morto
fora de Huesca) está cantando:
Há ratos, muitos ratos,
ratos tão grandes quanto gatos,
no dep...
Uma granada de artilharia estruge com seu grito pelo ar. Meninos de
quinze anos atiram-se de cara no chão. O cozinheiro se esconde atrás
do caldeirão, e todos se erguem, com expressões encabuladas,
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enquanto a granada mergulha e estoura a cem metros de distância.
Estou andando de lá para cá na linha de sentinelas, sob as copas
escuras dos choupos. Na vala inundada, lá fora, os ratos estão a
espadanar, fazendo tanto barulho como se fossem lontras. Quando a
madrugada amarelada desponta atrás de nós a sentinela andaluza,
protegida em sua capa, começa a cantar. Do outro lado da terra de
ninguém, a cem ou duzentos metros de distância, dá para ouvir a
sentinela fascista cantando também.
Em 25 de abril, depois dos mañanas de costume, outra seção nos
substituiu e entregamos nossos fuzis, embrulhamos os pertences e
marchamos de volta para Monflorite. Não fiquei com pena de deixar a
linha. Os piolhos multiplicavam-se em minhas calças com rapidez maior
do que eu os conseguia massacrar, e por todo um mês eu estivera sem
meias e as botas estavam com as solas muito gastas, de modo que
andava mais ou menos descalço. Eu queria tomar um banho quente,
vestir roupas limpas e passar uma noite entre lençóis, e queria isso com
mais ardor e paixão do que se pode querer qualquer coisa depois de
viver uma vida civilizada normal. Dormimos algumas horas num paiol em
Monflorite, embarcamos em caminhões pela madrugada, apanhamos o
trem das cinco em Barbastro e - tendo a sorte de ligar com um trem
rápido em Lerida - estávamos em Barcelona às três da tarde do dia 26. E
depois disso começaram os problemas.
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De Mandalay, na Birmânia Superior, pode-se viajar de trem até Maymyo,
a principal estação montanhosa naquela província, à beira do planalto de
Shan. Essa viagem constitui experiência bastante incomum, pois o
viajante sai da atmosfera típica de uma cidade oriental - com seu sol
brilhante, as palmeiras poeirentas, cheiros de peixe, especiarias e alho,
frutas tropicais polpudas, a multidão de seres humanos de faces escuras
- e porque nos acostumamos a ela, levamos essa atmosfera intata, por
assim dizer, dentro do vagão ferroviário em que viajamos. Mentalmente,
estamos ainda em Mandalay, e nisso o trem pára em Maymyo, a 1.200
metros acima do mar. Bastará sairmos do vagão para entrarmos num
hemisfério diferente. Vemos que, de repente, estamos respirando ar frio
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e doce, bem parecido ao da Inglaterra, e ao derredor estão a grama
verde, samambaias, abetos e mulheres das montanhas, de rostos
corados e vendendo cestas de morangos.
Regressar a Barcelona, depois de três meses e meio na linha de frente,
foi mudança que me fez recordar aquela outra. Ocorria a mesma
transformação, abrupta e surpreendente, de atmosfera. No trem, por todo
o percurso até Barcelona, a atmosfera da linha de frente persistia; eram
a sujeira, o ruído, o desconforto, as roupas esfarrapadas e a sensação
de privação, camaradagem e igualdade. O trem, que já estava repleto de
milicianos ao partir de Barbastro, viu-se invadido por um número cada
vez maior de camponeses a cada estação. Vinham com embrulhos de
legumes, aves apavoradas que carregavam penduradas de cabeça para
baixo, sacos que se mexiam e contorciam por todo o chão e logo
descobríamos estarem cheios de coelhos vivos - e, finalmente, com todo
um rebanho de ovelhas, que foram empurradas para os compartimentos
e enfiadas em todos os cantos vazios. Os milicianos entoavam canções
revolucionárias que se sobrepunham ao barulho do trem e mandavam
beijos, ou sacudiam lenços vermelhos e negros para todas as mulheres
bonitas que se via no caminho. Garrafas de vinho e anis, aquele imundo
licor aragonês, passavam de mão em mão. Com as garrafas de água
espanholas, feitas com pele de cabra, pode-se espirrar um jato de vinho
de um lado do vagão até à boca do amigo, no outro lado, o que poupa
muito trabalho. A meu lado um rapazinho de quinze anos, e de olhos
negros, apresentava uma narrativa sensacional e, não duvido,
completamente inveridica de suas próprias façanhas na linha de frente,
para dois camponeses idosos e de cara enrugada, que ouviam
boquiabertos. Eles não tardaram a abrir seus embrulhos e oferecer-nos
algum vinho tinto, escuro e pegajoso. Estávamos todos imensamente
felizes, mais do que eu possa descrever. Mas depois do trem passar por
Sabadell e chegar a Barcelona, saltamos para encontrar uma atmosfera
que não seria menos estranha e hostil se houvéssemos chegado a Paris
ou Londres.
Todos aqueles que fizeram duas visitas, com espaço de meses, à cidade
de Barcelona e durante a guerra, puderam observar as transformações
extraordinárias ali ocorridas. O curioso é que se tais visitantes estiveram
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pela primeira vez em agosto, e depois em janeiro, ou então em
dezembro e depois abril, como eu, era sempre idêntica sua observação:
desaparecera a atmosfera revolucionária. Para qualquer um que lá
estivera em agosto, quando o sangue mal secara nas ruas e a milícia se
alojava nos bons hotéis, Barcelona teria parecido, em dezembro, uma
cidade burguesa. Para mim, recém-vindo da Inglaterra, ela parecia-se
mais a uma cidade de trabalhadores do que qualquer outra coisa que
pudesse imaginar. Agora a maré refluíra, e Barcelona voltara a ser uma
cidade comum, um pouco batida e escalavrada pela guerra, mas sem
apresentar qualquer sinal exterior de predomínio da classe trabalhadora.
A transformação no aspecto de sua população era surpreendente.
Haviam desaparecido quase por completo o uniforme miliciano e o
macacão azul. Todos pareciam estar usando as mesmas roupas
elegantes de verão nas quais os alfaiates espanhóis se especializam.
Homens gordos e prósperos, mulheres elegantes e carros bonitos
encontravam-se por toda a parte. (Dizia-se que ainda não havia
automóveis particulares, mas ainda assim todos que fossem "alguém"
pareciam capazes de ter um veículo para si ) Os oficiais do
recém-formado Exército Popular, tipo que mal existia quando eu partira
de Barcelona, apresentavam-se em números surpreendentes. O Exército
Popular tinha oficiais na proporção de um por dez soldados. Certo
número dos mesmos servira na milícia ou fora tirado da linha de frente
para receber instrução técnica, mas a maioria se compunha de
rapazelhos que tinham freqüentado a Escola de Guerra, ao invés de
ingressar na milícia. Sua relação para com os subordinados não era a
mesma de um