naespanha
240 pág.

naespanha


DisciplinaFilosofia e Ética3.160 materiais79.103 seguidores
Pré-visualização50 páginas
isso, em sua
maior parte, constituía uma mistura de esperança e camuflagem. A
classe trabalhadora acreditava numa revolução que fora iniciada, mas
Lutando na Espanha
file:///C|/Meus documentos/orwellnaespanha.htm (105 of 240) [16/11/2002 19:09:39]
jamais consolidada, e a burguesia estivera assustada, tendo-se
disfarçado provisoriamente em trabalhadores. Nos primeiros meses da
revolução devem ter havido muitos milhares de pessoas que
deliberadamente vestiram macacões e proferiram refrões
revolucionários, como meio de salvar a pele. Agora as coisas voltavam
ao normal, e os restaurantes e hotéis elegantes estavam repletos de
gente rica que devorava refeições caras, enquanto que para a população
trabalhadora os preços dos gêneros subiram muito, sem qualquer
aumento correspondente nos salários. A parte da carestia em tudo, havia
constante escassez disto ou daquilo, o que sempre atingia mais o pobre
do que o rico, naturalmente. Os restaurantes e hotéis pareciam ter pouca
dificuldade em obter o que quisessem, mas nas instalações da classe
trabalhadora as filas para conseguir pão, azeite e outros artigos
estendiam-se por centenas de metros. Na ocasião anterior, em
Barcelona, eu ficara bem impressionado pela ausência de mendigos, e
agora eles se apresentavam em grande número. No lado de fora das
lojas de frios, na parte superior da Ramblas, turmas de crianças
descalças estavam sempre à espera para rodear quem saísse dali e
gritar pedindo restos de comida. As formas "revolucionárias" de conversa
estavam saindo de uso. Raras vezes as pessoas estranhas se dirigiam,
uma à outra, no tratamento tu e "camarada"; em geral era señor e usted.
Buenos dias começava a substituir salud. Os garçons envergavam
novamente as camisas engomadas e os lojistas faziam salamaleques e
mesuras como antes. Minha esposa e eu fomos a uma loja de meias na
Ramblas, e ali o lojista fez reverência e esfregou as mãos como não
fazem nem mesmo na Inglaterra de nossos dias, embora costumassem
fazê-lo há vinte ou trinta anos atrás. De um modo furtivo e indireto a
prática de dar gorjetas voltava a existir. As patrulhas formadas por
trabalhadores receberam ordem de dissolução e as forças policiais de
antes da guerra apresentavam-se novamente nas ruas. Um dos
resultados disso é que o espetáculo de cabaré e os prostíbulos de
categoria, muitos dos quais foram fechados pelas patrulhas de
trabalhadores, logo reabriram suas portas.9 Um exemplo pequeno mas
significativo do modo pelo qual tudo se encontrava orientado, agora, a
favor das classes mais ricas, podia ser visto na escassez de fumo. Para
a massa do povo essa escassez era tão desesperada que cigarros
Lutando na Espanha
file:///C|/Meus documentos/orwellnaespanha.htm (106 of 240) [16/11/2002 19:09:39]
cheios de raiz picada de alcaçuz eram vendidos nas ruas. Experimentei
alguns. (Muita gente fez isso, ao menos uma vez.) Franco estava com as
ilhas Canárias, onde se planta todo o fumo da Espanha e, por
conseqüência, os únicos estoques de fumo existentes no lado do
Governo eram os que se tinha antes da guerra. Tais reservas
encontravam-se tão reduzidas que as tabacarias agora só abriam suas
portas uma vez por semana, e depois de esperar duas horas na fila
talvez se conseguisse, com alguma sorte, comprar um pacote de fumo.
Em teoria o Governo não permitiria a compra de fumo no exterior, pois
isso reduziria as reservas de ouro, que precisavam ser mantidas para
comprar armas e outros artigos necessários. Na verdade, havia um
fornecimento constante de cigarros estrangeiros contrabandeados, e das
marcas mais caras, Lucky Strike e assim por diante, o que criava
fabulosa oportunidade para lucros ilegais. Podia-se comprar os cigarros
contrabandeados abertamente nos hotéis elegantes, e pouco menos
abertamente nas ruas, desde que se pagasse dez pesetas (soldo de um
dia dos milicianos) pelo maço. O contrabando ia beneficiar as pessoas
ricas, e por isso encontrava conivência. Para quem tivesse dinheiro
suficiente nada havia que não se pudesse obter em qualquer quantidade,
com a possível exceção do pão, que era racionado de modo bastante
rigoroso. Esse contraste aberto entre riqueza e pobreza teria sido
impossível alguns meses antes, quando a classe trabalhadora ainda
estava, ou parecia estar, em controle da situação. Mas não seria justo
atribuir isso apenas à transferência do poder político, pois em parte era
também o resultado da segurança da vida em Barcelona, onde poucas
coisas havia para fazer o povo lembrar-se da guerra, excetuado um ou
outro ataque aéreo inimigo. Todos que estiveram em Madri afirmavam
que as coisas eram muito diferentes na Capital, onde o perigo comum
forçava as pessoas de quase todos os tipos a um certo sentido de
camaradagem. Um homem gordo a comer codornas enquanto crianças
imploram pão constituí visão desagradável, mas é menos provável tê-la
quando se está ouvindo o estrondo dos canhões.
Um dia ou dois, após a luta de ruas, lembro-me de estar passando por
uma das ruas mais elegantes e de entrar numa confeitaria que ostentava
a vitrina cheia de doces e bombons dos tipos mais refinados, a preços
espantosos. Era o tipo de casa comercial que se encontra em Bond
Lutando na Espanha
file:///C|/Meus documentos/orwellnaespanha.htm (107 of 240) [16/11/2002 19:09:39]
Street ou Rue de la Paíx. E recordo também meu sentimento vago de
horror e espanto diante do fato de que ainda se pudesse desperdiçar
dinheiro em coisas assim, num país faminto e assolado pela guerra. Mas
que Deus me proíba o fingimento de qualquer superioridade pessoal.
Depois de diversos meses no maior desconforto, eu estava tomado por
desejo fortíssimo de ter comida e vinho decentes, coquetéis, cigarros
norte-americanos e assim por diante, e reconheço ter-me espojado em
todos os luxos que meu dinheiro pode comprar. No curso da primeira
semana, antes de começar a luta de ruas, tive diversas preocupações
que interagiram uma sobre a outra de modo bastante curioso. Em
primeiro lugar, como já disse, estava ocupadíssimo tratando tanto de
meu conforto quanto podia. Em segundo lugar, graças aos excessos em
comida e bebida, estive com a saúde um pouco abalada por toda aquela
semana. Eu me sentia mal, ia deitar por metade do dia e dali saía para
ingerir outra lautíssima refeição e passar mal em seguida. Ao mesmo
tempo, dava continuação a negociações secretas no sentido de adquirir
um revólver. Eu queria uma arma dessas com muito empenho, pois eram
de utilidade bem maior que um fuzil na guerra de trincheiras, e estavam
muito difíceis de conseguir. O Governo distribuíra revólveres aos policiais
e aos oficiais do Exército Popular, mas não às milícias. Era preciso
comprá-los, ilegalmente, nos depósitos secretos dos anarquistas. Depois
de muita trapalhada e amolação, um amigo anarquista conseguiu para
mim uma pequena pistola automática de 26 mm, arma sem valor e inútil
a mais de cinco metros de distância, porém melhor do que nada. E por
cima de tudo isso eu fazia os primeiros preparativos para deixar a milícia
do P .O. U . M. e ingressar em outra unidade, desde que, com isso,
ficasse assegurada minha ida para a frente de Madri.
Desde muito eu dizia a todos que ia deixar o P.O.U.M. Por minha
preferência puramente pessoal, teria gostado de estar com os
anarquistas. Quem se tornasse membro da C. N . T. podia ingressar na
milícia da F. A. I., mas disseram que era mais provável mudarem-se dali
para Teruel do que para Madri. Se queria ir para a Capital, tinha de
ingressar na Coluna Internacional, o que representava obter
recomendação de um membro do Partido Comunista. Procurei um amigo
comunista, ligado ao Auxílio Médico Espanhol, e expliquei o caso.
Pareceu bastante interessado em recrutar-me, e pediu que, se fosse
Lutando na Espanha
file:///C|/Meus documentos/orwellnaespanha.htm (108 of 240) [16/11/2002 19:09:39]
possível, persuadisse alguns outros ingleses da I. L. P. para que se
apresentassem em minha companhia. Se minha saúde estivesse em
melhor estado, eu provavelmente teria concordado com a proposta ali
mesmo. A esta altura,