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na véspera. Ainda assim, era
estranha a sensação de estar sentado naquele telhado. As vezes eu
sentia apenas tédio, não prestava atenção ao ruído infernal, e passava
horas lendo uma série de livros Penguin que, por sorte, comprara alguns
dias antes; de outras, tinha plena consciência dos homens armados que
me observavam a cinqüenta metros de distância. Era um pouco como
estar novamente nas trincheiras, e diversas vezes surpreendi-me, por
força do hábito, a falar dos Guardas Civis como sendo "os fascistas". Em
geral éramos uns seis lá em cima. Pusemos um homem em guarda para
cada torre do observatório, e os demais ficavam sentados no telhado de
chumbo por baixo, onde não havia qualquer proteção a não ser uma
paliçada de pedra. Eu percebia muito bem que a qualquer momento os
Guardas Civis podiam receber ordem, por telefone, para abrir fogo contra
nós. Eles concordaram em avisar-nos antes, mas não se podia ter
certeza de que cumprissem o acordo. Apenas uma vez, no entanto,
pareceu que íamos ter barulho. Um dos Guardas Civis à nossa frente
ajoelhou-se e começou a disparar pela barricada. Nessa ocasião eu
estava de guarda no observatório, voltei o fuzil para ele e gritei:
- Ei! Não atire contra nós!
- O quê?
- Não atire para cá, ou atiraremos de volta!
- Não, não! Eu não estava atirando em vocês. Olhe! Lá embaixo!
Lutando na Espanha
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Fez indicação com o fuzil, mostrando a rua lateral que passava pelo
fundo de nosso edifício. Era verdade, lá estava um rapaz de macacão,
de fuzil em punho, esgueirando-se pela esquina. Era evidente que
acabara de disparar um tiro contra o Guarda Civil no telhado.
- Atirei contra ele. Ele atirou primeiro! (Acredito que fosse verdade.) - Não
queremos atirar em vocês. Nós somos apenas trabalhadores, o mesmo
que vocês!
Fez a saudação antifascista, a que correspondi, e gritei outra vez:
- Vocês ainda têm cerveja?
- Não, já acabou toda.
Naquele mesmo dia, sem qualquer motivo aparente, um homem no
edifício da J .S. U., em outro ponto da rua, ergueu repentinamente o fuzil
e disparou contra mim, que estava debruçado na janela. Talvez eu fosse
um alvo tentador. Não respondi ao tiro, e embora ele estivesse a cem
metros de distância, apenas, a bala passou tão longe que nem sequer
atingiu o telhado do observatório. Como de costume, os padrões
espanhóis de tiro ao alvo salvaram minha vida. Diversas vezes abriram
fogo contra mim.
O tiroteio infernal prosseguia sempre, mas até onde podia ver, e de tudo
quanto ouvia, a luta era defensiva em ambos os lados. As pessoas
simplesmente ficavam em seus edifícios ou atrás das barricadas, e
abriam fogo sobre as que estavam no outro lado. A uns 800 metros de
nós havia uma rua onde alguns dos escritórios principais da C. N . T. e
U. G . T. ficavam quase exatamente em frente um do outro, e daquela
direção era terrível o volume de estrondos. Passei na rua no dia seguinte
ao do término da luta, e vi que as coberturas das vitrinas pareciam-se a
peneiras. (A maioria dos comerciantes em Barcelona colara fitas de
papel em todas suas vitrinas, de modo que quando atingidas por bala
elas não se transformavam em montões de cacos de vidro.) As vezes a
saraivada de fuzis e metralhadoras era pontilhada pela explosão das
granadas de mão. E com intervalos longos, talvez umas doze vezes ao
todo, havia explosões tremendas que, na ocasião, eu não sabia explicar.
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Pareciam-se a bombas aéreas, mas isso era impossível, pois não havia
aeroplanos. Mais tarde me disseram - e deve ser verdade - que agents
provocateurs faziam detonar massas de explosivos a fim de aumentar a
barulheira e o pânico. Não havia fogo de artilharia, entretanto. Eu estava
atento a isso, pois se os canhões entrassem em cena isso queria dizer
que a coisa começava a ficar séria (a artilharia representa o fator
dominante em luta de ruas). Em seguida surgiram narrativas fantásticas
nos jornais a respeito de baterias de canhões disparando nas ruas, mas
ninguém soube indicar que edifício fora atingido por suas granadas. De
qualquer forma, o som dos disparos de artilharia é inconfundível, quando
se está acostumado a ele.
A comida escasseava. Com dificuldade e sob a cobertura da noite (pois
os Guardas Civis estavam constantemente disparando sobre a Ramblas)
os alimentos eram trazidos do Hotel Falcón para os quinze ou vinte
milicianos que se encontravam no Edifício da Direção do P. 0. U. M., mas
a quantidade sempre se mostrava insuficiente, e tantos de nós quanto
possível iam ao Hotel Continental fazer as refeições. O Continental fora
"coletivizado" pelo Generalato e não, como acontecera à maioria dos
hotéis, pela C. N . T. ou U. G. T., sendo encarado como terreno neutro.
Mal começara a luta e o hotel se enchera até à beira com a mais
extraordinária coleção de pessoas. Havia ali jornalistas estrangeiros,
suspeitos políticos de todos os tipos, um aviador norte-americano a
serviço do Governo, diversos agentes comunistas, inclusive um russo
gordo e de aspecto sinistro, que diziam ser agente da OGPU e que
recebera o apelido de Charlie Chan, homem que ostentava no cinturão
um revólver e uma bombinha das mais bonitas, algumas famílias de
espanhóis bem de vida que mais se pareciam a simpatizantes dos
fascistas, dois ou três feridos da Coluna Internacional, uma turma de
motoristas de caminhão que dirigia alguns caminhões franceses
gigantescos, ocupada em transportar laranjas para a França e detida
pela luta, e boa coleção de oficiais do Exército Popular. Como
organização militar, esse exército permaneceu neutro durante a luta,
embora alguns de seus soldados fugissem aos quartéis e participassem
como indivíduos. Na manhã de terça-feira eu vira dois deles nas
barricadas do P. O. U . M. No início, antes da escassez de gêneros
tornar-se aguda e os jornais começarem a criar e atiçar ódio, havia uma
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tendência a encarar a coisa toda como grande piada. Era o tipo de coisa
que ocorria todos os anos em Barcelona, diziam as pessoas. George
Tioli, jornalista italiano e grande amigo nosso, chegou com as calças
tintas de sangue. Saíra para ver o que acontecia e estivera socorrendo
um homem ferido na rua, quando alguém, para divertir-se atirara uma
granada de mão e, felizmente, não o ferira muito. Lembro-me de seu
comentário de que os paralelepipedos de Barcelona deviam ser
numerados, pois isso economizaria muito trabalho na construção e
demolição das barricadas. E lembro-me também de dois homens da
Coluna Internacional, sentados em meu quarto do hotel quando ali
cheguei, faminto e sujo depois de uma noite de guarda. Sua atitude era
de absoluta neutralidade. Se fossem bons partidários, ao que suponho,
teriam instado comigo para mudar de lado, ou mesmo aprisionado e
tirado as bombas com que enchera os bolsos. Ao invés disso,
meramente lamentaram comigo o ter de passar as férias montando
guarda num telhado. A atitude geral era de que "isso é apenas um acerto
entre os anarquistas e a polícia, e não quer dizer coisa alguma". A
despeito da extensão da luta e do número de baixas, acredito que isso
estivesse mais próximo da verdade que a versão oficial, que apresentava
todo o acontecimento como um levante planejado.
Foi por volta de quarta-feira (5 de maio) que pareceu ocorrer uma
modificação. As ruas onde as casas estavam de cortinas e venezianas
cerradas apresentavam aspecto horrível. Pouquíssimos pedestres,
forçados a sair por este ou aquele motivo, esgueiravam-se de um para
outro lado, sacudindo lenços brancos, e num ponto em meio da Ramblas
onde se estava a salvo das balas alguns homens apregoavam jornais
para a rua vazia. Na terça-feira Solidaridad Obrera, o jornal anarquista,
descrevera o ataque ao Centro Telefônico como uma "provocação
monstruosa" (ou palavras nesse sentido), mas já na quarta-feira
modificava o tom e começava