naespanha
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Uma moça alemã que não tinha documentos escapou à
policia apresentando-se diversos dias como amante de um homem.
Lembro-me da expressão de vergonha e desamparo no rosto da pobre
moça quando, acidentalmente, esbarrei nela, que vinha do quarto do
homem. Está claro que não era amante dele, mas certamente achou que
eu assim o pensava. Por todo o tempo tinha-se a sensação odiosa de
que alguém, até então amigo, poderia denunciar-nos à polícia secreta. O
longo pesadelo da luta, o ruído, a falta de comida e de sono, a mistura de
tensão e tédio, sentado no telhado e imaginando se eu próprio levaria
uma bala no minuto seguinte, ou obrigado a atirar em outrem, levara meu
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sistema nervoso à beira da explosão. Eu chegara ao ponto de, sempre
que alguém batia uma porta, estender a mão para a pistola. Na manhã
de sábado houve estampidos lá fora e todos gritaram: "Está começando
outra vez!" Corri para a rua, onde verifiquei tratar-se de alguns Guardas
de Assalto abrindo fogo contra um cão danado. Ninguém que esteve em
Barcelona nessa época, ou meses depois, poderá esquecer a atmosfera
horrível formada pelo medo, desconfiança, ódio, jornais censurados,
cadeias entupidas de gente, filas imensas para comprar gêneros, e
bandos armados a rondar por toda a parte.
Procurei, nas linhas acima, transmitir alguma idéia do que era estar em
meio da luta em Barcelona, mas não acredito que tenha sido capaz de
registrar grande parte da estranheza reinante naquela ocasião. Uma das
coisas presas a meu espírito, quando relembro, é a sucessão de
contatos casuais que fazia então, os olhares repentinos de
não-combatentes, para quem tudo aquilo nada mais era que um estrondo
destituído de significado. Lembro-me da mulher bem vestida que vi
passeando pela Ramblas, com cesta de compras no braço e levando um
cachorrinho branco, enquanto fuzis disparavam a uma ou duas ruas de
distância. Não posso acreditar que ela fosse surda. E o homem que vi
correndo pela Plaza de Cataluna, inteiramente deserta, sacudindo um
lenço branco em cada mão. E o numeroso bloco de pessoas, todas
trajadas em preto, que continuou tentando por toda uma hora atravessar
a Plaza de Cataluna e não o conseguiu. Todas as vezes que seus
componentes apareciam na calçada da esquina os metralhadores do P
.S. U. C., no Hotel Colón, abriam fogo e obrigavam-nos a recuar não sei
por que, pois era claríssimo que estavam desarmados. Mais tarde vim a
crer que se tratava de um cortejo fúnebre. E o homenzinho que
trabalhava como zelador do museu por cima do Poliorama, e que parecia
encarar aquilo tudo como acontecimento social. Teve satisfação imensa
em receber os ingleses em visita - os ingleses eram tão simpáticos, dizia
ele. Esperava que pudéssemos todos voltar ali e vê-lo novamente,
quando terminasse o barulho, e na verdade nós o fizemos. E o outro
homenzinho, abrigando-se num portal, que inclinava a cabeça de modo
bem humorado, em direção ao tiroteio infernal na Plaza de Cataluna e
dizia (como a proclamar que a manhã estava belíssima): "Com que,
então, temos mais um dezenove de julho!" E as pessoas na sapataria,
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que fabricavam minhas botas de marcha. Fui lá antes da luta, depois de
terminada, e por pouquíssimos minutos, durante o curto armistício de 5
de maio. Era uma sapataria careira, seus artífices e pessoal eram da
U.G.T. e podem ter sido membros do P.S.U.C. ou, de qualquer maneira,
estavam politicamente no outro lado e sabiam que eu servia no P. O. U .
M. Ainda assim, sua atitude era de completa indiferença.
- Que lástima, esse tipo de coisas, não é? E muito ruim para os
negócios, também. Que pena não acabarem com isso! Como se não
houvesse mais do que o suficiente na linha de frente! Etc. etc.
Devia haver grande quantidade de pessoas, talvez a maioria dos
habitantes de Barcelona, que encaravam aquela questão toda sem o
menor interesse, ou não mais do que teriam demonstrado por uma
incursão aérea inimiga.
Neste capítulo descrevi apenas o que ocorreu comigo, e no próximo
deverei examinar tão bem quanto possível as questões mais amplas - o
que realmente aconteceu e quais os resultados, méritos e deméritos no
caso, quem era responsável, se houvesse. Tão grande foi a exploração
política sobre as lutas travadas em Barcelona que se torna importante
procurar formar um apanhado geral equilibrado das mesmas. Muita
coisa, suficiente para preencher bom número de livros, já se escreveu a
respeito, e suponho não estar exagerando se disser que nove décimos
da matéria estão formados de inverdades. Quase todas as narrativas e
reportagens publicadas na ocasião pelos jornais eram invencionice de
jornalistas situados bem longe dos acontecimentos, e não apenas se
mostraram imprecisas quanto aos fatos narrados, como eram
intencionalmente enganosas. Apenas um dos lados da questão pôde
chegar ao público em geral. Igualmente a todos que se encontravam em
Barcelona na época, vi apenas o que ocorreu perto de mim, mas pude
ver e ouvir o suficiente para contradizer numerosas mentiras postas em
circulação. Como fiz em parte anterior deste livro, sugiro ao leitor que, se
não estiver interessado na controvérsia política e no conglomerado de
partidos e subpartidos, com seus nomes confusos (parecidos aos de
generais numa guerra chinesa), passe por cima do capítulo seguinte. É
horrível ter de entrar em detalhes na polêmica interpartidária, e essa
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tarefa pode ser comparada ao mergulho dado numa sentina. Precisamos
determinar a verdade, todavia, até onde isso for possível. Aquela refrega
esquálida numa cidade distante é mais importante do que possa parecer
à primeira vista.
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Jamais se poderá obter um relato inteiramente preciso e imparcial sobre
as lutas em Barcelona, porque não existem os dados necessários. Os
futuros historiadores nada terão em que basear-se, exceto um
amontoado de acusações e propaganda partidária. Eu mesmo disponho
de poucos dados além do que vi e o que fiquei sabendo mediante
testemunhas oculares que acredito idôneas. Ainda assim, posso
contraditar algumas das mentiras mais flagrantes e ajudar a situar a
questão em alguma perspectiva.
Antes do mais, o que realmente aconteceu?
Por algum tempo houvera tensões por toda a Catalunha. Nos capítulos
anteriores deste livro, apresentei algumas explicações sobre a luta entre
comunistas e anarquistas. Em maio de 1937 as coisas chegavam a um
ponto no qual algum tipo de eclosão violenta podia ser tomado por
inevitável. A causa imediata de atrito era a ordem do Governo para que
todas as armas em mãos de particulares fossem entregues, medida
coincidente com a decisão de formar uma força policial "apolítica" e
muito bem armada, da qual os membros dos sindicatos estariam
excluídos. O significado disso era patente para todos, sendo igualmente
claro que o passo seguinte seria a tomada de algumas das indústrias
principais controladas pela C. N . T. Existia, além disso, certa faixa de
rancor entre as classes trabalhadoras, por causa do contraste crescente
entre riqueza e pobreza, e um sentimento generalizado e vago de que a
revolução fora sabotada. Muitos receberam agradável surpresa ao ver
que não houve desordens públicas no 1º de maio. No dia 3 o Governo
resolvia tomar o Centro Telefônico, que desde o início da guerra fora
controlado principalmente por trabalhadores da C. N . T. Alegava-se que
estava sendo mal dirigido, e que os telefonemas oficiais se encontravam
sob censura. Salas, o Chefe de Polícia (que teria ido além das ordens
recebidas, ou não) mandou três caminhões cheios de Guardas Civis
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armados apoderar-se do edifício, enquanto as ruas ao lado eram
esvaziadas por policiais, à paisana, armados. Mais ou menos ao mesmo
tempo