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- greve geral de todas
as indústrias, menos as de guerra". (Em outras palavras, pedia apenas o
que já estava ocorrendo.) Na realidade, a atitude dos dirigentes do P.
O.U. M. era hesitante. Jamais estiveram a favor de insurreição, até estar
ganha a guerra contra Franco; por outro lado os trabalhadores saíram às
ruas, e os dirigentes do P .0. U. M. adotaram a linha marxista bastante
pedante. de que quando os trabalhadores se encontram nas ruas o dever
dos partidos revolucionários é estar com eles. Daí, embora
pronunciassem refrões revolucionários a respeito do "redespertar do
espírito de 19 de julho" e assim por diante, terem feito o possível para
limitar a ação dos trabalhadores à defensiva, jamais ordenaram, por
exemplo, que se desfechasse qualquer ataque a um edifício, e
simplesmente ordenavam a seus seguidores que ficassem de guarda e,
como mencionei no último capítulo, não abrir fogo enquanto isso
pudesse ser evitado. La Batalla emitiu também instruções no sentido de
que soldado algum deveria deixar a linha de frente.(11) Eu diria que a
responsabilidade do P. O. U . M. chega ao ponto de instar com todos
para ficarem nas barricadas, e provavelmente persuadiu alguns a ficarem
ali mais tempo do que o necessário. Os que se encontravam em contato
pessoal com os dirigentes do P.O.U.M. nessa época (eu não estava)
disseram-me que, na verdade, eles se achavam descorçoados por aquilo
tudo, mas achavam que deviam associar-se ao caso. Em seguida, como
é claro, fizeram exploração política desse ponto, na maneira de costume.
Gorkin, um dos dirigentes do P .0. U. M., viria mais tarde falar dos "dias
gloriosos de maio". Do ponto de vista propagandístico, pode ter sido essa
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a linha certa, sendo certo que o P .O. U . M. aumentou um pouco em
número de adeptos naquele curto período anterior à sua supressão. Do
ponto de vista tático, provavelmente foi um erro o dar abrigo ao folheto
dos Amigos de Durruti, que constituíam organização muito pequena e via
de regra hostil ao P. O. U. M. Levando-se em conta a agitação geral e as
coisas que eram ditas em ambos os lados, o folheto na verdade não
significava muito mais do que "Fiquem nas barricadas!", mas por parecer
aprová-lo, enquanto Solidaridad Obrera, o jornal anarquista, o repudiava,
os dirigentes do P .O. U . M. facilitaram à imprensa comunista declarar
posteriormente que a luta fora um tipo de insurreição engendrada
unicamente pelo P .0. U . M. Podemos estar certos, no entanto, de que a
imprensa comunista diria isso de qualquer maneira. Aquilo era nada, em
confronto às acusações que se faziam tanto antes quanto depois, com
base em provas ainda menores do que essa. Os dirigentes da C. N . T.
não ganharam grande coisa por causa de sua atitude cautelosa. Foram
louvados por sua fidelidade, mas expulsos do Governo e do Generalato.
Com base no que se dizia não existia qualquer intenção revolucionária
verdadeira em parte alguma. As pessoas que guarneciam as barricadas
eram trabalhadores comuns da C. N . T., provavelmente com certa
proporção de trabalhadores da U. G. T. em seu meio, e o que visavam
não era derrubar o Governo, mas resistir ao que, certos ou errados,
acreditavam ser um ataque desferido pela policia. Sua ação foi
essencialmente defensiva, e não acho que devesse ser descrita (o que
ocorreu em quase todos os jornais estrangeiros) como um "levante". Um
levante é coisa que implica em ação agressiva e plano definido. Com
exatidão maior podemos chamar aquilo uma desordem pública - e muito
sangrenta, pois ambos os lados dispunham de armas e estavam prontos
a utilizá-las.
Mas que dizer sobre as intenções no outro lado? Se não se tratava de
um coup d'état anarquista, seria talvez um coup d\u2019état comunista, um
esforço planejado para destruir o poder da C.N.T. com um único golpe?
Não acredito que fosse, embora pudesse desconfiar disso. É significativo
que coisa muito parecida (tomada do Centro Telefônico pela policia
armada agindo sob ordens emanadas de Barcelona) acontecesse em
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Tarragona dois dias depois. E em Barcelona a incursão ao Centro
Telefônico não constituíra ato isolado. Em diversas partes da cidade
turmas de Guardas Civis e adeptos do P .S. U. C. apoderaram-se de
edifícios situados em pontos estratégicos, senão antes da luta começar,
pelo menos com presteza surpreendente. Mas é preciso lembrar que tais
coisas aconteciam na Espanha, e não na Inglaterra. Barcelona é uma
cidade com longa história de luta em ruas, e em lugares assim as coisas
acontecem com rapidez, as facções já se encontram formadas, todos
conhecem a geografia local, e quando se iniciam os disparos as pessoas
tomam seus lugares quase como em ensaio geral. É de presumir que os
responsáveis pela tomada do Centro Telefônico contassem com barulho
- embora não na escala em que o mesmo ocorreu - e se preveniram para
fazer-lhe frente. Mas daí não segue que estivessem planejando um
ataque geral contra a C. N . T. Há dois motivos pelos quais não acredito
que qualquer dos dois lados fizesse preparativos para uma luta em larga
escala:
(1) Nenhum dos lados trouxera com antecedência tropas para Barcelona.
A luta travou-se apenas entre os que ali já se achavam, principalmente
os civis e a polícia.
(2) Os gêneros alimentícios escasseavam quase de imediato. Quem
tenha servido na Espanha sabe que a única operação militar que os
espanhóis realmente executam muito bem é alimentar seus soldados. É
improvável que, se qualquer dos dois lados pensasse numa semana ou
duas de luta, bem como numa greve geral, deixasse de formar estoques
de alimentos com a necessária antecedência.
Quanto aos méritos e deméritos da luta, finalmente, tenho a dizer que um
escarcéu tremendo se formou na imprensa antifascista do exterior mas,
como de costume, apenas um lado da questão recebeu apresentação
melhor. Por conseqüência, as lutas em Barcelona foram apresentadas
como uma insurreição de anarquistas e trotskistas infiéis e desleais, que
estavam "apunhalando o Governo espanhol costas", e assim por diante.
Mas a questão não teve essa simplicidade. É certo que quem estiver em
guerra com um inimigo mortal não deverá empreender lutas internas,
mas vale a pena lembrar que para formar uma briga é preciso ter dois
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lados, e que as pessoas não começam a construir barricadas, a menos
que tenham recebido alguma coisa que considerem provocação.
O barulho teve uma origem natural, devido à ordem dada pelo Governo
aos anarquistas para que lhe entregassem suas armas. Na imprensa
inglesa isso era levado aos termos ingleses, e tomou a forma seguinte:
necessitava-se desesperadamente de armas na frente de Aragón, e as
mesmas não podiam ser mandadas para lá porque os anarquistas, gente
muito pouco patriótica, retinham-nas em seu poder. Apresentar a
questão dessa maneira é ignorar as condições realmente existentes na
Espanha. Todos sabiam que tanto os anarquistas quanto o P .S. U. C.
estavam formando estoques de armas, e quando a luta irrompeu em
Barcelona isso se fez mais claro ainda, com ambos os lados saindo-se
com abundância de armas. Os anarquistas tinham plena ciência de que,
mesmo entregando suas armas, o P. S. U . C., que politicamente era o
poder maior na Catalunha, continuaria com as dele, e foi realmente o que
ocorreu depois de terminada a contenda. Enquanto isso, e perfeitamente
visível nas ruas, havia quantidades de armas que seriam muito bem
recebidas na linha de frente, mas que eram retidas para as forças
policiais "apolíticas" na retaguarda. E por baixo de tudo isso existia a
divergência irreparável entre comunistas e anarquistas, que mais cedo
ou mais tarde deveria eclodir em algum tipo de luta. Desde o início da
guerra o Partido Comunista Espanhol crescera enormemente em
quadros e capturara a maior parte do poder político,