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chegando à
Espanha milhares de comunistas estrangeiros, muitos dos quais
exprimiam abertamente a intenção de "liquidar" o anarquismo assim que
ganha a guerra contra Franco. Em tais circunstâncias não se poderia
esperar que os anarquistas entregassem suas armas, das quais se
apoderaram no verão de 1936.
A tomada do Centro Telefônico constituiu apenas o fósforo que acendeu
uma bomba já existente. Talvez se possa acreditar que os responsáveis
pela medida julgassem que não resultaria em luta. Diz-se que
Companys, o Presidente catalão, declarara entre risadas, alguns dias
antes, que os anarquistas aceitavam qualquer coisa,(12) Mas com
certeza não se tratou de ato meditado. Por meses consecutivos houvera
longa série de encontros armados entre comunistas e anarquistas em
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diversas partes da Espanha. A Catalunha, e em especial Barcelona,
encontravam-se em estado de tensão que já resultara em refregas nas
ruas, assassinatos e assim por diante. E de repente irrompia pela cidade
a notícia de que homens armados atacavam os edifícios capturados
pelos trabalhadores nas lutas de julho, e aos quais atribuíam grande
valor sentimental. Devemos lembrar que os Guardas Civis eram gente
odiada pelos trabalhadores. Por gerações seguidas la guardia não
passava de mero apêndice de latifundiários e patrões, e os guardas Civis
eram duplamente odiados por suspeitar-se, e com bastante razão, que
possuíam lealdade muito duvidosa contra os fascistas.(13) É provável
que a emoção com que o povo saíra às ruas nas primeiras horas fosse,
em grande parte, a mesma que o levara a resistir aos generais rebeldes,
no início da guerra. Está claro que podem afirmar que os trabalhadores
da C . N . T. deviam ter entregue o Centro Telefônico sem protestar.
Nesse particular, a opinião de cada um será governada pela atitude
individual quanto à questão do governo centralizado ou controle pela
classe trabalhadora. De modo ainda mais pertinente pode-se afirmar:
"Sim, é muito provável que a C. N . T. tivesse alguma razão. Mas, afinal
de contas, havia uma guerra a empreender, e eles não tinham de dar
início a uma luta na retaguarda". Com isso concordo integralmente.
Qualquer desordem interna poderia ajudar Franco. Mas o que realmente
precipitou a luta? O Governo podia ter ou não o direito de tomar o Centro
Telefónico, mas o importante é que em tais circunstâncias isso deveria
desencadear uma luta. Tratava-se de ato de provocação, gesto que
afirmava de fato, e presumivelmente visava afirmá-lo: "Seu poder
terminou, e estamos tomando conta agora". Não era sensato esperar
outra coisa que não a resistência. Quem mantiver sua noção de
proporções terá de compreender que a falta não foi - e não podia ser -
cometida por apenas um dos lados. O motivo pelo qual se viu aceita uma
versão unilateral é, simplesmente, que os partidos revolucionários
espanhóis não têm guarida na imprensa estrangeira. Na inglesa,
principalmente, seria preciso procurar muito para achar qualquer
referência favorável, em qualquer período da guerra, aos anarquistas
espanhóis. Eles foram sístematícamente denegridos, e como sei por
minha experiência própria, é quase impossível fazer com que se imprima
qualquer coisa em sua defesa.
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Procurei escrever de modo objetivo sobre as lutas em Barcelona, embora
seja óbvio que ninguém consiga. ser completamente objetivo numa
questão desse tipo. Estamos praticamente forçados a tomar partido, e
deve estar bem claro em que lado eu me situo. Também é inevitável que
eu tenha cometido enganos de fato, não só aqui como em outras partes
desta narrativa. E muito difícil escrever com precisão sobre a guerra
espanhola, devido à falta de documentos que não os destinados à
propaganda. Quero prevenir a todos quanto à minha preferência, bem
como a respeito de meus enganos. Ainda assim, procurei o mais que
pude ser sincero. Mas o leitor verá que o relato aqui apresentado é
inteiramente diverso do que surgiu na imprensa estrangeira e, de modo
especial, na comunista. E preciso examinar a versão comunista, pois a
mesma se viu divulgada pelo mundo afora, desde então recebeu
suplementos a intervalos curtos, e provavelmente constitua a mais aceita
de todas.
Na imprensa comunista e pró-comunista toda a culpa pelas lutas em
Barcelona foi lançada sobre o P .0. U . M. O acontecimento se viu
representado não como eclosão espontânea, mas como insurreição
deliberada e planejada contra o Governo, engendrada unicamente pelo
P. O. U. M., com auxílio de alguns elementos "incontroláveis" e mal
orientados. Mais do que isso, foi definitivamente uma trama fascista,
executada sob ordens fascistas e com o propósito de iniciar a guerra civil
na retaguarda e assim paralisar o Governo. O P .0. U . M. era "a Quinta
Coluna de Franco", uma organização "trotskista" trabalhando em acordo
com os fascistas. De acordo com o Daily Worker de 11 de maio, temos
que:
Os agentes alemães e italianos, que acorreram em grande
número a Barcelona, para "preparar" de modo ostensivo o
famigerado "Congresso da Quarta Internacional" tinham uma
grande tarefa diante de si:
Deveriam - em colaboração com os trotskistas locais - preparar
uma situação de desordem e derramamento de sangue, na qual
seria possível aos alemães e italianos declararem que "não
podiam exercer o controle naval das costas catalãs de modo
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efetivo devido às desordens existentes em Barcelona", e não
podiam, portanto, "fazer outra coisa senão desembarcar forças
terrestres em Barcelona".
Em outras palavras, o que se estava preparando era uma
situação na qual os governos alemão e italiano pudessem
desembarcar tropas terrestres ou fuzileiros, de modo bem
aberto, nas costas da Catalunha, declarando que o faziam para
"preservar a ordem"..
O instrumento para tudo isso estava pronto para uso por parte
dos alemães e italianos, na forma da organização trotskista
conhecida como P.O. U. M.
O P. O. U. M., agindo em colaboração com elementos
reconhecidamente criminosos, e com algumas outras pessoas
iludidas nas organizações anarquistas, planejou, organizou e
dirigiu o ataque na retaguarda, sincronizado com precisao para
coincidir com o ataque na frente em Bilbao, etc. etc.
Em parte subseqüente do mesmo artigo as lutas em Barcelona
tornam-se "o ataque do P.O. U. M.", e em outro artigo na mesma edição
afirma-se "não haver dúvida de que seja à porta do P. O. U. M. que deva
ser depositada a responsabilidade pelo derramamento de sangue na
Catalunha". A Inprecor (29 de maio) afirma que quem construiu as
barricadas em Barcelona foram "apenas membros do P.O.U.M.,
organizados por esse partido para tal fim".
Eu poderia citar muitas outras coisas, mas já bastou para esclarecer. O P
.O. U. M. fora inteiramente responsável, e o P .O. U. M. agira sob ordens
fascistas. Apresentarei mais trechos dos relatos surgidos na imprensa
comunista, e se vera que são contraditórios a tal ponto que se tornam
inteiramente sem valor. Mas antes de fazê-lo vale a pena indicar, a priori,
diversos motivos pelos quais essa versão das lutas de maio como
levante fascista, engendradas pelo P .0. U . M., está a um passo do
incrível.
(1) O P.O.U.M. não tinha número de membros ou influência suficiente
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para provocar desordens daquela natureza. Menor ainda era seu poder
de convocar uma greve geral. Tratava-se de organização política sem
qualquer apoio definido nos sindicatos, e teria sido capaz de produzir
uma greve em Barcelona tanto quanto (digamos) o Partido Comunista
Britânico o conseguiria fazer em Glasgow. Como afirmei antes, a atitude
dos dirigentes do P .0. U. M. pode ter ajudado a prolongar a luta, mas
não lhes seria possível iniciá-la, ainda que o quisessem fazer,
(2)