naespanha
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A alegada trama fascista repousa na afirmação pura e simples que se
fez nesse sentido, e todas as indicações existentes são ao contrário.
Dizem-nos que o plano destinava-se a permitir aos governos alemão e
italiano o desembarque de tropas terrestres na Catalunha, mas nenhum
navio alemão ou italiano, trazendo tropas, aproximou-se da costa.
Quanto ao "Congresso da Quarta Internacional" e aos "agentes alemães
e italianos", isso era apenas mito. Até onde sei, nem sequer houvera
qualquer referência a um Congresso da Quarta Internacional. Existiam
planos vagos para um Congresso do P.O.U.M. e seus partidos-irmãos (a
I.L.P. inglesa, S.A.P. alemã, etc. etc.), o que fora marcado
experimentalmente para alguma época de julho - dois meses depois - e
não chegara ainda um único delegado para o mesmo. Os "agentes
alemães e italianos" não têm qualquer existência, senão nas páginas do
Daily Worker. Qualquer um que tenha cruzado a fronteira naquela época
sabe que não era tão fácil fazê-lo.
(3) Nada ocorreu, seja em Lerida, o sustentáculo principal do P.O.U.M.,
ou na linha de frente. E óbvio que se os dirigentes do P .0. U . M.
quisessem ajudar os fascistas, teriam ordenado à sua milícia que se
retirasse da linha de combate e deixasse os fascistas passar. Mas nada
disso foi feito ou mesmo sugerido. Tampouco houve qualquer número
extra de homens tirados da linha antecipadamente, embora fosse fácil
mandar mil ou dois mil homens para Barcelona, utilizando-se pretextos
diversos, se necessário. E não houve qualquer tentativa até mesmo de
sabotagem indireta no front, o transporte de gêneros, munições e assim
por diante continuou como sempre, e verifiquei isso pessoalmente.
Acima de tudo, um levante planejado e do tipo sugerido requereria
meses de preparativos, propaganda subversiva entre os milicianos, etc.
Mas não existia qualquer sinal ou boato a respeito. O fato de que a
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milícia no front não desempenhasse qualquer papel no "levante" devia,
por si só, mostrar-se concludente. Se o P .0. U . M. estivesse realmente
planejando um coup d'état, é inconcebível que não utilizasse os dez mil
homens armados que formavam a única força de ataque de que
dispunha.
Com base nisso tornar-se-á suficientemente claro que a tese comunista
de um "levante" do P .O. U . M. sob ordens fascistas tem apoio em
menos do que falta de provas. Adicionarei mais algumas citações tiradas
da imprensa vermelha. As narrativas comunistas sobre o incidente inicial,
o ataque ao Centro Telefônico, mostram-se reveladoras, e não
concordam em coisa alguma, entre si, senão em atribuir a culpa ao outro
lado. É de notar-se que nos jornais comunistas ingleses a culpa é
atribuída inicialmente aos anarquistas e somente depois ela vai recair
sobre o P .0. U . M. Há um motivo bastante óbvio para isso: nem todos
na Inglaterra ouviram falar em 'trotskismo", enquanto que qualquer
pessoa de fala inglesa estremece ao nome de "anarquista". Basta fazer
saber que há "anarquistas" implicados na coisa e fica criada a atmosfera
de preconceitos a que se visa; depois disso a culpa poderá ser
tranqüilamente transferida para os "trotskistas". Eis como o Daily Worker
inicia (em 6 de maio) seu comentário da questão:
Um grupo minoritário de anarquistas, na segunda e na terça
feira, tomou e procurou manter os edifícios de telefones e
telégrafos, e começou a abrir fogo contra o povo nas ruas.
Não há coisa alguma comparável a um começo no qual foram invertidos
os papéis. Os Guardas Civis atacaram um edifício guardado pela C . N .
T., de modo que esta é representada como atacando seu próprio edifício
- atacando a si própria, na verdade. Por outro lado, o Daily Worker de li
de maio afirma o seguinte:
O Ministro Catalão Esquerdista, de Segurança Pública,
Aiguade, e o Socialista Unido Comissário Geral de Ordem
Pública, Rodrigue Salas, mandaram a polícia armada
republicana ao edifício da Telefônica para desarmar os
empregados da mesma, a maioria dos quais membros dos
sindicatos da C. N. T.
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Isso não parece concordar muito com a primeira afirmação, mas ainda
assim o Daily Worker não apresenta qualquer admissão de que sua
primeira notícia estivesse errada. O Daily Worker de 11 de maio declara
que os folhetos dos Amigos de Durruti, renegados pela C. N . T.,
surgiram em 4 e 5 de maio, durante a luta. A Inprecor (22 de maio)
informa que eles apareceram em 3 de maio, antes da luta, e acrescenta
que "diante desses fatos" (o aparecimento de diversos folhetos).
A polícia, tendo à sua frente o próprio Prefeito da Polícia, ocupou o
centro telefônico na tarde de 3 de maio. A polícia recebeu tiros enquanto
cumpria seu dever. Isso foi o sinal para que os provocadores iniciassem
os tiroteios em toda a cidade.
E eis o que afirma a Inprecor, em 29 de maio:
Às três horas da tarde o Comissário de Segurança Pública,
Camarada Salas, dirigiu-se ao Centro Telefônico, que na noite
anterior fora ocupado por uns 50 membros do P. O. U. M. e
diversos elementos incontroláveis.
Tudo isso parece bastante curioso. A ocupação do Centro Telefônico por
50 membros do P .O. U . M. é o que se poderia chamar uma
circunstância pitoresca, sendo de esperar que alguém o notasse na
época. No entanto, parece que só se descobriu três ou quatro semanas
mais tarde. Em outra edição de inprecor os 50 membros do P .0. U . M.
tornam-se 50 milicianos do P .0. U. M. Seria difícil juntar um número
maior de contradições do que as encontradas nessas primeiras e curtas
passagens. Em certo momento a C . N . T. ataca o Centro Telefônico, no
seguinte ela própria está sendo atacada ali mesmo; surge um folheto
antes da tomada do Centro, e ele constitui a causa do acontecimento ou,
de forma alternada, aparece depois do fato e constituí resultado dele; a
gente no Centro Telefônico é formada, alternadamente, por membros da
C.N.T. e membros do P.O.U.M. - e assim por diante. E em outra edição
posterior do Daily Worker (3 de junho) o Sr. J. R. Campbell vem nos
informar que o Governo somente se apoderou do Centro Telefônico
porque as barricadas já se encontravam em pé!
Por questão de espaço citei apenas os relatórios sobre um incidente,
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mas as mesmas discrepâncías são encontradas em todas as narrativas
publicadas pela imprensa comunista. Existem, além disso, diversas
afirmações que constituem pura falsificação inventiva. Eis, por exemplo,
alguma coisa citada pelo Daily Worker (7 de maio) e tida como emitida
pela Embaixada espanhola em Paris:
Um traço significativo do levante foi o de que a velha bandeira
monarquista esteve hasteada no sobrado de diversas casas em
Barcelona, sem dúvida na crença de que os participantes no
levante já se haviam tornado senhores da situação.
O Daily Worker provavelmente publicou tal afirmação em boa fé, mas os
responsáveis pela mesma na Embaixada espanhola devem ter mentido
delíberadamente. Qualquer espanhol compreenderia a situação interna
de seu país melhor do que isso. Uma bandeira monarquista em
Barcelona! Eis uma coisa que poderia ter unido as facções em guerra no
mesmo instante de seu aparecimento. Até os comunistas presentes à
cena dos distúrbios riram quando leram isso. Acontece o mesmo com os
relatos nos diversos jornais comunistas sobre as armas que se afirmou
foram usadas pelo P. 0. U. M. durante o "levante". Isso só seria crível
para alguém que nada conhecesse sobre os fatos. No Daily Worker de
17 de maio o Sr. Frank Pitcairn afirma:
Havia, na verdade, todos os tipos de armas utilizadas por eles
naquela empreitada infame. Havia as armas que roubaram
meses seguidos, e escondido, e havia armas como tanques de
guerra, que roubaram dos quartéis logo ao início do levante.
Torna-se claro que grande número de metralhadoras e alguns
milhares de fuzis continuam ainda em seu poder.
A Inprecor de 29 de maio