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em seu cimo. A chamada linha de frente ziguezagueava de um
para outro lado, numa conformação que seria de todo ininteligível, não
houvesse cada posição hasteado sua bandeira. As bandeiras do
P.O.U.M. e P.S.U.C. eram vermelhas, as dos anarquistas rubro-negras.
Via de regra os fascistas hasteavam a bandeira monarquista (vermelho,
amarelo e vermelho), mas de vez em quando exibiam a bandeira da
República (vermelho, amarelo e púrpura). O cenário era estupendo, para
quem pudesse esquecer que em cada cimo de morro havia soldados e
se achava, portanto, semeado com latas vazias e emplastrado com
bosta. A nossa direita a sierra tomava o rumo sul-leste e abria caminho
para o vale amplo e cheio de veias que se estendia até Huesca. Em meio
àquela planície alguns cubos pequeninos estavam como dados atirados
à mesa: era a cidade de Robres, que se achava em poder dos legalistas.
Muitas vezes, de manhã, o vale se encontrava oculto por ondas de
nuvens, das quais emergiam morros achatados e azuis, dando à
paisagem grande semelhança a um negativo fotográfico. Além de
Huesca viam-se mais morros da mesma formação que o nosso, com
faixas de neve que modificavam-se a cada dia. Mais além viam-se os
picos monstruosos dos Pirineus, onde a neve jamais se derrete, e que
pareciam flutuar em cima de coisa nenhuma. Até mesmo lá embaixo na
planície tudo parecia morto e nu. Os morros à nossa frente eram
cinzentos e enrugados como a pele de elefantes e o céu estava quase
sempre desprovido de pássaros. Não acredito conhecer outro país onde
seja menor o número de aves no céu. As únicas que pude ver em
qualquer ocasião eram um tipo de pega, e os bandos de perdizes que
assustavam a gente de noite, com seu ruído repentino e, rarissimas
vezes, os vôos de águias que adejavam lentamente lá em cima, sendo
em geral acompanhadas pelos disparos de fuzis, aos quais não se
dignavam prestar qualquer atenção.
A noite e com tempo enevoado eram mandadas patrulhas ao vale entre
nós e os fascistas. Essa missão não desfrutava grande simpatia, pois
fazia frio demasiado e era facílimo perder-se o caminho, e logo verifiquei
que podia obter folga para sair em patrulha tantas vezes quantas
quisesse. Naquelas ravinas imensas e de traçado irregular não havia
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trilhas ou rastos de qualquer tipo, e só se podia seguir caminho fazendo
jornadas sucessivas e anotando os pontos observáveis de cada vez. Em
linha reta, o posto fascista mais próximo estava a setecentos metros do
nosso, mas essa distância estendia-se por 2.400 metros pela única
passagem praticável. Era bastante divertido andar pelos vales escuros,
com as balas perdidas passando muito acima da cabeça, como um
escocês de saiote a assoviar. Melhor ainda do que à noite era fazê-lo
durante o nevoeiro espesso, que muitas vezes durava todo o dia e
costumava ficar preso em volta dos topos de morro, deixando os vales
bem claros. Quando se estava nas proximidades das linhas fascistas, era
preciso andar em passo de cágado, sendo bem difícil mover-se em
silêncio naquelas encostas, entre os arbustos quebradiços e pedras que
faziam ruído se pisadas. Foi apenas na terceira ou quarta tentativa que
consegui achar o caminho para as linhas fascistas. O nevoeiro estava
bem denso, e subi até ao arame farpado para escutar. Dava para ouvir
os fascistas conversando e cantando lá dentro. Depois disso, descobri
com alarme que diversos deles vinham descendo o morro em minha
direção. Encolhi-me atrás de um arbusto que repentinamente parecera
tornar-se pequeno demais, e procurei engatilhar o fuzil sem barulho. Mas
eles tomaram outro rumo e não chegaram a um ponto do qual pudessem
me descobrir. Por trás do arbusto onde me escondera, encontrei diversos
remanescentes da luta anterior - uma pilha de cartuchos vazios, um boné
de couro furado por bala e uma bandeira vermelha, que evidentemente
era das nossas. Levei-a de volta à posição, onde foi
sem-cerimoniosamente transformada em trapos para limpar as coisas.
Eu fora promovido a cabo, assim que chegamos à linha de frente, e
estava no comando de uma guarda de doze homens. Não se tratava de
sinecura, principalmente no início. A centúria era um agrupamento sem
treinamento, composto principalmente de adolescentes. Aqui e ali, na
milícia, achavam-se meninos de onze ou doze anos de idade, em geral
refugiados do território fascista que se alistaram como milicianos por ser
o meio mais fácil de sobreviver. Via de regra eram empregados no
trabalho mais leve da retaguarda, mas às vezes conseguiam chegar à
linha de frente, onde constituíam um perigo para todos. Lembro-me de
um jovem animalzinho que atirou uma granada de mão à fogueira do
abrigo "só para divertir-se". Em Monte Focero não creio que houvesse
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qualquer elemento com menos de quinze anos de idade, mas a idade
média deve ter orçado bem abaixo dos vinte anos. Os rapazes dessa
idade jamais deveriam ser mandados à linha de frente, pois não
conseguem agüentar a falta de sono que constitui traço inseparável da
guerra de trincheiras. De inicio foi quase impossível manter nossa
posição com guarda adequada à noite. Os meninos de minha seção só
podiam ser tirados do sono quando os puxávamos para fora do abrigo
pelos pés, e assim que lhes voltávamos as costas eles largavam os
postos e regressavam ao abrigo, e conseguiam até mesmo encostar-se
na parede da trincheira e ferrar no sono, a despeito do frio horrível.
Felizmente o inimigo não era gente das mais empreendedoras, e houve
noites nas quais acredito que nossa posição poderia ter sido tomada por
vinte escoteiros armados com espingardas de ar comprimido, ou vinte
bandeirantes armadas com raquetes.
Naquela altura, e por muito tempo depois disso, as milícias catalãs
encontravam-se ainda em base muito parecida àquela em que estiveram
no início da guerra. Nos primeiros dias da revolta de Franco as milícias
foram apressadamente formadas pelos diversos sindicatos e partidos
políticos, e cada qual era, em sua essência, uma organização política,
devendo obediência tanto a seu partido quanto ao Governo central.
Quando o Exército Popular, que era um exército "não-político"
organizado em linhas mais ou menos comuns, se formou ao início de
1937, as milícias partidárias ficaram teoricamente incorporadas a ele.
Mas por muito tempo as únicas transformações que tiveram lugar
ocorreram apenas no papel, e os soldados do novo Exército Popular não
chegaram à frente de Aragón senão em junho, e até então o sistema de
milícias continuou inalterado. O ponto essencial do sistema era a
igualdade social entre oficiais e soldados. Todos, de general a soldado
raso, recebiam o mesmo soldo, comiam a mesma comida, usavam as
mesmas roupas e misturavam-se em pé de absoluta igualdade. Quem
quisesse dar um tapa nas costas do general comandante da divisão e
pedir-lhe um cigarro podia fazê-lo, e ninguém achava isso fora do
comum. Em teoria, pelo menos, cada milícia era uma democracia e não
uma hierarquia. Entendia-se que as ordens eram para ser obedecidas,
mas entendia-se também que quando se dava uma ordem, dava-se
como um camarada a outro, e não como superior ao inferior. Havia
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oficiais e graduados, mas não a hierarquia militar no sentido comum,
nem títulos, distintivos, bater de calcanhares e continências. Procuraram
criar, dentro das milícias, um tipo de modelo operante e temporário da
sociedade sem classes. Está claro que não existia uma igualdade
perfeita, mas uma aproximação a isso, a maior aproximação que eu já
vira até então, ou pensara ser possível em tempo de guerra.
Estou pronto a reconhecer, entretanto, que à primeira vista o estado de
coisas na linha de frente causou-me horror. Com todos os demônios,
como seria possível ganhar a guerra com um exército daquele tipo? Era
o que todos indagavam na época, e embora