NÓBREGA  Vandick Londres da. Direito Romano. Organização Judicial  Ações da Lei  Processo Formulário
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justiça do Estado
não se processou de um jato, mas paulatinamente. Monier7
distingue quatro fases nessa evolução, que culminou com
a abolição completa da justiça privada. Na primeira fase,
verifica-se a regularização da justiça privada, sem interfe-
rência do Estado, que somente intervinha quando as par-
tes colocavam a questão no terreno religioso; a segunda fase
é a do arbítrio facultativo, competindo à vítima escolher
entre a vingança privada e uma composição com o autor
do delito; a terceira é a da arbitragem obrigatória imposta
pelo Estado; e, finalmente, a última fase é a da abolição
completa da justiça privada.
Se o Estado fosse considerado ofendido e não obtivesse
satisfação, recorreria à guerra.
Qualquer magistrado romano poderia determinar, sem
processo, a retomada de bens do Estado, dos quais um par-
ticular se houvesse apropriado.
Magistrados \u2014 O magistrado incumbido de distribuir ajustiça na Realeza era o rei que, como observa Girard10,
possui na plenitude de sua pompa, uma série de prerrogati-
vas que não vislumbramos entre os magistrados republicanos.
O rei tinha um poder constitucional, que Salústio u, qualificou
de imperium legitimum.
Na qualidade de chefe único, dotado de plenos poderes
civis, militares e religiosos, o rei decidia questões de jurisdi-
ção civil e criminal. Graças aos poderes absolutos de que se
encontrava investido, ele podia distribuir a justiça, fazer con-
sulta ao povo nos comícios e oferecer sacrifícios aos deuses.
Todavia, não podia exercer simultaneamente essas atribui-
ções. Daí concluirmos que um processo criminal ou civil não
podia ser julgado enquanto o rei estivesse num comício. A
fim de facilitar a distribuição dessas vastas atribuições, foi
organizado, na época de Numa, um calendário, no qual os
dias em que se podia recorrer à justiça eram assinalados com
um F, isto é, dies fasti. Nesses dias o rei se dedicava à admi-
nistração da justiça e devia comparecer ao tribunal, situado
no comitium, que ficava entre a cúria Hostilia e o Fórum.
Cerca de quarenta dias eram reservados à distribuição
da justiça, os quais recaíam nas calendas (1<? dia de cada
(10) GIRARD, Paul Frédáric \u2014 op. cit. pág. 10.
(11) SALÚSTIO \u2014 Catilina, VI, 6.
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mês), nonas (5 ou 7 de cada mês) e no dia seguinte às ca-
lendas, nonas e idos (13 ou 15 de cada mês).
Os dias assinalados com um C, isto é, dies comitiales,
podiam ser dedicados aos comícios ou à justiça e o seu núme-
ro atingia a cerca de duzentos.
Havia, ainda, uns cinquenta dias dedicados aos sacri-
fícios expiatórios, nos quais não se permitia reunião dos co-
mícios, nem a administração da justiça. Esses dias eram
assinalados no calendário com um N para indicar os dies
nefasti.
Finalmente, no fim duma semana de oito dias, havia um
dedicado aos mercados \u2014 nunãinae.
As vezes o litígio era apenas simulado e a intervenção
do magistrado visava, apenas, à concretização durn negócio,
de comum acordo com as partes. Era a iurisdictio voluntária,
que podia ser exercida pelos magistrados superiores.
Na iurisdictio contentiosa, porém, não havia ficção e uma
solução devia ser encontrada para o litígio. O exercício da
iurisdictio era representado por três palavras: \u2014 ao, ãico,
aããico.
Do \u2014 Depois de ouvir as partes, o magistrado ratificava
a escolha do juiz escolhido para resolver a questão \u2014 dar e
iuãicem.
Dico \u2014 O magistrado atribuía a uma das partes a posse
intermediária de coisa em litígio: \u2014 ãicere vindictas.
Áãdico \u2014 O pretor adjudicava ao autor a coisa objeto de
litígio, se o réu não se defendesse satisfatoriamente.
Até o ano 367a.C., data da criação da pretura, a juris-
dição contenciosa era exercida pelos cônsules, também cha-
mados de pretores. O campo de ação dos cônsules era limi-
tado pelo sistema da colegialidade, responsabilidade e dele-
gação .
O sistema da colegialidade consistia no veto aposto polo
outro cônsul, mesmo não estando em exercício, à ded.suo tio
seu colega em exercício. Esta restrição não havia no período
real, quando as decisões do rei não sofriam qualquer limitação.
O sistema da responsabilidade consistia em obrigá-lo a
obedecer a normas legais, quer no campo criminal como no
cível.
Finalmente, não podia o cônsul julgar o litígio, pois era
obrigado a transferir o julgamento do processo a outrem.
COMPÊNDIO DE DIREITO ROMANO-I 397
Com a criação da pretum no ano Hfl7a,C,, na cônsules
perderam a jurisdição contenciosa qun, como otw^rv» Qlmrd '&quot;
\u2014 foi, pela primeira vez, separada da JurlncliçAn
Esse pretor, chamado iniciahnonU' de pretor urbano, ficou
incumbido da administração da justiça com as mttnmuM «w-
trições, quanto à subordinação às leis, que tinham os cônsules.
O pretor urbano \u2014 praetor qui inter eives ius dicil --
ficou com a jurisdição entre cidadãos e quando se tratasse
de processo entre cidadãos e não cidadãos ou entre não ci-
dadãos a competência passou a ser do pretor peregrino \u2014
chamado praetor qui inter peregrinos ius dicit \u2014 na Repú-
blica e praetor qui inter eives et peregrinos ius dicit, no Im-
pério .
Com a criação da pretura no ano 367 a.C. para ela pas-
saram algumas atribuições até então da competência dos
edis curuis. Estes últimos, juntamente com os edis da plebe
exerciam funções de polícia da cidade seguindo os modelos
gregos, mas não nos consta tivessem eles jamais a jurisdição
voluntária.
Todavia, eles tiveram a jurisdição contenciosa num sen-
tido restrito.
Girard u, com sua autoridade incontestável na matéria,
diz que um dos problemas mais embaraçosos da história do
processo civil é o da competência dos edis curuis antes da
história do processo formulário.
Os governadores das províncias exerciam a jurisdição
voluntária bem como a contenciosa. As províncias formavam
circunscrições judiciárias especiais, nas quais os cidadãos e
não cidadãos flcnvain .submetidos à iuil,orldnd<< rio Governa-
dor. Esto onx, Inlclulmcnlin, un i prtilor portando puni N^r
onvlndo purn n província. ()« donutlN nolpjíwm f l r u v n m uni
Romu [Mini oxcircnr M fnni;otv« < l r pretor i ir lm,no, p ralo r p«r«
grlno, prH,nr rcjiftundnrnin f in miilArln, cr iminal .
A JiirlNíllçfto niunlcl|)iil cru nxnrcldu pnlon mnKl«l,nu1o«
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as funções edilicianas: duo viri iuredicanão et duo viri eãilitia
potestate.
Os juizes e os tribunais permanentes \u2014 O juiz é um
iuãex unus, que pode ser um simples cidadão designado de
comum acordo pelas partes. Observa Kaser12 que o juiz dá
raaão a uma parte e a outra, nega-lhe. Além desse juiz único
devemos mencionar, o arbiter, que pouco diferia do primeiro.
Não resta a menor dúvida de que iuãex e arbiter são fun-
ções desempenhadas por diferentes pessoas1S.
Todavia, podemos apresentar alguns pontos em que se
faz notar alguma diferença, quanto ao número e quanto aos
poderes.
Quanto ao número, o iudex era sempre único, ao passo
que o arbiter, embora fosse geralmente único, houve casos
em que notamos a designação de três árbitros.
Quanto aos poderes, o iuãex deve limitar-se rigorosamente
à questão como lhe foi apresentada, sem poder modificar os
seus termos, ao passo que o arbiter podia apreciar e manifes-
tar-se sobre todos os debates, merecendo de Cícero a quali-
ficação de órgão da moderação e da doçura, em oposição
ao iudex, considerado órgão do rigor, de Interpretação rigorosa.
O iudex era nomeado pelo magistrado, com aquiescência
das partos.
Se as partes litigantes concordassem com a designação
de determinado juiz, nenhuma dificuldade surgiria e o nome
por elas indicado seria nomeado pelo magistrado. Se, porém,
houvesse divergência, a escolha deveria recair num nome
constante de lista retirada dentre os que figuravam no álbum
iudicum.
Inicialmente, apenas os senadores figuravam no álbum
iuãicum. A lei Semprônia judiciária, do ano 123 a.C. modifi-
cou a constituição