NÓBREGA  Vandick Londres da. Direito Romano. Organização Judicial  Ações da Lei  Processo Formulário
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positiva.
Perante esse "background" uma intepretação plebis-
citaria das legis actiones se torna completamente inacreditá-
(1) SCHMILLIN, Bruno. Zta Bedeutunê der Legis Actio: Geseízes-
oder Spruchklate?. In Tijdschrift voor Rechtsgeschiedenis XXXYIH
(1970), pág. 367 e segs.
COMPÊNDIO DE DIREITO ROMANO-I 403
vel. Com exceção das Doze Tábuas, a legislação na Roma
antiga, teve um papel modesto, dependendo de um acaso po-
lítico. O peso principal da evolução do direito privado está
\u2014 bem guardadas por pontífices e juristas \u2014 nas reservas
sempre evoluídas de atos e formas jurídicas, das quais fazem
parte as legis actiones e suas sollemnia verba. A denomina-
ção legis actio \u2014 lege agere explica tudo isto.
Diversas fases do processo \u2014 O processo, na fase das
ações da lei exigia uma série de providências preliminares,
a cargo do autor, e passava por duas fases: \u2014 in iure e apud
iuãicem.
a) PROVIDÊNCIAS PRELIMINARES \u2014 A convocação do réu
para comparecer em Juízo ficava a cargo do autor. Trata-
va-se, inicialmente, dum conlite formulado ao réu, para que
comparecesse a juízo. Era, segundo Noailles 2, o chamamento
ao tribunal \u2014 in ius vocatio, formalidade imposta ao autor,
que consistia numa prerrogativa concedida ao réu, por meio
dum convite benévolo, para evitar a manus iniectio. Se hou-
vesse recusa do interpelado \u2014 ni it \u2014 seriam tomadas teste-
munhas \u2014 antestamino \u2014 e, em seguida, o autor devia se-
gurar o réu \u2014 em capito. Se, não obstante as testemunhas
e, apesar de se encontrar seguro, o réu não quisesse ir de boa
vontade e continuasse a opor resistência, quer por meio de
inércia ou de outras astúcias, quer por tentativa de fuga \u2014
si calvitur pedemve struit, o autor faria uso dum remédio
que estava a seu alcance. Era a manus iniectio vocati.
Se a moléstia ou a velhice não permitisse a alguém com-
parecer perante o magistrado, o autor devia colocar à sua
disposição um animal de carga; se não o aceitasse, não se
deveria oferecer-lhe uma liteira.
O réu podia deixar de ir pessoalmente à presença do ma-
gistrado, se apresentasse um fiador \u2014 vindex \u2014, que iria em
seu lugar.
b) FASE "IN IUBE" \u2014 Com o comparecimento do réu,
levado pelo autor, à presença do magistrado, tinha início a
fase in iure do processo. Se as partes entrassem num enten-
dimento, deveria ser proclamado oficialmente esse acordo.
Se, porém, não houvesse entendimento, o magistrado devia
tomar conhecimento da causa antes do meio dia, no comício
ou no foro, depois de ouvir as partes presentes.
(2) NOAILLES, Pierre \u2014 Lês procès de Virgirúe. In REL, Tome
1942 pág. 106-108.
ffl
404 VANDICK L. DA NOBREÇA
As partes expunham o motivo da demanda \u2014 causae
coniectio \u2014 e uma exposição contraditória era feita pelos
advogados \u2014 causae peroratio.
No caso de tratar-se, por exemplo, de reivindicar um
escravo, o autor, isto é, aquele que reivindicava \u2014 qui vindi-
cabat \u2014 tocava o escravo com uma vara \u2014 festuca e pro-
nunciava as seguintes palavras: \u2014 hunc ego hominem ex
iure Quiritium meum esse aio; secundum suam causam, sicut
ãixi, ecce tibi vináictam imposui. (Afirmo que este homem
me pertence pelo direito dos Quirites; segundo sua causa
assim disse e eis que te impus a vindicta). Era a mnãicatio.
Em seguida o réu proferia as mesmas palavras. Era a con-
travindicatio. Nessa ocasião era designado o iuãex que, com
o advento da lei Pinaria, passou a ser indicado 30 dias depois.
c) FASE "APUD IUDICEM" \u2014 Nomeado o iuãex, deveriam
as partes litigantes, autor e réu, comparecer à sua presença
três dias depois: \u2014 Postea tamen quam datus est (iuãex)
comperenãinum ãiem ut aã iuãicem venirent demintiabat
(Gaio IV, 15).
E' possível que as partes repetissem perante o juiz atos
praticado na fase in iure, perante o magistrado3.
Se depois do meio dia, somente uma parte houvesse com-
parecido, a esta devia ser adjudicado o objeto em litígio: \u2014
Post meriãiem praesenti litem aãdicito. Rudorff4 julga que
esta disposição se aplicava à fase do processo perante o ma-
gristrado, isto é, in urire, mas Wlassak5, já esclareceu que se
tratava de norma disciplinadora da fase apud iudicem.
Produzidas as provas, o iuãex proferia a sentença, con-
denando ou absolvendo o réu. Na hipótese de ter sido o réu
condenado e não querer submeter-se à decisão do juiz, não
dispunha este de elementos para a execução de sua sentença.
Neste caso, o autor deveria utilizar-se de uma das modalida-
des das ações da lei, a actío per manus iniectionem com a
qual conseguiria a execução da sentença proferida a seu favor.
(3) LSVY-BRTJHL, Hanri \u2014 Rschsrches sar /es acfionc de Ia loi \u2014
R. Sirey. Paris 1360 pág. 208.
(4) RUDORFF \u2014 Rõmische Eechtsgvschichta, Turno II, pás- 79.
(5) WLASSAK, M. \u2014 Der Gerichtsmagizírat im Éesetzlichsn Spr.sch-
verfafu-en. In ZSS, 25 pág. 94.
COMPÊNDIO DE DIREITO ROMANO-I
CLASSIFICAÇÃO DAS AÇÕES DA LEI \u2014 As açóes da
lei são cinco:
a) legis actio per sacramentum;
b) legis actio per conãictionem;
legis actio per iuãicis arbitrwe postulationem;
legis actío per manus iniectionem;
legis actio per pignoris capionem.
c)
ã)
e)
As três primeiras ações da lei visavam a obter uma con-
denação, e as duas últimas eriam usadas em fase de execução.
Legis acíio per sacramenram \u2014 A legis actio per sa-
cramentum era a lei geral, qi^e davia ser aplicada sempre
que uma lei expressa não permitisse recorrer a outra. A
única fonte que nos fornece informações sobre a legis actio
per sacramentum é Gaio nas Instituías (IV, 13 e segs.), mas
esta passagem, infelizmente, não está completa no manus-
crito, pois faltam cerca de vinte linhas.
Esta ação da lei pode ser usada para fazer valer o di-
reito sobre uma coisa \u2014 sacramentum in rem \u2014 como tam-
bém para exercer uma atividade contra uma pessoa \u2014 sa-
cramentum in personam.
O SACHAMENTUM IN BEM \u2014 A legis actio per sacra-
mentum exige a presença das partes, uma vez que, nas ações
da lei, não há processo por falta de comparecimento da
parte. A presença do adversário é assegurada mediante uma
forma de citação \u2014 a in ius vocatio. \u2014 Se o adversário não
quisesse comparecer, o autor poderia empregar a força para
compeli-lo a atender o chamamento em juízo.
O processo era chamado in rem na acepção material
do termo, isto é, sobre a coisa, porque a coisa objeto do li-
tígio deveria ser levada à presença do magistrado.
Se duas partes pretendessem a propriedade sobre um
escravo, por exemplo, tanto uma como outra deveria, na pre-
sença do magistrado, pronunciar as seguintes palavras:
"Eu digo que este homem me pertence, segundo o direito
dos Quirites". "Hunc ego hominem ex iure Quiritum mcum
esse aio". Pronunciadas estas palavras, cada uma das par-
tes tocava o escravo com uma varinha \u2014 festuca \u2014 que mu n
tinha na mão. Esta varinha representava uma lança e em
o símbolo da propriedade, porque a terra devia ser defen-
dida com a arma na mão.
406 VANDICK L. DA NÓBREGA
Em seguida o magistrado dizia: \u2014 "Deixai o homem"
\u2014 Mittite ambo hominem. As duas partes interrogavam-se
reciprocamente, porque faziam a vinãicatio e a contra vin-
dicatio: postulo anne dicas ex causa vinãicaveris. O pri-
meiro vindicante então dizia: "Porque vindicaste injusta-
mente, eu te desafio a um sacramento de quinhentos asses".
\u2014 Quando tu iniuria mndicavisti, D aeris sacramento te
provoco. O adversário fazia o mesmo "et ego te". Se o valor
da coisa fosse inferior a mil asses, o sacramento seria ape-
nas de cinquenta asses.
As partes deviam apresentar cauções do sacramento \u2014
praeães sacramenti \u2014 isto é, uma garantia de que o sacra-
mento seria pago pela parte que perdesse o processo. O ma-
gistrado confiava a posse provisória da coisa objeto do li-
tígio a uma das partes, que, por sua vez, devia dar ao adver-
sário unia garantia de sua restituição: \u2014 praeães litis et
\u2022vinãiciarium.
Confiada a posse intermediária ou provisória a uma
das partes, estava, ipso facto, quase concluída a fase in iure
do processo que se completaria com a designação do juiz.
A lex Pinaria determinava que o juiz fosse nomeado depois
de trinta dias. Decorrido este prazo, as partes voltariam à