NÓBREGA  Vandick Londres da. Direito Romano. Organização Judicial  Ações da Lei  Processo Formulário
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processos dessa natureza, o pretor
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peregrino redigiria uma fórmula na qual teria dito aos juk
zes como estes deveriam proceder. Esta teoria tem, pelo me.
nos, o mérito de não entrar em contradição com o texto de
Gaio sobre o assunto.
Hipótese de Gii-ard \u2014 Se a fórmula foi usada antes da
lei Ebúcia, comenta Girard3, nos processos sob a juris-
dição do pretor peregrino, isto aconteceu por imitação de
instituições das províncias, uma importação do que já se
praticava desde a conquista romana em certas províncias,
talvez sob a influência de precedentes tirados do direito lo-
cal. Cícero, nas Verrinas II, 2, 15 diz que na Sicília, nos
processos submetidos à jurisdição do governador, se obser-
vava um ato preliminar chamado \u2014 ãicam scribere. Este
ato era seguido de outro chamado dicarum sortitio, isto é
a tiragem das ações por sorte.
A "Lex Aebutia" \u2014 A data da lei Ebúcia não pode ser
determinada, mas, de acordo com as investigações de Gi-
rard4, que refutou com visível superiodade opiniões contrá-
rias de Wlassak e outros, podemos situá-la entre os anos
605 e 629 da fundação de Roma. A primeira data indica
a época mais longínqua a que podemos chegar sem que
houvesse qualquer indício do uso da fórmula; e a segunda
assinala a época a partir da qual distinguimos evidentes e
constantes vestígios dos novos poderes do magistrado.
Bekker é de opinião que a lei Ebúcia admitia para cada
pedido concreto o exercício simultâneo dos dois processos:
\u2014 a legis actio e uma fórmula.
A explicação de Wlassak sobre este assunto é mais con-
vincente e foi, até certo ponto, aceita por Girard. A lei Ebú-
cia teria estabelecido um processo seletivo entre o processo
novo e o antigo. Competia ao magistrado exercer o con-
trole sobre essa escolha. O pretor podia sancionar uma pre-
tensão nova concedendo uma fórmula, como também para-
lisá-la baseado num poder novo que lhe permitia ãenegare
legis actionem.
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(3) GIRARD, \u2014 Manuel élémentaire de Dioit Romain p. 1.065.
(4) GIRARD \u2014 Mélanges I 'La date de Ia loi Aebutia", pág. 67
scgs.; '-Nouvelles observations sui Ia loi Aebutia", pág. 114 e segs.
As leis Júlias \u2014 Ás leis judiciárias, segundo informa-
ção de Gaio, aboliram as ações da lei, e tornaram ofori°-a
tória a fórmula, exceto em dois casos: \u2014 nos processos pe-
rante o Tribunal dos Ceníúnviros, e quando se tratasse de
damnum infectum.
São leis sobre indicia privata e indicia publica, havendo
Gaio referido a elas como se fossem um todo.
Houve quem atribuísse, erroneamente, essas leis a Cé-
sar, em consequência de confusão feita entre a lex lulia
de vi publica e a lex lulia de vi privata.
As duas leis Júlias são posteriores à lei lulia de ma-
ritanãis orãinibus, do ano 736, da fundação de Roma.
A MARCHA DO PROCESSO
A INSTANCIA \u2014 A instância, na época clássica, fica
submetida à ardo iuãiciorum privatorum. Devemos estabe-
lecer a distinção entre os iuãicia legitima e os indicia impé-
rio continentia. Os iuãicia legitima abrangem as instâncias
organizadas em Roma pelo magistrado entre cidadãos ro-
manos, ficando a decisão confiada a um iudex unus; os de-
mais indicia são império continentia e compreendem as ins-
tâncias que se apoiam no imperium do magistrado.
A representação \u2014 Um dos traços característicos do pro-
cesso formulário consiste em poderem as partes comparecer
em pessoa, ou por meio de um representante. Trata-se de
inovação, porque no processo das ações da lei sabe-
mos que nemo alieno nomine agere potest.
A representação podia ser ativa ou passiva, conforme o
representado fosse o autor ou o réu.
Preliminarmente admitiu-se o cognitor, que era um
mandatário ad litem. Este mandatário devia ser instituído
pela respectiva parte diante do magistrado in iure e de acordo
com uma fórmula oral e solene. Em seguida, admitiu-se um
mandatário geral \u2014 procurator \u2014 sem as restrições do cog~
nttor, cujos poderes se restringiam a cada caso.
A fim de evitar que o autor, sob a alegação de que o
seu representante não havia procedido diligentemente, qui-
sesse renovar o processo, exigia-se do representante ativo a
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obrigação de obter do representado a ratificação da sentença:
\u2014 satisdatio ratam rem ãominum habiturum ou simples-
mente cautio de rato.
O cognitor, na representação ativa, não podia apresen-
tar a cautio de rato.
No caso da representação passiva, o risco consistia em
que o representante do réu não fosse solvável, na hipótese
de ser condenado. A fim de evitar este risco, o autor obri-
gava-o a fornecer a cautio iuáicatum solvi. Esta cautio iiidi-
catum solvi, na representação passiva, era apresentada pelo
dominus liiis, se o representante fosse urn cognitor, ou pelo
próprio procurator, se o representante fosse o procurator.
Os efeitos da ação se produziam sobre a pessoa do re-
presentante, e não sobre a do dominus litis.
A citação \u2014 A citação ainda conservava o caráter pri-
vado, pois ficava a cargo do autor. O emprego da força, para
obrigar o réu a comparecer, foi abolido e, em seu lugar, sur-
giram novos processos: \u2014 o vaãimonium; uma ação preto-
riana in factum e a actionis eãictio.
O vaãimonium era a promessa de comparecer perante
o magistrado, numa data fixa, compromisso este feito pelo
réu, muitas vezes por meio de cauções. O vaãimonium se
fazia de várias maneiras, por uma nuãa repromissio ou por
uma satisãatio, como nos ensina Gaio. Havia uma pergunta
do autor e uma resposta do réu; se o réu não apresentasse
o vadimonium, o autor, em lugar de empregar a força fí-
sica, podia valer-se de uma ação penal pretoriana de que
nos fala a lei Rúbria. Surgiu, entre os romanistas, a seguinte
dúvida: o vaãimonium se aplicaria para garantir o primeiro
comparecimento perante o magistrado, ou sã usaria apenas
no caso de não ser a audiência concluída no mesmo dia?
Parece fora de dúvida que, na época das ações da lei, somente
se empregava o vaãimonium para assegurar os compareci-
mentos posteriores, e nunca o primeiro, mas na época do pro-
cesso formulário era usado em ambas as circunstâncias.
Alguns romanistas, apoiados em textos interpolados do
Digesto II, 6, julgaram que o réu podia, mediante a apre-
sentação do vaãimonium, deixar de ir à presença do magis-
trado: \u2014 in ius vocati eat aut satis vel cautum dant.
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Esta doutrina é falsa, porque se baseia em texto cla-
ramente interpolado. O único processo pelo qual se podia
deixar de ir à presença do magistrado consistia na apresen-
tação do vindex.
O autor, antes de proceder ao chamamento em juízo \u2014
in ius vocatio \u2014 podia notificar ao réu o que pretendia, a
fim de que este tivesse tempo suficiente para verificar ss
lhe convinha, ou não, enfrentar o processo: \u2014 é a actionis
edictio.
Se o réu fugisse, o autor era protegido por uma miss'o
in possessionem de seus bens.
O PROCESSO "IN JURE" \u2014 Os magistrados competen-
tes eram, em Roma, os pretores urbanos e peregrinos, fi-
cando os edis curuis incumbidos das questões dos mercados,
e, nas províncias, os governadores.
Quando as partes compareciam perante o magistrado,
o autor devia expor a sua pretensão, mas isto era feito sem
obedecer ao formalismo das ações da, lei, que obrigava o
emprego de palavras sacramentais. O autor indicava ao réu
e ao magistrado a ação que pretendia, a qual podia ser uma
ação civil ou uma ação pretoriana. Essa ação podia ser uma
podia ser uma ação que já figurava no álbum, ou não, e
neste último caso o autor, invocando o interesse de uma
boa justiça devia ser solicitada ao magistrado, que tinha
poderes para atender.
O réu podia assumir uma das seguintes atitudes:
O reconhecimento da pretensão doa) Confessio
autor;
b) Indefensio \u2014 Não se defender como devia;
c) Infitiatio \u2014 Contestar a pretensão do autor.
A confessio, em se tratando de uma quantia em dinheiro,
implicava a perda do processo: \u2014 confessus pró iadicaío
habetur; se o objeto da ação fosse outra coisa que não o
dinheiro, seria decretada a missio in possessionem, desde qua
as partes não acordassem