Robert Alexy - Teoria dos Direitos Fundamentais (Cap. 3)
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Robert Alexy - Teoria dos Direitos Fundamentais (Cap. 3)


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gue o conceito de princípio suscita menosìntéipretações equivoca-
&r que o conceito de valor. Ambos os aspectos são importantes o su-
ilciente para que se dê preferência ao modelo de princípios.
Ohjeções às teorias de princípios e de valores
0 modelo de princípios e o modelo de valores mostraram-se, na
ersência, estruturalmente iguais, exceto pelo fato de que o primei-
te silua no âmbito deontológico (no âmbito do dever-ser), e o se-
r, rro âmbito do axiológico (no âmbito do bom). Diante disso, as
;Ões iìs teorias valorativas dos direitos fundamentais podem atin-
153
t52
t,
i
latttbdrn a teoria dos princípios.
154 TEORTA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
Teorias valorativas dos direitos fundamentais eram defendidas já
na época da constituição de weimar. um dos autores mais influentes
n"rrè sentido foi Rudolf Smend. De acordo com sua conhecida for-
mulação, o "sentido substancial de um catálogo de direitos fundamen-
tais" consiste na sua pretensão de "normar uma série substantiva com
um certo grau de unidade, isto é, um sistema de valores ou de bens, um
sistema cultura1".177 Sob a Constituição atual as idéias e as formas de
expressão das teorias de valores ingressaram de forma intensa na ju-
risprudência constitucional, tendo como ponto culminante a decisão
no caso Lüth. Ainda que o Tribunal Constitucional Federal parta do
pressuposto, também nessa decisão, de que "os direitos fundamentais
ião destinados, em primeira instância, aproteger a esfera de liberdade
do indivíduo contra intervenções dos poderes públicos", ou seja, de que
eles são "direitos de defesa do cidadão contra o Estado",tt* ele acres-
centa, na mesma decisão, que "fi]gualmente correto é o fato de que a
Constituição, que não pretende ser uma ordenação axiologicamente
neutra, (...) também estabeleceu, na seção dedicada aos direitos fun-
damentais, uma ordem objetiva de valores (...). Esse sistema de valo-
res, em cujo centro se encontra o livre desenvolvimento da personali-
dade humana e de sua dignidade no seio da comunidade social, devc
valer, como decisão constitucional fundamental, para todos oS ramos
do direito".l?e No desenrolar da fundamentação da decisão, a ordettl
de valores é qualificada como "híerarquia de valores", no âmbito dlr
qual um "sopesamento" sefaznecessáriO.l80 COm iSso, fOram mencitt
nados os conceitos centrais da teoria dos valores sustentada em dive r
177. Rudolf Smend, "Verfassung und Verfassungsrecht (1928)", rn Staatsn't ltt
Iiche Abhandlungen,2u ed.,Berlin: Duncker & Humblot, 1968, p.264. Também tlt'r '.
ser mencionado Albert Hensel, Grundrechte und politische WeltanschauunS, T'tilrrrr
gen: Mohr, Lg3I,p. 10: "assim, o conteúdo de todos os ordenamentos jurídicos t' ;r
íealização de um õistema de valores políticos fundados nos direitos fundamettt;rr',
Cf. também Hans Gerber, Die weltanschaulichen Grundlagen des Staates, Sttttl;r;rtt
Enke, 1930, pp. 13 e ss.; Gerhard Leibholz, Das Wesen der Reprrisentatitm rnr't
der Gestaln ãnaa der Demokratie im 20. Jahrhundert,3a ed., Berlin: Dunckt't '!
Humblot, 1966, pp.46 e ss.; Günther Holstein, "Von Aufgaben und Zielen ltcrrlrl" r
Staatsrechtswissenschaft", AóR NF 11 (1926), pp. 29 e ss.; Erich Kaufmattrr. "ltt'
Gleichheit vor dem Gesetz im Sinne des Art.l09 der Reichsverfassung" , VVI)'\rlll I
(1927),pp.3ess.
178. BVerfrE 7, 198 (204).
179. BVerftE 7, 198 (205).
l8O. BVerfGE 7, 198 (215).
AESTRUTURADAS NORMAS DE DIREITOS FLINDAMENTAIS I55
sas decisões do tribunar: valor, ordem de varores, hierarquia de valo_res, sistema de valores e sopesamento.rsl
A avaliação que se faz dessa teoria valorativa dos direitos funda-mentais vai desde a rejeição radicar até a."i,ãóa" enfâtica.Aposiçãode rejeição é defenaioâ aã forma mais marcante por Forsthoff. segun_do ele' a teoria dos valores levaria à "dissoiuçáá o" clarezaconceitualem falatório",rB2 u yTu "p,erda não apenas de racionaridade, mas tam_bém de nível científico"]tt uuma "dissolução da lei constitucional,,e
i ."T1 eliminação do conteúdo de liberduà. ao, direitos fundamen-tais.r84 o constitucionalista nofte-americano Kommers expressou_semais recentemente de forma exatamente contrári a aceÍcade um ,.pen_samento constitucionar enraizadoem um sistema de valorer,,f rlgunooele,"agenialidade do pensamento constitucional alemão 
"stá na-qen_tificação de um tal sistema na ordem trieràrquü o. valores do Tribì_nal Constitucional Federal". r85
As objeções à teoria dos valores podem ser classificadas em trêsgrupos: filosóficas, metodológicas e dogmáticas.
2, I Objeções filosóficas
-asobjeções filosóficas dirigem-se sobre.tqdo çorrt14 o cgnceito detjetividade da teoria dos valorãs. o desenuoiui,,'ãnto mais original e
brJ,ï;iã:Jilâ".#::,T:: j:,:::rygnciadorrilularconstitucionarFederaÌ,
ii;:;:,y:3i,Ì:TÍi"1,?;;"G,;";;d;,;;ï;;;;#:;iï;:i,"ilïi:i;,|l,rr2;
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'rn,ïlïd::.Yi"i:,c^:t*D'c'ã,;;;;;':";iï'ï;il
l , p. ó9.ï 1.ï-t, 
Forsthoff, o * s tooT a", í"íi irt 
" 
i ri ã u * nãÍr, * ed.,München : Beck,
I t3' Ernst Forsthoff,." 7'ur heutigen situation einer verfassungsrehre,,, in Hansn et ut. (orgs.), Epirrhosis, Fístgabe fü, ciìi s"í*ïiiï"'rlrn, Duncker &rfrr t . f 9ó8, p.209.
It4, Ernst Forsthoff,
I trt r(\.n.. \ D^_.^^t-,,,.P:: 9-bjl9u-ng des Verfassungsgesetzes,,, in Hans Ba-,í;'j Í{Ì:q:.), lestschrtft fiir,cart-í,íãio, p. 47.,iïJ:ï1i1ï;1":ff 
i::;,:":*i:il1ísíü,N"ï.*Enrwickrungenundpro_lïlyfl:lì-ijixl:Í:iy:À*d;;;Fffiô.ffffi ilï::i,ïïã::,ïiff ïi:i:i';,3"Lfl::*':::'::::tiv1a,v1"1'ï;&;;"";;ïìiì,"ír'io;';;X';t u * v o n G e r hard Le i b ho I z, B aden_B ad"n, ú;;;;:, \ï;;'.' ;.t ;i.
15ó TEORIADOS DIREITOS FLTNDAMENTAIS
mais amplo da idéia de uma ordem objetiva de valores pode ser en-
contrado em Max Scheler.
segundo Scheler, valores não somente valem, eles têm também
um serìndependente, um "ser dos va1ores".r86 Por isso, Scheler acredi-
ta que valores podem ser qualificados como fatos ("fatos independen-
tes da vida moral";.rez Ao enunciado valorativo'oA é bom" deve cor-
responder um fato moral, da mesma forma que ao enunciado descritivo
"A é verde" deve coÍïesponder um fato empírico' "A diferença consis-
te apenas na matéria do predicado."ls8 Havendo coffespondêrrcia com
os fatos, ambos o, 
"non"iados 
são igualmente verdadeiros'r8e
A cognição dos valores deve ocolrer por meio de uma faculdade
cognoscitiva específica, descrita por Scheler com as seguintes palavras:
,.A verdadeira sede de todo valõr a priori (e também da Moral) é a
c o gnição do v alor oa intui ç ão do v alor, consffuíd a a partk do sentimen-
tojaa preferência e, sobretudo, do amiÌr e do odiar, bem como a partir
da Conexão entre valOreS, dO SeU 'ser superiOr'Ou'Ser inferiOr', isttl
é, da,cognição moral'. Essa cognição ocolre, entãO, por meio de fun-
ções e atos específicos,que são toto coelo diferentes de toda 
percepçãtt
e pensamento, e o úniCO acesso aO mundo dOS valores"'leo
uma teoria desse tipo, que, em primeiro lugar, pressupõe que "h:i
qualidades valorativas que representam um âmbito próprio de ob.ic
to$"rgt e, em segundo lugar, què supõe que esses objetos são acessívcis
a um conheciriento diréto, que não tem nem caráter empírico' ncrìì
analítico, e que podem ser mais bem descritos como um sentiÍÍìelìlo
de valore, oo 
"rp"riência 
de evidências, deve ser classificada colìrrì
..intuicionista".lef o argumento mais forte contra o intuicionismo al'ir
ma que, diante da observação de que diferentes pessoas perceherrr
diferentes valorações como evidentes, mesmo sob condições iclclrtE
païaapercepção áe evidências (como, por exemplo, ausência de c'ttt.'
186. Max Scheler, Der Formalismus in der Ethik und die materiale WarttrltrL
p. 195.
- 187. Idem, PP.I73,192 e I95'
188. Idem, P- 192.
189. Idem, P. 196.
190. Idem, P. 87.
191. Idem, P-37 .
192. Sobre t intui"ionismo, cf., com mais referências, Robert Alexy. lltt t'tis
der juristischen Argumentation, pp' 58 e ss'