Robert Alexy - Teoria dos Direitos Fundamentais (Cap. 3)
48 pág.

Robert Alexy - Teoria dos Direitos Fundamentais (Cap. 3)


DisciplinaIntrodução ao Direito I88.963 materiais555.548 seguidores
Pré-visualização31 páginas
alemã,
sobretudo porque sua resso craltzaçáo estaria ameaçada. O Tribunal
Estadual rejeitou seu pedido de medida cautelat paru proibir a exibi-
ção, e o Tribunal Superior Estadual negou provimento ao recurso contra
essa decisão. O autor ajuizou, então, uma reclamação constitucional
contra essas decisões.
Aqui interessam apenas as partes da decisão que se referem à solu-
ção da colisão entre princípios. Outros problemas, como o dos efeitos
dos direitos fundamentais perante terceiros, não serão ainda abordados.
A argumentação do Tribunal Constitucional Federal desenvolveu-se em
três etapas, o que é de especial interesse para a teoria das condições de
precedência. Na primeira etapa constatou-Se uma "situação de tensão
entre a proteção da personalidade, garantida pelo art. 2o, $ 1n, combina-
do com o art. ln, $ ln, da Constituição alemã, e a liberdade de informar
por meio de radiodifusão, nos termos do art. 5n, $ ln, 2".a6Também aqui
o primeiro princípio será simbolizado por Pr, 
" 
o segundo por Pr. Iso-
ladamente considerados, P, levaria à proibição, e P, à permissão da
exibição do programa. Esse "conflito" - como o Tribunal Constitucio-
nal Federal costuma chamar esse tipo de colisão - não é solucionadtr
por meio da declaração de invalidade de uma das duas nonnas, mas por
meio de "sopesamento", no qual nenhum dos princípios - nesse contex
to. o Tribunal Constitucional Federal chama-os de "valores constitucitr
nais" - "pode pretender uma precedência getaL". Ao contráno, é neces
sário "decidir qual interesse deve ceder, levando-se em consideraçãtl rr
configuração típica do caso e suas circunstâncias especiais".47 Utìì,,
descrição mais inequívoca de uma colisão entre princípios dificilmentt'
46. BVerjGE 35,202 (219).
47. BVerftE 35,202 (225).
A ESTRUTURA DAS NORMAS DE DIREITOS FUNDAMENTAIS 101
seria possível. Duas noÍnas levam, se isoladamente consideradas, a re-
sultados contráditórios entre si. Nenhuma delas é inválida, nenhuma
tem precedência absoluta sobre â õutra. o que vale depende da forma
como será decidida a precedência entre elas sob aluz ão .uro concre-
to.a8 É necessário notar, neste ponto, que à já mencionada variedade de
formas de se denominar os objetos do sopesâmento deverá ser acrescen-
tada mais uma, a dos "valores constitucionais".
Depois da constatação de uma colisão entre princípios cujo valo_
res abstratos estão no mesmo nível, o Tribunal Constituòional Éederal,
em um segundo passo, sustenta uma precedência geral da liberdade de
informar (&) no caso de uma "informação atual sobre atos criminosos,,(c,),on ou seja, (PrP P) cL Essa relação de precedência é interessan-
te, porque nela se süstenta apenas uma precedência geral ou básica.
lsso significa que nem toda informação aìual é permitida. A condição
tle precedência e, com isso, o suporte fâtico da iegra que conesponde
ito enunciado de preferência segundo a lei de colisão incluem umá cláu-
sttltt ceteris paribus, a qual permite o estabelecimento de exceções.
A decisão ocorre na terceira etapa. Nela, o tribunal constata que,
n() caso da "repetição do qoticiário televisivo sobre um grave crime,
4tì. Não pode haver dúvidas de que o tribunal decidiu o caso por meio de um so-
;tt'sttttìcnto entre princípios. Mas é possível indagar se esse era o únìco caminho possí-t'el li são considerações feitas pelo próprio tribúnal que dão ensejo a essa indagaçao,tltt*ttttltt ele examina se a transmissão de um programã que identificasse o reclaïnante
selin tulaquada e necessória para os objetivos peìseguioãs pela emissora ZDF. Dentre
erres trb.ictivos estão, por exemplo, o esclareòi-"úo da iopulação sobre a eficâciatfnr sttttções penais, um efeito intimidador sobre outros possíveis criminosos e um
"frrtlrrlrrcirnento da moral pública e da responsabilidade social" (BVerftE 35,202l3'f ltt l)iante disso, seria possível sustentar que o caso poderia ter sido resolvidoflirt tto rrÍvcl do sopesamento entre valores ou princípios co'nstitucionais, ou seja, nãollÊ lett'ririt ctapa da 
_máxima da proporcionalidade (cf., a respeito, Lothar HirJchber,lkt ( itttrulxüz der verhciltnismà11*nrft, Gottingen: Schwartz, 19g2, pp.2 e ss.; cf.tcfirhÉrrr . ttipico I.8, neste capítulo), mas nas etapas anteriores - da adèquação e daâft ecrrrlrrtlc (nesse sentido, cf. Bernhard-schlink, -Abwrigung im verfossuigrrrrht, p.l{f Mnr tlt'ssit f'orma teria sido possível apenas excluiï a ïoentificâção nãminal doR Inrrrilrrtr t' ir cxposição de sua imagem. Nó entanto, como o tribunal i."rrupo" lu" oF+ldflullllr tct'ilt seus direitos violados mesmo sem sua identificação nominal e semI Ft;trrtt-çri' tlc suit imagem (BVerjGE 35,202 (243)), a decisão nã terceira etapa daHËrllttrt rl;t ;ttrrlxrrcionalidade era inafastável. Somente se o tribunal não tivessË par-flCF rles?il Ptttttissit ó que seria possível solucionar o caso apenas com o auxílio dasftÉrff trnq r lrr ;rr l t .r ;rração e da necessidade.
.f r, t,ï t'r lí ìt,; \5. ZOZ (231).
102 TEORIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
não mais revestido de um interesse atual pela informação", que "colo-
ca em risco a ressocialtzaçáo do autor" (Cr), a proteção da personali-
dade (P,) tem precedência sobre a liberdade de informar (Pr)' o que'
no caso em questão, significa a proibição da veiculaçáo da notícia'5O
Nesse sentido, vale o enunciado de preferênc\a (P, P Pr) C2. Cz é
composto por quatro condições (repetição/ausência de interesse atual
pela informaçáolgrave crime/risco à ressocialtzaçáo). A regra C, + R,
que coffesponde ao enunciado de preferência, é uma rcgta com quatro
atributos de suporte fático, com a seguinte estrutura:
(6)TteTreTteTo+R.
Ou seja: uma notícra rcpetida (Zr), não revestida de interesse
atual pela informação (Ir), sobre um grave crime (Tt)' e que põe em
risco ã ressociahzaçáo do autor (Tò, é proibida do ponto de vista dos
direitos fundamentais.
Anteriormente foram designadas como normas de direitos funda-
mentais tanto as estabelecidas diretamente pela Constituição quanto
a s n orÍna s atribuídu* . t t lUg-?- rlgtna de direito fund amental atri-b-g!d4!
uma norma para cuja atribuição é poqsível uma correta fundamenta-
ção referida à direitós fundamentais. Se é possível uma correta funda-
mentação referida a direitos fundamentais para a norma que se acaba
de apresentar - algo que aqui se pressupõe -, então , eIa é uma norma
de direito fundamental. Ao mesmo tempo ela é uma regry, à gual se
podem subsumir os elementõS clo caòô õõncreto, como se fosse uma
,ror-u positiva. Foi o que aconteceu no caso tebaôh.s' Diante disso'
pode-só afirmar: como resultado de todo sopesameqto.qge s.e1a:c-gÍre-
io do ponto de- vista dos direitos fundamentais pode ser formulada
u*u nôr-a de direito fundamenta-l-atribuída, que tem estqututa de uma
regrae à qual o caso pode ser subsumido. Nesse sentido, mesmo quc
' 
toãas u, norrnus de direitòs fúndaméritals diretamente estabelecidas
tivessem a estrutura de princlplos - o que' como ainda será demons
trado, não ocorre -, ainda assim haveria norÍnas de direitos fundamclr
*tãi, 
com a estrutura de princípios e normas de direitos fundameÍìtiris
com a estrutura de regras.
50. BVerftE 35,202 (237).
51. Cf. Capítulo 2,II.2.
52. Sobre a estrutura dessa subsunção, cf. Robert Alexy, "Die logische Atrrrlt
juristischer Entscheidungen", pp. 195 e ss.
A ESTRUTURA DAS NORMAS DE DIREITOS FUNDAMENTAIS 103
Essas últimas considerações conduzem à aplicação da teoria dos
princípios à teoria das normas de direitos fundamentais. Mas, antes de
adentrar esse caminho, a análise da teoria dos princípios ainda precisa
ser aprofundada um pouco mais. Até aqui os princípios foram defini-
dos como mandamentos de otimtzação, e as regras como nonnas que
sempre ou são satisfeitas ou não o são. Dessa diferença decorrem os
diferentes comportamentos em casos de conflitos ou .óhrõ.r. A partir
de agora, é necessário analisar outras características que decorrem des-
sas características básicas, e também abordar algumas objeções que
poderiam ser feitas diretamente contra a teoria sobre conflitós e coli-
sões. As objeções