CCJ0006-WL-PA-19-Direito Civil I-Novo-34066
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e decadência, rotulando toda forma de ex\u19fnção dos direitos pelo decurso do tempo 
sob o nomen iuris  de prescrição. Isto, porém, não impediu que a doutrina e jurisprudência procedessem à separação das duas \ufb01guras jurídicas e extraíssem da dis\u19fnção enormes 
conseqüências teóricas e prá\u19fcas. 
                               Se, pois, a lei civil quis com a sanção à fraude simplesmente resguardar os credores dos prejuízos que o ato do devedor insolvente poderia acarretar -lhes, o que fez 
foi cominar- lhe uma ine\ufb01cácia rela\u19fva. Não criou uma anulabilidade, malgrado o emprego incorreto do nomen iuris utilizado. 
                               Se, porém, era compreensível o equívoco ao tempo da elaboração do Código Bevilaqua, hoje é totalmente inadmissível que o Código novo venha a repe\u19fr o mesmo 
texto anacrônico e quase centenário. 
5. Em síntese 
                               O legislador ignorou não só o avanço da ciência jurídica consolidado em amplo consenso doutrinário, como desprezou a larga construção do direito comparado ao 
longo do Século XX em torno dos planos da existência, validade e e\ufb01cácia. Códigos an\u19fgos, como o da Argen\u19fna, v.g., passaram por reforma de texto, a fim de que a fraude contra 
credores \u19fvesse seu regular enquadramento no plano de ine\ufb01cácia rela\u19fva e não mais no campo da invalidade. Deixou de ler até mesmo o que desenvolvera, entre nós, PONTES DE 
MIRANDA há mais de cinqüenta anos: 
\u201cPara que algo valha é preciso que  exista. Não tem sen\u19fdo falar-se de validade ou de invalidade a respeito do que não existe. A questão da  existência  é uma questão prévia. Somente 
depois de se a\ufb01rmar que existe é possível pensar -se em validade ou invalidade (...). 
Os fatos jurídicos, inclusive atos jurídicos, podem exis\u19fr sem serem e\ufb01cazes. O testamento, antes da morte do testador, nenhuma outra e\ufb01cácia tem que a de negócio jurídico 
unilateral, que, perfeito, aguarda o momento da e\ufb01cácia. Há fatos jurídicos que são ine\ufb01cazes, sem que a respeito deles se possa discu\u19fr validade ou invalidade. De regra, os atos 
jurídicos nulos são ine\ufb01cazes; mas ainda aí, pode a lei dar efeitos ao nulo \u201d[18]. 
  
                               Fez vista grossa ao que a doutrina especializada construiu, na seqüência de PONTES DE MIRANDA, em obras importantes como as de ANTÔNIO JUNQUEIRA DE AZEVEDO
[19], MARCOS BERNARDES DE MELLO[20]; CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO[21]; NELSON HANADA[22]; YUSSEF SAID CAHALI[23], entre outros. 
                               Até mesmo a evolução da legislação brasileira sobre fraude contra credores, realizada fora do Código Civil foi desprezada, pois a Lei de Falência, de 1945, e os 
Códigos de Processo Civil de 1939 e 1973, já tratavam a fraude como tema ligado à ine\ufb01cácia e não à anulabilidade.    
                               É certo que os autores do projeto que se transformou no novo Código Civil não ignoram a dis\u19fnção técnica entre validade e e\ufb01cácia, pois um dos objetivos por eles 
perseguidos, segundo explicitado na Exposição de Mo\u19fvos, foi o de eliminar o vício do Código anterior de empregar, indiscriminadamente, \u201cpalavras que devem ter sen\u19fdo técnico 
unívoco\u201d; e, para tanto, cuidou de apontar, com propriedade, o que cons\u19ftuiu o sen\u19fdo de cada uma das referidas \ufb01guras jurídicas: 
\u201cTal orientação importou, desde logo, uma tomada de posição que se re\ufb02ete no corpo todo do Projeto, quanto à delicada, mas não despicienda, necessidade de dis\u19fnguir-se entre 
validade e e\ufb01cácia  dos atos jurídicos em geral e dos negócios jurídicos em par\u19fcular. Na terminologia do Anteprojeto, por validade se entende o complexo de requisitos ou valores formais que 
determina a vigência de um ato ,  por representar o seu elemento cons\u19ftu\u19fvo, dada a sua conformação com uma norma jurídica em vigor, seja ela impera\u19fva ou disposi\u19fva. Já a e\ufb01cácia 
dos atos se refere à produção dos efeitos , que podem exis\u19fr ou não, sem prejuízo da validade, sendo certo que a incapacidade de produzir efeitos pode ser coeva da ocorrência do ato ou 
da es\u19fpulação do negócio, ou sobrevir em virtude de fatos e valores emergentes\u201d[24]. 
  
                                Sem embargo do domínio dos conceitos e do confessado empenho de aplicá -los com \u201czelo e rigor\u201d  no tratamento da matéria rela\u19fva à validade e e\ufb01cácia dos 
negócios jurídicos, o resultado não foi o que se era de esperar [25]:  o  caso mais  \u1a1pico de ine\ufb01cácia rela\u19fva - a fraude contra credores - continuou expressamente tratado como de 
anulabilidade. 
                               Não foi apenas uma opção entre duas possibil idades técnicas de sistema\u19fzação jurídica; mas o emprego de nomen iuris  em \ufb02agrante contradição com a própria 
disciplina dada ao fenômeno jurídico, pois os efeitos que se atribuem à fraude não são, de fato, próprios da anulabilidade,  mas sim os que correspondem à  ine\ufb01cácia, na moderna 
categorização dos planos por que passa a declaração de vontade, desde sua emissão até alcançar a meta visada pelo negócio. 
                               Daí porque, nada obstante, o regime defeituosamente traçado pelo novo Código, para disciplinar a ação pauliana e seus efeitos sobre os atos pra\u19fcados em fraude 
contra credores,  haverá de ser  interpretado como sendo o da ine\ufb01cácia rela\u19fva e não o da anulabil idade, pela total   inadequação desta para operacionalizar a repressão da 
ques\u19fonada patologia do negócio fraudulento. 
                               Por outro lado, não se preconiza devesse o novo Código abrir um capítulo para a validade e outro para e\ufb01cácia[26], mesmo porque esta se manifesta de maneira não 
uniforme nas diferentes situações em que ocorre. O erro está em rotular de  invalidade  fenômeno que, por sua própria natureza,  se passa no terreno da  ine\ufb01cácia,  e não da 
anulabilidade. A impropriedade é, em suma, arrolar todos os defeitos do negócio jurídico nos estreitos limites da anulabilidade. À impugnação da fraude, portanto, te -se - ia de 
imputar o simples efeito de provocar o reconhecimento de sua ine\ufb01cácia perante os credores prejudicados. Nada mais. 
6. Os vícios de consen\u19fmento e a anulabilidade do negócio jurídico 
                               Embora afetem o elemento essencial da validade do negócio jurídico  - a declaração de vontade, que deve ser, em princípio, livre e consciente para sua natural 
e\ufb01cácia  - os vícios de consen\u19fmento não acarretam, por polí\u19fca legisla\u19fva, a inexistência, nem mesmo a nulidade do negócio por eles afetados. A sanção legal que o Código lhe 
aplica é apenas a anulabilidade (art. 171, II). 
                               O terreno dos defeitos do negócio jurídico oferece, portanto, rico material para observar e adequar as discu\u19fdas teorias da vontade e da declaração e suas variantes. 
6.1. Teoria da vontade real 
                               Segundo teoria sistema\u19fzada por SAVIGNY, a essência do negócio jurídico está no querer individual, isto é, na vontade mesma do autor da declaração negocial. Esta, 
portanto, opera apenas como instrumento de revelação daquela. Por isso, quando há con\ufb02ito entre a vontade e a declaração, é a vontade que haverá de prevalecer [27]. 
                               Levada ao extremo, todo ato afetado por vício de consen\u19fmento seria inválido diante da ausência de vontade  de que se ressente, seja por erro, dolo ou coação, ou por 
qualquer outro evento que impeça sua livre e consciente manifestação. 
                               Essa proteção ampla e irrestrita à vontade real não é, todavia, acolhida pela ordem jurídica, porque entraria em choque com o interesse geral, afetando a segurança 
das relações negociais. Se de um lado existe o interesse do declarante, que pra\u19fcou o negócio jurídico e que deseja preservar a pureza de sua vontade; de outro, há o interesse do 
meio social, onde o negócio jurídico estabelece uma expecta\u19fva de que a declaração de vontade produzirá os efeitos programados, não podendo, razoavelmente, aceitar que, por 
mo\u19fvos ín\u19fmos do declarante, se estabeleça o perigo da sua fuga da obrigação assumida.