CCJ0006-WL-PA-20-Direito Civil I-Novo-15843
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partes ao estado anterior à sua prá\u19fca (Novo Código Civil, art. 182; Código de 1916, 
art. 158), o reconhecimento da ine\ufb01cácia conserva as partes do negócio jurídico na mesma situação em que o ato as colocou. 
                               Nosso Código Civil de 1916, redigido em época em que a categoria da ine\ufb01cácia ainda não se achava cien\u19f\ufb01camente bem elaborada entre os juristas, englobou 
como caso de anulabilidade, por exemplo, a fraude contra credores, que os códigos posteriores vieram a tratar como hipótese de \u1a1pica ine\ufb01cácia rela\u19fva. 
                               Doutrina e jurisprudência, no entanto, puderam construir a teoria da fraude como de ine\ufb01cácia, levando em conta não só os próprios efeitos que o velho Código Civil 
lhe imputava e que não se igualavam aos da anulação verdadeira, mas também considerando um critério sistemá\u19fco estabelecido a par\u19fr de outras \ufb01guras similares à revocação 
pauliana e que foram tratadas por leis posteriores como sujeitas à ine\ufb01cácia rela\u19fva, por textos expressos (revocatória falencial e fraude de execução). 
                               Nada obstante, o novo Código Civil, volta a reproduzir textualmente o regime da fraude contra credores concebido pelo código an\u19fgo, mantendo-a como causa de 
anulabilidade do negócio jurídico e ignorando, por completo, a categoria dos atos ine\ufb01cazes. 
                               Essa visão equivocada e retrógrada do legislador, ainda que traduzido em literal disposição do novo estatuto civil, não impedirá, obviamente, que a verdadeira 
natureza da \ufb01gura jurídica seja retratada e proclamada por seus intérpretes e aplicadores. 
                               O fato de o legislador ignorar uma categoria ou \u19fpo jurídico não muda a natureza da coisa. 
                               A lei e a doutrina podem criar conceitos próprios para os ins\u19ftutos jurídicos, \ufb01xando- lhes elementos e requisitos, mas não podem criar tipos ou categorias, cuja 
existência cabe à ciência comprovar e reconhecer. Explica OLÍMPIO COSTA JÚNIOR: 
\u201cBem a propósito, se o conceito é abstrato e surge de pura abstração ou  \u2018dissociação do concreto \u2019  (HEGEL), o tipo representa um \u2018retorno à realidade \u2019  (ENGISCH) e se enraíza no  \u2018geral 
concreto\u2019 (LARENZ), como instrumento de compreensão e explanação de fenômenos que se reiteram de determinado modo\u201d[15]. 
                               Por isso mesmo, \u201cos \u19fpos, diferentemente dos conceitos, não se criam ou se inventam - somente se descobrem ; nem se de\ufb01nem em seus próprios termos  - apenas se 
descrevem \u201d[16].  Daí que o fato de o Código lidar apenas com as categorias da nulidade e da anulabilidade não impede que a ciência jurídica descubra no bojo do ordenamento 
posi\u19fvo situação patológica do ato jurídico que não con\ufb01gure nem o \u19fpo da nulidade nem o da anulabilidade, sem embargo de ter recebido do legislador o rótulo de um deles. 
                               O que importa é descobrir cien\u19f\ufb01camente a natureza da coisa para, no resultado prá\u19fco visado pelo legislador, encontrar o critério que realmente vai conduzir à 
classi\ufb01cação do fenômeno no local que lhe corresponde. Nesse trabalho, evidentemente, é despida de maior signi\ufb01cado a  opinião  do legislador, já que concebida a \ufb01gura jurídica, 
não lhe é dado alterar ou ignorar a natureza da coisa dentro do mundo do direito onde ela se insere. O legislador não tem compromisso cien\u1a1\ufb01co com o direito. O jurista que 
interpreta e aplica a norma do legislador, ao contrário, tem sempre de agir cien\u19f\ufb01camente, a \ufb01m de encontrar e de\ufb01nir o efeito concreto do texto legislado. 
                               O intérprete da lei,  por  isso, não pode, de maneira alguma, ser um mero repe\u19fdor das palavras do legislador. Como cien\u19fsta, dispõe de método próprio para 
desvendar o sen\u19fdo e alcance da norma, sem se escravizar à literalidade do texto legal. 
                               Descoberta uma nova categoria jurídica e sistema\u19fzado o seu posicionamento no esquema geral do direito, os ins\u19ftutos an\u19fgos do ordenamento em vigor haverão 
de sofrer o impacto do avanço cien\u1a1\ufb01co ob\u19fdo. 
4. O erro de nominar a fraude contra credores de anulabilidade e não de ine\ufb01cácia 
                               Repe\u19fr a quali\ufb01cação da fraude como causa de anulabilidade do negócio jurídico, exatamente como o fazia o Código velho, importa submeter a lei nova a toda 
censura que já se acumulara contra o diploma revogado, a propósito do tema. 
                               Com efeito, a não ser por apego à literalidade do Código de 1916 ninguém defendia a anulabilidade do negócio pra\u19fcado em fraude de credores. Mesmo assim já se 
tranquilizava a tese de que não mais se poderia solucionar o problema exegé\u19fco in casu como se a textualidade fosse o único caminho disponível ao aplicador da norma legal. Fazer 
prevalecer a simples letra da lei, equivaleria, a desprezar, por inteiro, o quadro histórico em que o velho Código Civil foi redigido, e não atribuir in\ufb02uência alguma aos interesses 
visados pelo legislador, aos \ufb01ns colimados pela sanção oculta sob a literalidade dos arts. 106 a 113 do Estatuto de 1916, abstendo -se, ainda, do cotejo sistemá\u19fco da pauliana com 
outras revocações provocadas pela  fraude contra credores disc ipl inadas por  le is  poster iores ao Código.  Assim agindo,  acabar -se - i a  por   confer i r  à  de\ufb01n ição  da   le i  uma 
inatacabilidade que a moderna ciência do direito não reconhece. Vem a propósito a advertência de FÁBIO KONDER COMPARATO: 
                                                \u201cA nova ciência  jurídica não despreza, evidentemente, os conceitos e as de\ufb01nições, como instrumentos  indispensáveis à aplicação do direito,  mas 
considera tais instrumentos sempre perfec\u1a1veis e provisórios, em função da constante observação histórica da vida humana em sociedade\u201d[17]. 
  
                               No nosso entender, a interpretação dos disposi\u19fvos codi\ufb01cados referentes à ação pauliana, que o novo Código herdou do anterior, tem de ser feita a par\u19fr das 
seguintes premissas: 
                               a) ao tempo do Código velho, a doutrina brasileira não havia desenvolvido, ainda, a teoria da  ine\ufb01cácia  como fenômeno dis\u19fnto da nulidade e da anulabilidade; 
                               b) ao sancionar a fraude contra credores, o Código vetusto levou em conta o con\ufb02ito de interesses entre o poder de dispor do devedor e o direito à garan\u19fa 
patrimonial com que conta o credor e valorizou a repulsa que a consciência social faz a toda espécie de má -fé; 
                               c) declarando anulável  o ato do devedor prejudicial  à garan\u19fa do credor,  o obje\u19fvo visado com tal  sancionamento foi ,  sem dúvida, o de sanar o seu prejuízo,  
restabelecendo a garantia patrimonial violada pelo ato dispositivo do devedor insolvente. 
                               Visando coibir a fraude e restaurar a garantia genérica do credor sobre o patrimônio do devedor, o an\u19fgo Código declarou, textualmente, que o ato de disposição 
deste, pra\u19fcado em estado de insolvência, era anulável. Mas não o fez dentro do conceito que a própria codi\ufb01cação assentara para os efeitos da anulabilidade, e, sim, para alcançar 
uma e\ufb01cácia especial ou  sui generis . 
                               Com efeito, ao sistema\u19fzar as nulidades o an\u19fgo Código Civil de\ufb01niu como conseqüência natural da anulação do ato jurídico a res\u19ftuição das partes \u201cao estado em 
que antes se achavam \u201d (art. 158). Quando, porém, tratou da fraude contra credores, teve a preocupação de estatuir efeito diverso para aquilo que chamava de anulação do ato do devedor 
prejudicial a seus credores. Não deixou a e\ufb01cácia da  \u201canulação \u201d seguir sua disciplina geral, que seria a de fazer com que o adquirente res\u19ftuísse ao alienante o bem deste adquirido, 
ao mesmo tempo em que este \ufb01caria sujeito à reposição do preço em favor daquele. Aqui, o que se estatuiu foi que a vantagem resultante da  revocação não seria a res\u19ftuição das 
partes do contrato fraudulento ao estado anterior, mas a integração