Uma Breve Análise do
7 pág.

Uma Breve Análise do


DisciplinaTeoria e Método em Geografia119 materiais3.160 seguidores
Pré-visualização3 páginas
de Boher, a mecânica quântica demonstra que não é possível observar ou medir um objeto sem interferir nele, \u201ca tal ponto que o objeto que sai de um processo de medição não é o mesmo que lá entrou\u201d(6). Três são as principais conseqüências trazidas pela mecânica quântica: 1ª) sendo limitada a estrutura do conhecimento que pode ser adquirido, as leis da física são meramente probabilísticas; 2ª) o mecanicismo é inviabilizado uma vez que a totalidade do real não é reduzível à soma das partes da divisão feita para a medição do objeto; 3ª) é muito mais complexa a divisão entre sujeito e objeto. 
A terceira condição teórica está baseada na teoria de Gödel, a qual acaba por questionar o rigorismo matemático como regra absoluta da constituição da natureza. A principal conseqüência dessa teoria é possibilitar a formulação de proposições \u201cindecidíveis\u201d mesmo à matemática, proporções que não podem ser matematicamente nem refutadas, nem demonstradas. 
A quarta e última condição teórica, representada principalmente pela teoria de Prigogine, está relacionada à quebra do modelo de mecanicismo linear do modelo newtoniano. Há, a partir da segunda metade do século XX, o desenvolvimento de um movimento convergente entre ciências naturais e sociais, caracterizado em grande parte pela transdicisplinaridade, designado por Jantsch como o \u201cparadigma da auto-organização\u201d(7). 
Esta série de condições teóricas apresentadas propiciaram uma profunda reflexão epistemológica sobre o conhecimento científico. Duas grandes reflexões podem ser destacadas: 1ª) questiona-se o conceito de lei e de causalidade; 2ª) releva-se antes o conteúdo do conhecimento do que a sua forma. 
Nos últimos parágrafos do texto são apresentadas, em aspectos genéricos, algumas condições sociais proporcionadas pela crise do paradigma dominante. 
4. O PARADIGMA EMERGENTE 
O autor propõe um modelo emergente, o qual denomina \u201cparadigma de um conhecimento prudente para uma vida decente\u201d(8). Este modelo estrutura-se em um paradigma científico de conhecimento prudente e em um paradigma social de uma vida decente. Para justificar o seu modelo, Boaventura utiliza-se de quatro princípios sobre o conhecimento: 1º) todo conhecimento científico-natural é científico-social; 2º) todo conhecimento é local e total; 3º) todo conhecimento é autoconhecimento; 4º) todo conhecimento científico visa constituir-se em senso comum. 
5. ANÁLISE CRÍTICA 
Aproveito esta parte do trabalho para propor algumas observações sobre assuntos já apresentados por Boaventura em sua obra. Também neste momento, creio que seja relevante uma análise dos quatro pontos propostos pelo autor em seu novo paradigma (último capítulo da obra). 
Boaventura de Sousa Santos propõe um novo modelo de ciência a partir da inter-relação entre ciências naturais e ciências sociais, fraturando o modelo totalitário das ciências naturais, via única e possível para atingir-se uma \u201cverdade universal\u201d. \u201cVerdade\u201d essa adquirida por herança do deslumbramento ocasionado pelas teorias surgidas, principalmente a partir do século XIX, como o evolucionismo de Darwin, o positivismo de Comte e a criminologia de Lombroso. Essas teorias possuíam em seu âmago uma semelhança universal, a de sustentarem os seus estudos, como o a origem da natureza e a natureza do homem, em valores matemáticos, os quais explicariam o mundo racionalmente (e mensuravelmente), garantindo a previsibilidade fenomenológica da natureza. 
Não distantes do século XIX, os dias atuais ainda demonstram que a impregnação da idéia deslumbrante da cientificidade (natural) moderna ainda persiste no ensino prestado pelas mais diversas instituições de ensino. Não que as ciências naturais não possuam relevante valor, pelo contrário, contribuem e muito. Porém, ocorre que o modelo mensurável de \u201cverdade\u201d parece ser, ainda hoje, por muitos almejado como maneira perfectibilizada de alcançar-se o onicompreensivismo, mesmo nos campos em que haja tremenda subjetividade, como são aqueles em que a sociedade e, principalmente, o homem, como indivíduo, aparecem como principais objetos de análise. 
Ora, me baseio nessa observação por meio de uma experiência propriamente vivida. A matemática, verdadeiro paradigma de ciência natural, onde a regra dos \u201cnúmeros previsíveis\u201d impera, sempre foi sobremaneira valorizada em detrimento das disciplinas que envolviam o estudo de questões onde suas regras não poderiam ser aplicadas diretamente (em grande parte pela presença da subjetividade), como por exemplo a filosofia. Não por acaso, uma vez que a herança de teorias como a darwinista persiste em nosso meio, demonstrando clara necessidade de reavaliação dos métodos e valores acerca ensino acadêmico. Deve-se almejar um sistema de ensino do conhecimento onde prevaleçam conjuntamente, em paridade de relevância, disciplinas inerentes tanto às ciências sociais quanto às ciências naturais. Permite-se com essa conduta, um melhor acesso ao conhecimento da sociedade, do ser humano e da cultura pelos aprendizes. 
À segunda proposta de conhecimento do festejado paradigma emergente proposto por Boaventura de Sousa Santos (\u201cTodo o conhecimento é local e total\u201d(9)) gostaria de associar a Teoria dos Sistemas. De relevante iniciativa do biólogo alemão Ludwig von Bertalanffy, esta teoria demonstra-se cada dia mais presente nos estudos interdisciplinares acadêmicos e institucionais. O autor português demonstra que o conhecimento propagado pela ciência moderna estava pautado no avanço da especialização, podendo ser sucintamente compreendido no binômio progressivo parcelização-rigorismo, ou seja, quanto mais restrito é o objeto em que incide o estudo mais rigoroso será o conhecimento sobre ele. Logo após, sustenta que não basta que o conhecimento seja adquirido de forma local, isto é, que sejam desenvolvidas análises, descrições e estudos em geral sobre um único objeto ou em um único campo disciplinar, é necessário além disso que haja um compartilhamento sobre a pluralidade de possibilidades de condições a serem \u201cintrojetadas\u201d naquele estudo. Esse compartilhamento revela-se pelas vias da transdisciplinaridade e da interdisciplinaridade. \u201cE como Geertz, podemos perguntar se Foucault é historiador, filósofo, sociólogo ou cientista político\u201d(10). 
A Teoria Geral dos Sistemas, desenvolvida ao longo do século XX, tendo o biólogo Karl Ludwig von Bertalanffy como relevante precursor teórico, vai, em grande parte, ao encontro da proposta de paradigma emergente apresentado por Boaventura de Sousa Santos, senão vejamos. A Teoria dos Sistemas, tendo hoje grande representação literária na obra \u201cA teia da Vida\u201d (cujo título original é \u201c The Web of Life\u201d ) de Fritjof Capra, apresenta dentre suas linhas mestres uma valorização maior do \u201ccomportamento coletivo\u201d em relação à atuação independente dos sujeitos que compõem um determinado sistema. A questão nevrálgica a ser explorada pela Teoria dos Sistemas não é a compreensão/controle/previsibilidade sobre um objeto isolado de uma análise (como a ciência moderna pretendeu), mas sim compreender a estrutura organizacional e as conexões interiores e exteriores entre o objeto de estudo e o ambiente do qual ele faz parte(11). Dito de outra maneira, o estudo isolado de um objeto (ou parte dele) ou o estudo de uma simples causalidade de um determinado problema (determinismo mecanicista) dificilmente explicará, completamente, a relação que existe entre o objeto da pesquisa e o ambiente que o cerca. Portanto, é necessário que o estudo desenvolvido considere ao mesmo tempo as multirelações (seja entre objeto-objeto, seja entre objeto-ambiente, seja entre outro tipo de relação) e as multicausalidades (seja entre objeto e resultado, seja entre ambiente e influência em resultado, seja, novamente, em outro tipo de relação) existentes entre ambos, objeto e ambiente. 
Para a busca de um conhecimento mais amplo e universal é fundamental que sejam conciliadas as diversas áreas da ciências existentes hoje em dia (sejam as naturais, sociais, humanas, ou aquelas sob quaisquer outras denominações).