gorgias
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Versão eletrônica do diálogo platônico \u201cGórgias\u201d 
Tradução: Carlos Alberto Nunes 
Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia) 
Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/ 
 
A distribuição desse arquivo (e de outros baseados nele) é livre, desde que se dê os créditos da digitalização aos membros do grupo 
Acrópolis e se cite o endereço da homepage do grupo no corpo do texto do arquivo em questão, tal como es tá acima. 
 
GÓRGIAS 
 
I \u2014 Na guerra e no combate, Sócrates, segundo o provérbio, é que é preciso proceder 
dessa maneira. 
Sócrates \u2014 Será que chegamos atrasados e, como se diz, depois da festa? 
Cálicles \u2014 Sim, e uma festa citadina! Agora mesmo, Górgias nos expôs um mundo de 
coisas belas. 
Sócrates \u2014 A culpa, Cálicles, é do nosso amigo Querefonte, que nos reteve na ágora. 
Querefonte \u2014 Não faz mal, Sócrates; vou reparar o dano. Como amigo meu, que é, 
Górgias falará para nós, ou agora, ou noutra ocasião, conforme preferires. 
Cálicles \u2014 Que estás dizendo, Querefonte! Sócrates deseja ouvir Górgias? 
Querefonte \u2014 Para isso é que estamos aqui. 
Cálicles \u2014 Então, quando quiserdes, ide a minha casa, pois Górgias hospedou-se 
comigo e vos falará. 
Sócrates \u2014 É muita gentileza de tua parte, Cálicles. Mas, dispor-se-á ele, de fato, a 
conversar conosco? Desejo perguntar-lhe em que consiste a força de sua arte e o que é que 
ele professa e ensina. Quanto ao resto da exposição, poderá ficar, como disseste, para outra 
oportunidade. 
Cálicles \u2014 Não há como falares tu mesmo, Sócra tes. Isso, aliás, faz parte de sua 
exposição. Neste momento, convidou as pessoas ali presentes a lhe dirigirem as perguntas 
que quisessem, comprometendo-se a responder a todas. 
Sócrates \u2014 Ótimo, Querefonte . Então, fala -lhe. 
Querefonte \u2014 Que devo perguntar-lhe? 
Sócrates \u2014 O que ele é. 
Querefonte \u2014 Que queres dizer com isso? 
Sócrates \u2014 Se ele, por exemplo, fabricasse sapatos, responderia que trabalhava com 
couro. Ou não compreendes o que eu falo? 
II \u2014 Querefonte \u2014 Compreendo e vou perguntar-lhe. Dize-me, Górgias: é verdade o 
que afirmou o nosso amigo Cálicles, que te comprometes a responder a seja o que for que te 
perguntarem? 
Górgias \u2014 É verdade, Querefonte; foi isso mesmo que declarei há pouco, e posso 
assegurar-te que há muitos anos ninguém me apresentou uma questão nova. 
Querefonte \u2014 Tanto mais fácil, Górgias, para responderes. 
Górgias \u2014 Depende apenas de ti, Querefonte, fazer a experiência. 
Polo \u2014 Sim, por Zeus. Mas, se estiveres de acordo, Querefonte, faze a experiência 
comigo. Acho que Górgias deve estar cansado de tanto falar. 
Cálicles \u2014 Como assim, Polo? Pensas que podes responder melhor do que Górgias? 
Polo \u2014 E o que vai nisso? Basta que seja suficiente para ti. 
Cálicles \u2014 Nada me vai nisso. Então, se assim preferes, responde. 
Polo \u2014 Pergunta. 
Cálicles \u2014 Vou perguntar. Se Górgias fosse profissional da arte que seu irmão 
Heródico exerce, por que nome certo o designaríamos? O mesmo que damos àquele, não é 
verdade? 
Polo \u2014 Perfeitamente 
Cálicles \u2014 Se disséssemos, portanto que ele era médico, ter-nos -íamos expressado com 
correção. 
Polo \u2014 Sim. 
Cálicles \u2014 E caso ele fosse perito na arte de Aristofonte, filho de Aglaofonte, de que 
modo lhe chamaría mos com acerto? 
Polo \u2014 Pintor, evidentemente. 
Cálicles \u2014 E agora, de que arte ele entende e por que nome certo devemos denominá-
lo? 
Polo \u2014 Querefonte, no mundo há muitas artes experimentais que a experiência 
descobriu. A experiência faz que nossa vida seja dirigida de acordo com a arte, e a 
inexperiência a entre ga ao acaso. Uns são proficientes numas; outros, noutras; cada um a seu 
modo; os me lhores o são nas melhores. Górgias é um destes e participa da mais nobre das 
artes. 
Sócrates \u2014 Górgias, parece que Polo tem muita prática de falar; porém não cumpre o 
que prometeu a Que refonte. 
Górgias \u2014 Como assim, Sócrates? 
Sócrates \u2014 O que digo é que ele não responde exa tamente ao que lhe é perguntado. 
Górgias \u2014 Então, se quiseres, tu mesmo podes in terrogá-lo. 
Sócrates \u2014 Não; porém, se não te aborreceres de responde r, com a maior satisfação te 
dirigirei as perguntas. Do que Polo falou, tornou-se-me evidente que ele se tem dedicado 
mais à arte denominada retórica do que à da conversação. 
Polo \u2014 Como assim, Sócrates? 
Sócrates \u2014 Porque, Polo, te havendo perguntado Querefonte em que arte Górgias é 
experiente, elogias a sua arte como se alguém a tivesse diminuído, porém não declaraste qual 
ela seja. 
Polo \u2014 Não respondi que é a mais bela? 
Sócrates \u2014 Respondeste; mas ninguém te interpelou sobre o valor da arte de Górgias, 
porém qual seja ela e que nome, por isso, devemos dar a Górgias.Assim como respondeste 
antes a Querefonte, com clareza e concisão quando ele se dirigiu a ti, declara -nos agora qual 
é a arte de Górgias e que nome devemos dar a este. Mas é preferível, Górgias, que tu mesmo 
fales. Por que modo deves ser designado, como profissional de que arte? 
Górgias \u2014 De retórica, Sócrates. 
Sócrates \u2014 Então, teremos de dar-te o nome de orador? 
Górgias \u2014 E excelente orador, Sócrates, o que só de nomear me envaidece, se q uiseres 
aplicar no meu caso a linguagem de Homero. 
Sócrates \u2014 É isso mesmo que eu quero. 
Górgias \u2014 Então, chama-me assim. 
Sócrates \u2014 E não devemos também dizer que podes ensinar tua arte a outras pessoas? 
Górgias \u2014 E é o que, de fato, anuncio, não apenas a qui como em outras localidades. 
Sócrates \u2014 E não consentirias, Górgias, em prosseguir numa troca de perguntas e 
respostas, assim como estamos conversando, e em deixar para outra ocasião os discursos 
prolixos que Polo iniciou? Porém cumpre o que nos prometeres e dispõe-te a responder por 
maneira concisa às perguntas que te forem apresentadas. 
Górgias \u2014 Há respostas, Sócrates, que exigem exposição mais particularizada. 
Contudo, procurarei esforçar-me em ser breve, pois um dos pontos de que me gabo é de 
ninguém dizer as mesmas coisas com maior concisão do que eu. 
Sócrates \u2014 Isso é que é preciso, Górgias; dá-me uma amostra desse teu talento, a 
breviloquência, e deixemos para outra ocasião os discursos estirados. 
Górgias \u2014 Assim farei, para que venhas a confessar que nunca ouviste ninguém falar 
com maior concisão. 
IV \u2014 Sócrates \u2014 Então, comecemos. Já que te apresentas como entendido na arte da 
retórica e também como capaz de formar oradores: em que consiste particularmente a arte da 
retórica? Assim, por exemplo, a arte do tecelão se ocupa com o preparo das roupas, não é 
verdade? 
Górgias \u2014 Sim. 
Sócrates \u2014 E a música, com a composição do canto? 
Górgias \u2014 Sim. 
Sócrates \u2014 Por Hera, Górgias! Tuas respostas me agradam; mais concisas não 
poderiam ser. 
Górgias \u2014 Eu também, Sócrates, acho que estou respondendo como é preciso. 
Sócrates \u2014 Dizes bem. Então, responde -me da mesma forma a respeito da retórica: 
qual é o objeto particular do seu conhecimento? 
Górgias \u2014 Os discursos. 
Sócrates \u2014 De que discursos, Górgias? Porventura os que indicam aos doentes o 
regime a ser seguido para sararem? 
Górgias \u2014 Não. 
Sócrates \u2014 Logo, a retórica não diz respeito a todos os discursos. 
Górgias \u2014 É claro que não. 
Sócrates \u2014 No entanto, ela ensina a falar. 
Górgias \u2014 Sim. 
Sócrates \u2014 E, por conseguinte, também a compreender os assuntos sobre que ensina a 
falar. 
Górgias \u2014 Como não? 
Sócrates \u2014 E a medicina, a que nos referimos há pouco, não deixa também os doentes 
capazes de pensar e de falar? 
Górgias \u2014 Necessariamente. 
Sócrates \u2014 Sendo assim, a medicina, ao que parece, também se ocupa com discursos? 
Górgias \u2014 Sim. 
Sócrates \u2014 Os que se referem às doenças? 
Górgias \u2014 Exatamente. 
Sócrates \u2014 E a ginástica, não se ocupará também com discursos relativos à boa ou má 
disposição do corpo? 
Górgias